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Glauco
Rodrigues: um pintor brasileirista
Julia
Viegas
Um
dos maiores pintores vivos do Brasil, Glauco Rodrigues, é morador
de Copacabana há mais de 50 anos. Dono de um estilo particular
de pintura, onde as molduras também são pintadas. Seus
quadros abordam temas brasileiros e suas figuras são desenhadas
com pre-cisão (como ele mesmo disse). O trabalho de Glauco foi
definido por Rubem Braga como uma pintura brasileirista.
Muito conceituado, ele tem painéis executados em locais públicos,
obras em museus e coleções particulares nacionais e estrangeiras.
Alguns de seus trabalhos que estão na Cidade são: Machado
de Assis, um painel que se encontra na Academia Brasileira de
Letras e quatro painéis para a sede da prefeitura. O painel Salvador,
no aeroporto da Bahia, Mário Covas, na Pinacoteca
do Estado de São Paulo e até um quadro oferecido pelo
governo brasileiro, em 1980, ao Papa João Paulo II, por ocasião
da sua primeira vinda ao Brasil, intitulado Primeira missa.
Como
surgiu o seu amor pela pintura?
Não
sei dizer. Desenho desde pequeno. Antes do primário. Aos dezessete
anos decidi que ia ser pintor, nem sabia direito o que era isso. Comecei
a pintar assim, por instinto. Na minha família não tinha
ninguém que pintava. Na minha cidade também não
(Bagé, Rio Grande do Sul).
Como
foi o início?
Eu me reunia com os meus amigos para pintar. No verão, não
tinha nada para fazer, não tinha assunto. Então a gente
pintava. Fazia muito frio. Dessa turma, faziam parte: Glênio Bianchetti,
Demi Bonorino e Danúbio Gonçalvez. A namorada do Glênio
estudava no colégio de freiras e elas ensinavam as meninas a
pintarem. Então, ela passou esses conhecimentos para o Glênio,
e ele ensinou todo mundo.
Nós não sabíamos as técnicas. Eu tive um
amigo que tentou dar umas aulas para o pessoal. Ele era mais velho.
Achou que iríamos entender, mas, não. Começamos
a ficar assustado quando ele falou sobre cores quentes, frias, isso
tudo. A gente não sabia nada. Nos anos 70, nós nos reunimos
e fomos para Bagé expor nossos trabalhos.
Quando
você começou a pintar profissionalmente?
Mais ou menos com 17 anos. Eu estava fazendo o científico lá
em Bagé (lá não tinha Clássico). A gente
fazia exposições no auditório do Correio do Povo
em Porto Alegre. Éramos Os novos de Bagé.
O
que vocês pintavam?
Paisagens. Pintávamos ao ar livre, com a paisagem na frente.
O inverno, em Bagé, era um gelo. Nós não sentíamos
frio. Íamos para os lugares e pintávamos a natureza.
Por
que você veio para o Rio?
Em Bagé era impossível, não tinha escola, nem oportunidade
de viver de pintura. Aqui era a capital cultural. Para trabalhar com
arte tinha que vir para cá.
Quando
você veio para o Rio?
Eu tinha 21 anos. Ganhei uma bolsa para estudar na Escola de Belas Artes.
A prefeitura de Bagé tinha me dado esse prêmio. Eu ganhava
uma mesada para ficar aqui estudando. Mas, suspenderam a bolsa, até
hoje eu não sei qual foi o motivo. Então, eu tive que
voltar para o sul, porque fiquei sem dinheiro para me sustentar aqui.
Depois, voltei para cá. Em 1959, foi inaugurada a primeira galeria
de arte do Rio. Eu recebia um salário para ficar aqui. Era um
contrato de exclusividade. Eu pintava para eles. Com esse contrato pude
viver de arte. Então, fui para Roma. O embaixador do Brasil me
Roma era amigo do meu sogro. Fiquei lá pintando 3 anos e meio.
E
Copacabana?
Quando voltei da Itália, fui morar no Leblon. Mas, lá
era o fim do mundo. Muito longe de tudo, não dava
para ficar lá. Então vim morar aqui. Eu acho Copacabana
o bairro mais charmoso do Rio. E também, aqui tem tudo. Acho
que não moraria em outro lugar. Claro que sinto saudades do Rio
de antigamente. Quando cheguei aqui era muito mais tranqüilo.
O
que você mais gosta no bairro?
Caminhar no calçadão de manhã cedo. A paisagem
da praia é muito linda.
Se
você fosse definir o seu estilo de pintura, como seria?
Sou um pintor brasileiro. Quero pintar o Brasil. Não me interesso
pelo mercado exterior. Pinto coisas muito ligadas ao povo. Tive uma
fase abstrata... Poderia dizer que minha arte é Figurativa. Minhas
figuras são desenhadas com precisão.
Você
pinta todo dia?
Sim. De 9 às 13h. Depois, almoço. E volto à trabalhar
até as 19h. Eu acho que a disciplina é fundamental.
Tem
alguma exposição em vista?
Nenhuma. Para fazer uma exposição dá muito trabalho
e se gasta muito dinheiro. A última que fiz foi em Porto Alegre,
quando surgiram as molduras fazendo parte do próprio quadro.
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