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 Hoje: 23 junho, 2003 3:08 PM
ANO VIII - Nº 96 - MAIO A JUNHO 2003
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PAZ NA TELA

Tem coisas que só acontecem com o cinema brasileiro. Há alguns dias atras a mídia estampava uma queda de braço entre o governo federal e alguns produtores culturais deste pais. Os atuais detentores do poder resolveram endurecer com as “oportunidades” oferecidas àqueles que tentam produzir cultura apoiados na legislação especifica para o setor, ou seja, as leis do Audiovisual e Rouanet. O que pretendiam com as tais medidas pretensamente corretoras de possíveis distorções no processo de financiamento da produção cultural pelas empresas estatais, reconhecidamente as que mais destinam renuncia fiscal à atividade, até agora não ficou muito claro. O que se viu, na verdade, foi uma reação imediata de produtores desencadeada por uma entrevista do diretor cinematográfico Cacá Diegues onde argüía a competência do Ministério da Comunicação em normatizar um segmento intrinsecamente ligado ao Ministério da Cultura ao mesmo tempo que se impunham regras que, para eles criadores culturais, sinalizavam como censura previa aos pretendentes aos financiamentos disponibilizados pelas leis de fomento à atividade.

A grita foi tão grande e reação tão imediata que em menos de quarenta e oito horas o Governo despachou os dois ministros envolvidos ao encontro dos reclamantes para apagar um incêndio que poderia chamuscar as relações com a classe artística e, se propagado, acabar uma lua de mel iniciada na campanha eleitoral. Desse encontro resultou a decisão de que tudo aquilo que for afeto à cultura cabe unicamente ao Ministério respectivo. Com isso apagou-se o incêndio e o ministro Gilberto Gil saiu fortalecido.

Fez-se a paz e, feita a paz ficou no ar a pergunta: A quem interessava, e ainda interessa, a desmontagem do sistema de financiamento às atividades culturais, principalmente na área do audiovisual já uma vez quase aniquilada por ação governamental.

A “Indústria” do audiovisual, duramente golpeada na era Collor, vem se fortalecendo nos últimos anos e não seria justo estancar uma evolução conquistada a duras penas.

Novamente, o povo brasileiro está voltando a assistir filmes brasileiros e está gostando do que consegue ver. É importante que incentivos sejam direcionados, além da produção, também para a exibição. Ampliar a cadeia de exibição e, aí sim, exigir com rigor a contrapartida social que pode vir através de sessões a preços populares levando um público que, a preço normal, não teria acesso àquela sala. Isso sem falar nos filmes - e falo de ótimos filmes - que, a exemplo da população menos favorecida, quase sempre são limitados a uma semana em cartaz ou a uma eventual participação em Festivais. Fica aqui a sugestão.

Um bom exemplo do que falo é o bem humoradíssimo “Celeste e Estrela” de Betse de Paula, vencedor do Prêmio de Público no Cine PE - Festival do Audiovisual e deve estrear em breve por aqui. “Rua seis s/n°” de João Batista é um suspense policial em que Marco Ricca interpreta uma das personagens mais marcantes de sua carreira.

O ótimo “Durval Discos” de Anna Muylaert que permanece em cartaz aqui no Rio, levou Melhor Direção de Arte, Melhor Roteiro e Melhor Atriz para a maravilhosa Etty Fraser. Para quem ainda não viu, recomendo pressa.

Mas o grande Vencedor foi o belíssimo “Narradores de Javé” de Eliane Caffé que, além de Melhor Filme e Melhor Direção, deu ao grande Jose Dumont a “Calunga”, nome do Prêmio Oficial do Cine PE, de Melhor Ator. Espero que não demore a ser lançado. É imperdível !