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 Hoje: 23 junho, 2003 3:07 PM
ANO VIII - Nº 96 - MAIO A JUNHO 2003
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A PAISAGEM BOÊMIA E CARIOCA DE WALDIR MATOS

Waldir Matos é um pintor nascido no Rio de Janeiro que tem muitas histórias para contar. Aos 87 anos, e em pleno processo de criação, jamais desviou seu caminho nas artes plásticas em prol de modismos efêmeros e desnecessários. Isto, por si só, já é uma grande qualidade.

Amigos dos grandes pintores que iniciaram o modernismo carioca aprendeu com eles a amar sua cidade dela procurando extrair seus motivos mais característicos. Aliás, são esses moti-vos, numa linguagem livre o que mais fascina na obra de pintores como Bustamante Sá, Milton DaCosta, Silvio Pinto e todos aqueles outros nomes que integravam o grupo de estudo de arte comandado por Manoel Constantino e Guignard. Não é à toa que fizeram história.

Waldir Matos não estudou com esses mestres brasileiros atuantes como professores à partir dos anos 30. Mas conviveu com quase todos os seus discípulos que procuraram desvendar os arredores da Cidade Maravilhosa numa linguagem, pictórica longe das mesmices acadêmicas que tantos perduraram nas artes plásticas cariocas, mesmo a despeito da realização da Semana de Arte Moderna, em 1922.

De formação universitária - é advogado profissionalmente - Waldir Matos, como pintor, é autodidata. Só começou a pintar em 1952 e, em seguida, a participar do Salão de Belas Artes. Posteriormente, no Salão Nacional de Arte Moderna, conquistaria Isenção de Júri (1961) e Prêmio de Viagem ao País (1965).

Pintor de temática variada passou por diversas fases, sempre com linguagem pessoal e procurando através de séries extrair de um assunto seus mais complexos conteúdos. Como agora, com uma nova série de pinturas concentrada exclusivamente nos bares e restaurantes cariocas.

Nada mais saboroso do que essa visão do artista. O Rio é reconhecidamente uma cidade que convida à boemia. Seus bares e restaurantes mais tradicionais são repositórios de parte de sua história. Neles conviveram numa época áurea, músicos, pintores e intelectuais, numa confraternização sadia que acabava se refletindo numa música ou num romance tendo, obviamente, o Rio como cenário.

Pois é essa história que Waldir Matos nos propõe com a sua pintura. Através dela podemos penetrar nesses ambientes cheios de tradições, muitos dos quais só conhecemos de nome mas que existem espalhados por diversos bairros dando visa da a uma cidade e inserindo-se na sua tradição. Principalmente aqueles localizados no Centro onde se reunia, (e ainda se reúne) elementos representativos dessa boêmia tão assumidamente carioca.

Cada detalhe de sua pintura procura a essência do que representa. E Waldir Matos, com a experiência que os anos lhe proporcionaram como pintor, faz mais do que reviver uma época: faz uma documentação preciosa de épocas representativas de bares e restaurantes que se tornaram tradicionais, uma homenagem plástica ao que o Rio tem de mais seu. Figurativo, suas pinceladas medidas, suaves longe do hiperealista mas dele se aproximando, nos dá visão romântica e ao mesmo tempo lírica, a visão de um artista que embora nostálgico, eterniza com sua pintura um modo carioca de viver.