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Sem
ziriguidum, sem balacobaco,
sem borogodó e sem telecoteco
Luís
Pimentel - JULHO DE 2002
Com
a morte de Sargentelli, mais uma baixa registrada entre as patentes
do samba. Pelo menos, entre as legítimas (os oficiais de cavalaria
não contam, pois esses continuam dando coice à vontade,
nos palcos e na mídia). Há muito tempo partiu o General
da Banda, o destemido Blecaute (de quem o Aldir sempre lembra toda vez
que ouve falar em "Sombra e Sombrinha"). De lá pra
cá, o exército vem perdendo forças: se foram o
major Zé Kéti, o capitão João Nogueira,
o tenente João do Vale. "Ces´t la vie que a minha
não veio", diria o marechal Morengueira.
Foi-se o ziriguidum, perdemos todos com a retirada estratégica
do grande sargento, comandante-em-chefe das mais belas tropas com as
quais contamos aqui e no front: as inúmeras mulatas, as que ficaram
famosas ou não, viraram estrelas ou não, mas que hoje
lembram com imensa saudade do amigo, colega, patrão e anjo da
guarda Oswaldo Sargentelli. Conviveu com o mundo do samba desde criança
e deu cores e brilho às noites do Rio. Inventou a mulatologia;
agora, quem quiser que a estude.
Pouco antes do infarto, Sargentelli gravou cena de novela, ao lado de
uma ex-mulata Oba-Oba que ficou famosa (com todos os méritos,
a grande atriz Solange Couto). Né brinquedo, não: o sargento
falou, cantou e contou histórias. Histórias, aliás,
nunca lhe faltaram. Até porque, foi rico e virou pobre uma porrada
de vezes, era sobrinho de Lamartine Babo, tinha voz de cantor de ópera,
não comia as mulatas com quem trabalhava, torcia pelo Botafogo
(dizia respirar em preto e branco e seu corpo foi velado na sede do
clube), foi advogado do diabo e gostava de escrever. Mensalmente, contava
algumas dessas histórias nas páginas do Jornal de Copacabana,
bairro onde morou por muitos anos e só há poucos meses
mudou-se para a Barra da Tijuca.
Atualmente, apresentava um programa semanal de entrevistas na TVE, A
Verdade (será substituído por Fernando Pamplona, outro
craque em sabedoria e elegância), e preparava um livro de memórias.
Entrevistando a si mesmo, disse que queria "voltar a falar, contar
e cantar a história da música popular brasileira. Preciso
disto para viver. Sinto-me em um beco sem saída. A moçada
está na contramão, dizendo que estou gagá".
Não estava. Aos 78 anos, era um dos mais lúcidos da tropa.
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Homenagem
à Sargentelli
Virgílio
Rocha - JULHO DE 2002
Ainda
está para ser feita uma análise maior da presença
de Sargentelli no cenário artístico brasileiro, até
mesmo sob o viés sociológico.
Muito tempo antes do "politicamente correto", Sargentelli
criou oportunidades para milhares de mulatas, em época de racismo
ainda forte. Sua vida foi ponteada pelos três emblemáticos
símbolos da cultura brasileira: Futebol, Samba e a Mulata. (escrevo
em caixa alta, porque assim Sargento o faria)
Também não se pode esquecer seu sincretismo religioso.
Respeitava todos credos, incorporando e divulgando expressões
da umbanda e candomblé antes até de Vinicius de Morais
e Baden Powell.
Era apaixonado pela sensualidade, criatividade e malandragem do brasileiro,
traços característicos de nossa miscigenação,
admirada até por outros povos.
Gostava de lembrar quando era locutor encarregado do noticiário
da Segunda Guerra. Sempre que precisava falar nomes complicados de generais
alemães ou russos, abria um clip de papel e o raspava no microfone,
emitindo estática para quem ouvia os informes. - Ô Sargentelli!-porque
mesmo com céu claro, só dá estática no seu
horário? Perguntavam seus colegas...
Um de seus programas era encerrado com as doze badaladas de carrilhão.
Certa ocasião, o mecanismo emperrou na quarta badalada. Sargento
rapidamente botou as mãos em concha e soltou sua voz de trovão:
Blén, Blén....com todos no estúdio rolando de tanto
rir.Histórias como estas, de Sargentelli, existem milhares.
Generoso, não deixava de ajudar quem precisasse, e nunca cobrou
de volta. Cobrou sim, nos últimos tempos, trabalho. Dizia: "Estou
lúcido, memória 100% e quero trabalhar". Fernando
Barbosa Lima foi quem confiou no taco do amigo e o chamou para fazer
"A verdade de...".
Dentre tantos que prometeram e prometeram...
Profissional competente e talentoso era o primeiro a enviar seu texto
para o jornal, manuscrito, feito num ato só, do tamanho certo,
com início, meio e fim, conteúdo saboroso, que deleitava
a todos.
Nunca perdeu o bom humor mesmo em tempos de ostracismo.
Nos
deixou como sempre quis, rodeado de amigos, em cena, no palco, sob os
holofotes.
Saravá meu irmão!!
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