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 Hoje: 23 junho, 2003 3:06 PM
ANO VIII - Nº 96 - MAIO A JUNHO 2003
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ERICH LEHNINGER

Com a Corda Toda

Durante quatorze anos, Spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (1983-1997), e durante outros cinco, da Orquestra Sinfônica Brasileira (1997-2002). Detentor de inúmeros prêmios, dentre os quais o Troféu Eldorado de Música e o Prêmio de Música de Câmara da Cidade de Colônia (Alemanha). Mais de uma dezena de CDs gravados. A biografia do violinista - além de maestro e compositor de cadências - Erich Lehninger impressiona por sua riqueza e pelo espírito que a perpassa.

Atualmente, além de diretor artístico e regente da Sinfonieta Rio, que para este ano ainda não estabeleceu programa, e integrante do Trio Brasileiro, que lançará em breve um CD unicamente com músicas nacionais, Erich Lehninger coordena um projeto de recuperação de partituras da música brasileira. Este projeto, chamado Memória Musical, resgata manuscritos da música erudita abandonados, a fim de imprimi-los e, depois, apresentar as peças ao público.


Entrevista com Erich Lehninger

Erich concedeu gentilmente ao Jornal de Copacabana uma entrevista com mais de três horas de duração. Aqui se apresentam trechos de seus depoimentos, que abrangem desde histórias de sua carreira a análises dos espaços musicais (ou ausência deles) na Zona Sul, assim como reflexões sobre a situação geral da cultura erudita.

Especificidade da música brasileira:
"Naturalmente, por viver tanto tempo aqui, eu comecei a despertar para a música brasileira, a música erudita brasileira. A música popular em geral não me interessa, sendo que eu reconheço sim que a boa música popular brasileira é talvez a melhor que exista no mundo."

"Aconteceu aqui no Brasil uma coisa que é bastante rara: um sincronismo, pode-se dizer, entre música erudita e música popular, de que eu não saberia citar um outro exemplo. Guerra Peixe, um dos grandes compositores brasileiros, que faleceu uns poucos anos atrás, dominava tanto o popular quanto o erudito. E tem um compositor que se chama Dawid Korenchendler; apesar do nome, ele é carioca. Ano retrasado, na Alemanha, fiz uma turnê com a Orquestra Sinfônica de Bamberg e toquei, em vários concertos, o concerto para violino desse Dawid. Fez muito sucesso lá."

"São muitos nomes... Que me desculpem os tantos que não mencionei."

Romantismo Brasileiro:
"Na Semana de Arte de 1922, houve um movimento no Brasil em busca da identidade cultural própria. O lado bom foi ter-se buscado uma nova realidade estilística musical. E o lado ruim é que havia uma turma que abandonava e engavetava... Mário de Andrade sempre dizia: "Não, isso não é música brasileira, é música européia", e não sei o que... E daí? O que se ia escrever na época Romântica, quando Brahms, Gustav Mahler , Tchaikóvski, escreviam suas sinfonias? Como se ia escrever nessa época, se não nesse estilo?"

"Eu descobri de repente que isso [Romantismo Brasileiro] não é música européia. A técnica, a linha geral estilística, são daquela época, Alto Romantismo, mas tem muitos elementos nativos. É engraçado... eu, sendo gringo, talvez sinta isso muito mais de imediato do que os próprios brasileiros. Comecei a ficar fascinado."

Projeto Memória Musical:
"Esse é um projeto que me dá muito satisfação, muito trabalho e muito prazer. Trabalho de garimpo, porque, para procurar essas sinfonias[um exemplo abaixo], trabalhei com máscara de cirurgião e luvas num calabouço, onde estava jogado o arquivo do conservatório. Cheio de fungos; passei mal. Mas achei as sinfonias. É enorme satisfação, depois de tantos anos que ninguém ouve a música, ela soar lá, ela acontecer de novo. Porque uma partitura é um papel cheio de pontinhos e linhas, não é a música: a música acontece ao vivo."

"Fizemos uma sinfonia de João Gomes de Araújo. E esse é um caso muito interessante. Ele nasceu na década de 40 do século XIX em Pindamonhangaba. Começou se formar com professores particulares, até que finalmente conseguiu apoio com o grande D. Pedro II. Tanta gente esse monarca ajudou, deu bolsa de estudos, incrível. [Araújo] foi para a Itália, onde começou uma grande carreira como compositor de óperas. Retornando ao Brasil, tornou-se um dos fundadores do Conservatório Dramático de São Paulo, a instituição musical mais importante da cidade no início do século. Hoje está em ruínas, na Av São João. A duras penas, está-se tentando verba para reconstruir...
E esse João Gomes resolveu, entre os anos 1906 a 1908, compor sinfonias. Isso era uma época em quem ninguém compunha mais... De repente, esse homem escreveu cinco sinfonias nesses dois anos! Perguntei a vários musicólogos onde estavam esses manuscritos, e ninguém nem sabia dessas sinfonias... Eu as descobri através de uma História da Música escrita por um italiano, que viveu, à época, aqui no Brasil. Fui atrás e achei três delas.
Depois, quase dez anos mais tarde, João Gomes escreveu mais uma, que nós vamos fazer agora em maio em São Paulo. É uma belíssima obra, vale a pena voltar a ser repertório das nossas orquestras. Por isso nós estamos fazendo esse projeto."

Uma vergonha:
"Ano passado, um amigo meu encontrou, na Alemanha, um recorte de um dos jornais mais importantes da Europa, tanto para política quanto para cultura. Esse amigo me manda o artigo: "A melhor do Brasil". Narrava mais ou menos assim: "Reuniu-se um grupo de produtores fonográficos, cantores e compositores, para escolher a melhor composição musical brasileira de todos os tempos. A peça que ganhou foi Águas de Março, de Tom Jobim." Sem dúvida, é uma das mais belas peças da música popular, mas não é a melhor composição musical do Brasil - isso é ridículo! E o terceiro lugar foi outra vez Tom Jobim, com a Garota de Ipanema, Chico Buarque no meio etc., etc. Aí o artigo termina nesse estilo: "Onde fica a assim chamada música erudita brasileira, que conta com nomes como Carlos Gomes, Villa Lobos?.... E continua a mesmice de sempre. A história de música no Brasil é apenas a história de música popular." Eu me senti envergonhado de ver isso, porque é pura verdade."

Sobre decadência cultural:
"O pai pergunta ao filho: "O que você quer ler? Tio Patinhas ou Euclides da Cunha?" O filhinho vai dizer: "Tio Patinhas". Então, se não tiver um pai que saiba introduzir para este filho uma arte um pouco superior, o que vai ser do menino?"

"Parece que tem uma lei da natureza que o mais fraco se defende com mais veemência. Então, apesar dessa situação toda, temos cada vez mais talentos, tanto intérpretes como compositores. Não sei como, mas sobrevivem e vêm à tona, não é? A cada bienal surgem surpresas muito agradáveis, obras maravilhosas."

Política cultural:
"Você vê, agora vai para votação que futebol pode ser patrocinado através da Lei Rouanet, como pode? Como pode? Você vê um lugar como esse aqui, toda essa orla, do Leme até Leblon, o centro de turismo nacional, onde tem público... Você encontra uma sala de concerto aqui, nessa região toda, onde aconteça uma programação musical regular? Isso é absurdo! Em qualquer país, em qualquer cidade que se compreenda como capital cultural, isso seria um absurdo... Na Ilha da Madeira, há um festival musical de nível internacional, para atrair também turismo para as artes; não apenas o turismo que vai para a Prado Júnior aqui, não é?"

"Faz uma falta tremenda, nessa região, um espaço permanente para música de alto nível. Nada contra música popular de alto nível, música instrumental popular revela coisas maravilhosas - não tenho absolutamente nada contra que se façam espetáculos também disso. Mas, predominantemente, tem de ter um lugar como referência cultural. Poderia ser o Teatro do Copacabana Palace, que está parado. Muitos turistas vêm falar comigo: "Puxa vida! Não tem nada de música clássica?"

As salas de concerto:
"A Sala Cecília Meireles está numa situação terrível, urbanisticamente falando. Muita gente não quer mais de noite atravessar o túnel para ir para a Lapa, onde não tem segurança. E fizeram aquela sala Baden Powel, que não é um espaço ideal, mas, para um lugar que não tem nada [orla], até oxalá que tem. Mas veja: a programação: é bem mais popular... No IBEU, eu até fiz, no ano passado, um recital. Há uma sala pequena, muito limitada, tem de pegar o elevador ir até o vigésimo andar... Louvado seja que eles, pelo menos, fazem alguma coisa! O próprio IBEU patrocina eventos."

"Mas eu acho absurdo que não haja uma instituição oficial. Ela pode ter, naturalmente, parceria com a iniciativa privada, mas deveria ser ou a Prefeitura ou o Estado quem colocasse aqui um espaço à disposição, uma infra estrutura para fazer um centro musical. Isso falta, isso falta..."

"E eu acho até que, de repente, seria possível isso partir da iniciativa privada. Fazer uma Associação dos Amigos da Orla, fazer uma vaquinha... Existe a Lei Rouanet para isso. Pode ser utilizada."

Cidade da Música:
"A prefeitura está lançando um projeto interessantíssimo: a Cidade da Música, na Barra da Tijuca. Desejo ao César Maia, que eu admiro muito, que isso dê certo. Ele é um político de bastante visão, sabe que a situação cultural da Barra da Tijuca não condiz ao poderio financeiro que se espalhou por lá.
Creio que o projeto dele é visionário, desejo que isso tenha muito êxito, mas que falta alguma coisa aqui em Copacabana, falta."

Educação:
"Você não pode só escrever historinhas em quadrinhos. Tem de, de vez em quando, escrever um texto um pouco mais inteligente. Música é a mesma coisa. Para uma mente sã, você precisa ter um outro alimento, de vez em quando. Senão, uma parte de nós vai morrer de fome. E com certeza a melhor parte."

"Educação... você não pode ensinar tudo. Você pode dar fortes impulsos; durante a vida, a pessoa vai, por si própria, à procura. É uma ilusão a escola de hoje querer preparar o indivíduo para a vida prática. Saber as ciências exatas básicas, o máximo possível para poder exercer uma profissão cada vez mais especializada e, como ser humano, parar de crescer. Ficam todos bitolados em uma linha só e culturalmente cada vez menos abertos. Um grande perigo, isso."

"Um ditado do Latim: Não para a escola, mas para a vida. A escola deve dar polimento ao gosto e ao instinto estético, despertar a curiosidade, para que a pessoa se aprofunde ao longo da vida."

O preço da cultura:
"A cultura de alto nível sempre foi subvencionada, seja pelo arquiduque de não sei das quantas, na época das monarquias, seja pela iniciativa privada hoje. Veja uma casa como "Metropolitan Art", em Nova Iorque, de mais ou menos mesma lotação que o Teatro Municipal. Um Placido Domingo pedia 25000, 30000 dólares por récita. Juntando isso com dois, três do mesmo nível, mais o custo da orquestra, o cachê do maestro, mais o cenário, o figurino, mais o que faltar... O ingresso mais barato lá é trinta dólares, indo até os duzentos. Entretanto, mesmo somando toda a bilheteria, você não paga um centésimo do que custa o espetáculo. É completamente diferente de um "show", que se auto financia. Nenhuma récita no Teatro Municipal se auto financia.

Diana Matilde Menasché