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 Hoje: 23 junho, 2003 3:08 PM
ANO VIII - Nº 96 - MAIO A JUNHO 2003
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Liberdade mesmo só na feira

Feira-livre é um grande barato. Em Copacabana, temos várias. A melhor sempre foi a da Domingos Ferreira, que agora está centrada na Praça Serzedelo Corrêa. Ipanema tem uma ótima, na General Osório, e a da Gávea (Praça Santos Dumont) é nota 10. No Humaitá, faço feira na porta de casa, na Rua Maria Eugênia. Toda quarta-feira estou por lá, circulando com o meu carrinho de compras, onde não deixo faltar pelo menos inhame, quiabo, couve e frutas à vontade.

Fazer feira sempre foi um grande programa, sobretudo se for na Glória. Carioca ou morador do Rio que nunca foi à feira de domingo no bairro da Glória, bem ali no miolo da Augusto Severo (onde às noites travestis vendem outros produtos), não sabe o que está perdendo.

Ir à feira significa, além de encher fruteiras e geladeiras, receber lições de como conviver, pechinchar, trocar experiências e armazenar diálogos como o que ouvi diante do caminhão de peixes do Severino. Depois de cheirar, futucar e meter o dedo no olho do namorado-batata, a madame perguntou, distraída:

– É fresco?

– Que é isso, freguesa?! É só o jeitão dele. Meu peixe é espada!

Ou a compradora reclamando inocentemente dos preços altos, diante da barraca de legumes, e o feirante espirituoso desfiando o rosário de maledicências:

– Tá caro tudo, senhora! Tacaro penino, tacaro cenoura, tacaro nabo, tacaro mandioca...

Na barraca do baiano - um cearense nascido na Paraíba, criado em Pernambuco e vendedor de produtos do Pará na feira -, os jornalistas Arthur Rocha e Pedro Teixeira beliscavam carne-do-sol e mordiscavam cachaça Marimbondo quando o xepeiro se aproximou, pisando macio, voz suave:

– Posso tomar um aperitivo na conta dos senhores?

– Claro, companheiro. Tem várias pingas aqui. Pode escolher.

– Desculpem, mas não bebo pinga. Teria aí uma vodca, um vinho, um uísque, algo assim?

Feira-livre é coisa séria. E ainda tem esse detalhe: é livre.