Leblon • Ipanema • Copacabana • Leme • Botafogo • Laranjeiras
 Hoje: 23 junho, 2003 3:09 PM
ANO VIII - Nº 96 - MAIO A JUNHO 2003
CAPA
ACONTECEU
QUEM SOMOS
COLUNAS/COLUNISTAS
ASCOPA
MODA
BELEZA
HORÓSCOPO
TERCEIRA IDADE
FALA VIZINHO
COMUNIDADE
HOMENAGEM
ANIMAMAIS/CULTURA

 

 

Glauco Rodrigues: um pintor “brasileirista”

Julia Viegas

Um dos maiores pintores vivos do Brasil, Glauco Rodrigues, é morador de Copacabana há mais de 50 anos. Dono de um estilo particular de pintura, onde as molduras também são pintadas. Seus quadros abordam temas brasileiros e suas figuras são desenhadas com pre-cisão (como ele mesmo disse). O trabalho de Glauco foi definido por Rubem Braga como “uma pintura brasileirista”. Muito conceituado, ele tem painéis executados em locais públicos, obras em museus e coleções particulares nacionais e estrangeiras. Alguns de seus trabalhos que estão na Cidade são: “Machado de Assis”, um painel que se encontra na Academia Brasileira de Letras e quatro painéis para a sede da prefeitura. O painel “Salvador”, no aeroporto da Bahia, “ Mário Covas”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e até um quadro oferecido pelo governo brasileiro, em 1980, ao Papa João Paulo II, por ocasião da sua primeira vinda ao Brasil, intitulado “Primeira missa”.

Como surgiu o seu amor pela pintura?
Não sei dizer. Desenho desde pequeno. Antes do primário. Aos dezessete anos decidi que ia ser pintor, nem sabia direito o que era isso. Comecei a pintar assim, por instinto. Na minha família não tinha ninguém que pintava. Na minha cidade também não (Bagé, Rio Grande do Sul).

Como foi o início?
Eu me reunia com os meus amigos para pintar. No verão, não tinha nada para fazer, não tinha assunto. Então a gente pintava. Fazia muito frio. Dessa turma, faziam parte: Glênio Bianchetti, Demi Bonorino e Danúbio Gonçalvez. A namorada do Glênio estudava no colégio de freiras e elas ensinavam as meninas a pintarem. Então, ela passou esses conhecimentos para o Glênio, e ele ensinou todo mundo.
Nós não sabíamos as técnicas. Eu tive um amigo que tentou dar umas aulas para o pessoal. Ele era mais velho. Achou que iríamos entender, mas, não. Começamos a ficar assustado quando ele falou sobre cores quentes, frias, isso tudo. A gente não sabia nada. Nos anos 70, nós nos reunimos e fomos para Bagé expor nossos trabalhos.

Quando você começou a pintar profissionalmente?
Mais ou menos com 17 anos. Eu estava fazendo o científico lá em Bagé (lá não tinha Clássico). A gente fazia exposições no auditório do Correio do Povo em Porto Alegre. Éramos “Os novos de Bagé”.

O que vocês pintavam?
Paisagens. Pintávamos ao ar livre, com a paisagem na frente. O inverno, em Bagé, era um gelo. Nós não sentíamos frio. Íamos para os lugares e pintávamos a natureza.

Por que você veio para o Rio?
Em Bagé era impossível, não tinha escola, nem oportunidade de viver de pintura. Aqui era a capital cultural. Para trabalhar com arte tinha que vir para cá.

Quando você veio para o Rio?
Eu tinha 21 anos. Ganhei uma bolsa para estudar na Escola de Belas Artes. A prefeitura de Bagé tinha me dado esse prêmio. Eu ganhava uma mesada para ficar aqui estudando. Mas, suspenderam a bolsa, até hoje eu não sei qual foi o motivo. Então, eu tive que voltar para o sul, porque fiquei sem dinheiro para me sustentar aqui. Depois, voltei para cá. Em 1959, foi inaugurada a primeira galeria de arte do Rio. Eu recebia um salário para ficar aqui. Era um contrato de exclusividade. Eu pintava para eles. Com esse contrato pude viver de arte. Então, fui para Roma. O embaixador do Brasil me Roma era amigo do meu sogro. Fiquei lá pintando 3 anos e meio.

E Copacabana?
Quando voltei da Itália, fui morar no Leblon. Mas, lá era o “fim do mundo”. Muito longe de tudo, não dava para ficar lá. Então vim morar aqui. Eu acho Copacabana o bairro mais charmoso do Rio. E também, aqui tem tudo. Acho que não moraria em outro lugar. Claro que sinto saudades do Rio de antigamente. Quando cheguei aqui era muito mais tranqüilo.

O que você mais gosta no bairro?
Caminhar no calçadão de manhã cedo. A paisagem da praia é muito linda.

Se você fosse definir o seu estilo de pintura, como seria?
Sou um pintor brasileiro. Quero pintar o Brasil. Não me interesso pelo mercado exterior. Pinto coisas muito ligadas ao povo. Tive uma fase abstrata... Poderia dizer que minha arte é Figurativa. Minhas figuras são desenhadas com precisão.

Você pinta todo dia?
Sim. De 9 às 13h. Depois, almoço. E volto à trabalhar até as 19h. Eu acho que a disciplina é fundamental.

Tem alguma exposição em vista?
Nenhuma. Para fazer uma exposição dá muito trabalho e se gasta muito dinheiro. A última que fiz foi em Porto Alegre, quando surgiram as molduras fazendo parte do próprio quadro.