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Os humanistas
de araque (pero no no Iraque)
Devo
esclarecer, antes de mais nada, que sou, por princípio, contra
a pena de morte. Por acreditar no extraordinário poder, assim
como na viabilidade, de transformação e reinvenção
do ser humano, durante esta grande aventura que é a vida. Qualquer
criminoso pode, por razões as mais diversas e imprevisíveis,
experimentar radical mudança e alcançar a regeneração.
Quem pode garantir que elas não vão ocorrer, que ele não
vai ter um estalo e se redimir? Agora mesmo, no Carandiru, o belo filme
de Hector Babenco, temos o exemplo da iluminação do matador
Peixeira, personagem que não sei se é ficcional ou inspirado
na realidade, mas isto pouco importa no caso.
A legislação
penal brasileira é fundamentada nesse princípio da inviolabilidade
do direito à vida que rege a nossa Constituição.
Mas, embora já exista um amplo consenso humanitário mundial
contra a pena de morte, ela ainda é aplicada em muitos países.
Certamente por causa do enfoque da mídia, quando o assunto vem
à baila, pensa-se, de imediato, nas execuções de
dirigentes corruptos na China e de traficantes de drogas, inclusive
ocidentais, em países do Sudeste asiático. Nos Estados
Unidos, porém, elas são rotineiras em vários estados,
com o Texas na liderança absoluta. Só o Bush, quando governador,
autorizou 152 execuções, o que já bastaria, sem
computar os crimes cometidos depois que chegou à presidência,
para descredenciá-lo como pregador e professor de direitos humanos.
Em
Cuba, a condenação à pena de morte é excepcional,
sobretudo em crimes de estupro, corrupção, tráfico
de drogas, terrorismo e atentado à segurança nacional.
Nestes dois últimos casos, o rigor é explicável
pelo estado de permanente ameaça que vive a ilha, acossada e
boicotada, a 90 milhas de distância, pela superpotência
militar. Não obstante, as aplicações da pena capital
em Cuba são, de longe, as que mais sensibilizam, nas raras vezes
em que acontecem, a mídia ocidental, dominada, como sabemos,
por grupos norte-americanos. E é nestes momentos que emerge de
sua toca um tipo singular de humanista, especializado na
defesa dos direitos humanos em países socialistas. Antes do desmantelamento
do bloco do Leste europeu, ele aparecia com mais freqüência,
mas, agora, só lhe restou aquela minúscula ilha do tamanho
de Pernambuco para exercer a sua vigilância humanitária.
Ao
longo da vida, convivi, profissionalmente, com alguns deles. Quando
o diário carioca Correio da Manhã foi invadido por agentes
do Exército e da polícia em 13 de dezembro de 1968, durante
a leitura, em cadeia nacional, do AI-5, e eu tive que saltar para um
outro prédio, por uma janela dos fundos da redação,
com mais dois colegas (os falecidos Franklin de Oliveira e Edmundo Moniz),
e quando fui preso no mesmo local, em abril de 1970, alguns desses humanistas
de araque não ousaram balbuciar uma palavra de protesto ou solidariedade.
Deviam estar por demais preocupados, à época, com os direitos
humanos na União Soviética ou na Tcheco-Eslováquia.
Também não os vi, mais recentemente pois alguns
continuam ativos na imprensa erguerem as suas vozes contra as
violações dos direitos humanos durante as agressões
dos EUA ao Afeganistão e ao Iraque. Não lhes reconheço,
portanto, qualquer credibilidade nas críticas às condenações
em Cuba.
Credibilidade
essa que não falta a José Saramago e ao meu amigo Eduardo
Galeano (para quem não sabe, sou uma das pessoas a quem ele dedicou
As veias abertas da América Latina, que considero a maior das
suas obras). Acho, no entanto, que Saramago não está levando
em conta a situação que Cuba vive num momento em que,
com a lei da selva reintroduzida por Bush no panorama mundial, se tornou
um dos países apontados como possível próxima bola
da vez. A inflexibilidade de Fidel Castro, mesmo em se tratando de um
crime hediondo como é considerado o seqüestro com tomada
de reféns pela força das armas, tem que ser contraposta
à leviana afirmação de Jeb, o irmão de Bush
que governa a Flórida: Agora, temos que cuidar da vizinhança.
Enfim,
estou mais com o Galeano. Pois, apesar de contrário à
pena de morte, defenderei sempre a Revolução Cubana, com
todos os seus erros e acertos. Inclusive porque é o que resta
a defender num mundo submetido à vocação e aos
desígnios genocidas da maior superpotência militar de todos
os tempos.
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