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ERICH
LEHNINGER
Com
a Corda Toda
Durante quatorze
anos, Spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
(1983-1997), e durante outros cinco, da Orquestra Sinfônica Brasileira
(1997-2002). Detentor de inúmeros prêmios, dentre os quais
o Troféu Eldorado de Música e o Prêmio de Música
de Câmara da Cidade de Colônia (Alemanha). Mais de uma dezena
de CDs gravados. A biografia do violinista - além de maestro
e compositor de cadências - Erich Lehninger impressiona por sua
riqueza e pelo espírito que a perpassa.
Atualmente, além
de diretor artístico e regente da Sinfonieta Rio, que para este
ano ainda não estabeleceu programa, e integrante do Trio Brasileiro,
que lançará em breve um CD unicamente com músicas
nacionais, Erich Lehninger coordena um projeto de recuperação
de partituras da música brasileira. Este projeto, chamado Memória
Musical, resgata manuscritos da música erudita abandonados, a
fim de imprimi-los e, depois, apresentar as peças ao público.
Entrevista
com Erich Lehninger
Erich concedeu gentilmente
ao Jornal de Copacabana uma entrevista com mais de três horas
de duração. Aqui se apresentam trechos de seus depoimentos,
que abrangem desde histórias de sua carreira a análises
dos espaços musicais (ou ausência deles) na Zona Sul, assim
como reflexões sobre a situação geral da cultura
erudita.
Especificidade
da música brasileira:
"Naturalmente, por viver tanto tempo aqui, eu comecei a despertar
para a música brasileira, a música erudita brasileira.
A música popular em geral não me interessa, sendo que
eu reconheço sim que a boa música popular brasileira é
talvez a melhor que exista no mundo."
"Aconteceu
aqui no Brasil uma coisa que é bastante rara: um sincronismo,
pode-se dizer, entre música erudita e música popular,
de que eu não saberia citar um outro exemplo. Guerra Peixe, um
dos grandes compositores brasileiros, que faleceu uns poucos anos atrás,
dominava tanto o popular quanto o erudito. E tem um compositor que se
chama Dawid Korenchendler; apesar do nome, ele é carioca. Ano
retrasado, na Alemanha, fiz uma turnê com a Orquestra Sinfônica
de Bamberg e toquei, em vários concertos, o concerto para violino
desse Dawid. Fez muito sucesso lá."
"São
muitos nomes... Que me desculpem os tantos que não mencionei."
Romantismo Brasileiro:
"Na Semana de Arte de 1922, houve um movimento no Brasil em
busca da identidade cultural própria. O lado bom foi ter-se buscado
uma nova realidade estilística musical. E o lado ruim é
que havia uma turma que abandonava e engavetava... Mário de Andrade
sempre dizia: "Não, isso não é música
brasileira, é música européia", e não
sei o que... E daí? O que se ia escrever na época Romântica,
quando Brahms, Gustav Mahler , Tchaikóvski, escreviam suas sinfonias?
Como se ia escrever nessa época, se não nesse estilo?"
"Eu descobri
de repente que isso [Romantismo Brasileiro] não é música
européia. A técnica, a linha geral estilística,
são daquela época, Alto Romantismo, mas tem muitos elementos
nativos. É engraçado... eu, sendo gringo, talvez sinta
isso muito mais de imediato do que os próprios brasileiros. Comecei
a ficar fascinado."
Projeto Memória
Musical:
"Esse é um projeto que me dá muito satisfação,
muito trabalho e muito prazer. Trabalho de garimpo, porque, para procurar
essas sinfonias[um exemplo abaixo], trabalhei com máscara de
cirurgião e luvas num calabouço, onde estava jogado o
arquivo do conservatório. Cheio de fungos; passei mal. Mas achei
as sinfonias. É enorme satisfação, depois de tantos
anos que ninguém ouve a música, ela soar lá, ela
acontecer de novo. Porque uma partitura é um papel cheio de pontinhos
e linhas, não é a música: a música acontece
ao vivo."
"Fizemos uma
sinfonia de João Gomes de Araújo. E esse é um caso
muito interessante. Ele nasceu na década de 40 do século
XIX em Pindamonhangaba. Começou se formar com professores particulares,
até que finalmente conseguiu apoio com o grande D. Pedro II.
Tanta gente esse monarca ajudou, deu bolsa de estudos, incrível.
[Araújo] foi para a Itália, onde começou uma grande
carreira como compositor de óperas. Retornando ao Brasil, tornou-se
um dos fundadores do Conservatório Dramático de São
Paulo, a instituição musical mais importante da cidade
no início do século. Hoje está em ruínas,
na Av São João. A duras penas, está-se tentando
verba para reconstruir...
E esse João Gomes resolveu, entre os anos 1906 a 1908, compor
sinfonias. Isso era uma época em quem ninguém compunha
mais... De repente, esse homem escreveu cinco sinfonias nesses dois
anos! Perguntei a vários musicólogos onde estavam esses
manuscritos, e ninguém nem sabia dessas sinfonias... Eu as descobri
através de uma História da Música escrita por um
italiano, que viveu, à época, aqui no Brasil. Fui atrás
e achei três delas.
Depois, quase dez anos mais tarde, João Gomes escreveu mais uma,
que nós vamos fazer agora em maio em São Paulo. É
uma belíssima obra, vale a pena voltar a ser repertório
das nossas orquestras. Por isso nós estamos fazendo esse projeto."
Uma vergonha:
"Ano passado, um amigo meu encontrou, na Alemanha, um recorte
de um dos jornais mais importantes da Europa, tanto para política
quanto para cultura. Esse amigo me manda o artigo: "A melhor do
Brasil". Narrava mais ou menos assim: "Reuniu-se um grupo
de produtores fonográficos, cantores e compositores, para escolher
a melhor composição musical brasileira de todos os tempos.
A peça que ganhou foi Águas de Março, de Tom Jobim."
Sem dúvida, é uma das mais belas peças da música
popular, mas não é a melhor composição musical
do Brasil - isso é ridículo! E o terceiro lugar foi outra
vez Tom Jobim, com a Garota de Ipanema, Chico Buarque no meio etc.,
etc. Aí o artigo termina nesse estilo: "Onde fica a assim
chamada música erudita brasileira, que conta com nomes como Carlos
Gomes, Villa Lobos?.... E continua a mesmice de sempre. A história
de música no Brasil é apenas a história de música
popular." Eu me senti envergonhado de ver isso, porque é
pura verdade."
Sobre decadência
cultural:
"O pai pergunta ao filho: "O que você quer ler?
Tio Patinhas ou Euclides da Cunha?" O filhinho vai dizer: "Tio
Patinhas". Então, se não tiver um pai que saiba introduzir
para este filho uma arte um pouco superior, o que vai ser do menino?"
"Parece que
tem uma lei da natureza que o mais fraco se defende com mais veemência.
Então, apesar dessa situação toda, temos cada vez
mais talentos, tanto intérpretes como compositores. Não
sei como, mas sobrevivem e vêm à tona, não é?
A cada bienal surgem surpresas muito agradáveis, obras maravilhosas."
Política
cultural:
"Você vê, agora vai para votação
que futebol pode ser patrocinado através da Lei Rouanet, como
pode? Como pode? Você vê um lugar como esse aqui, toda essa
orla, do Leme até Leblon, o centro de turismo nacional, onde
tem público... Você encontra uma sala de concerto aqui,
nessa região toda, onde aconteça uma programação
musical regular? Isso é absurdo! Em qualquer país, em
qualquer cidade que se compreenda como capital cultural, isso seria
um absurdo... Na Ilha da Madeira, há um festival musical de nível
internacional, para atrair também turismo para as artes; não
apenas o turismo que vai para a Prado Júnior aqui, não
é?"
"Faz uma falta
tremenda, nessa região, um espaço permanente para música
de alto nível. Nada contra música popular de alto nível,
música instrumental popular revela coisas maravilhosas - não
tenho absolutamente nada contra que se façam espetáculos
também disso. Mas, predominantemente, tem de ter um lugar como
referência cultural. Poderia ser o Teatro do Copacabana Palace,
que está parado. Muitos turistas vêm falar comigo: "Puxa
vida! Não tem nada de música clássica?"
As salas de concerto:
"A Sala Cecília Meireles está numa situação
terrível, urbanisticamente falando. Muita gente não quer
mais de noite atravessar o túnel para ir para a Lapa, onde não
tem segurança. E fizeram aquela sala Baden Powel, que não
é um espaço ideal, mas, para um lugar que não tem
nada [orla], até oxalá que tem. Mas veja: a programação:
é bem mais popular... No IBEU, eu até fiz, no ano passado,
um recital. Há uma sala pequena, muito limitada, tem de pegar
o elevador ir até o vigésimo andar... Louvado seja que
eles, pelo menos, fazem alguma coisa! O próprio IBEU patrocina
eventos."
"Mas eu acho
absurdo que não haja uma instituição oficial. Ela
pode ter, naturalmente, parceria com a iniciativa privada, mas deveria
ser ou a Prefeitura ou o Estado quem colocasse aqui um espaço
à disposição, uma infra estrutura para fazer um
centro musical. Isso falta, isso falta..."
"E eu acho
até que, de repente, seria possível isso partir da iniciativa
privada. Fazer uma Associação dos Amigos da Orla, fazer
uma vaquinha... Existe a Lei Rouanet para isso. Pode ser utilizada."
Cidade da Música:
"A prefeitura está lançando um projeto interessantíssimo:
a Cidade da Música, na Barra da Tijuca. Desejo ao César
Maia, que eu admiro muito, que isso dê certo. Ele é um
político de bastante visão, sabe que a situação
cultural da Barra da Tijuca não condiz ao poderio financeiro
que se espalhou por lá.
Creio que o projeto dele é visionário, desejo que isso
tenha muito êxito, mas que falta alguma coisa aqui em Copacabana,
falta."
Educação:
"Você não pode só escrever historinhas
em quadrinhos. Tem de, de vez em quando, escrever um texto um pouco
mais inteligente. Música é a mesma coisa. Para uma mente
sã, você precisa ter um outro alimento, de vez em quando.
Senão, uma parte de nós vai morrer de fome. E com certeza
a melhor parte."
"Educação...
você não pode ensinar tudo. Você pode dar fortes
impulsos; durante a vida, a pessoa vai, por si própria, à
procura. É uma ilusão a escola de hoje querer preparar
o indivíduo para a vida prática. Saber as ciências
exatas básicas, o máximo possível para poder exercer
uma profissão cada vez mais especializada e, como ser humano,
parar de crescer. Ficam todos bitolados em uma linha só e culturalmente
cada vez menos abertos. Um grande perigo, isso."
"Um ditado
do Latim: Não para a escola, mas para a vida. A escola deve dar
polimento ao gosto e ao instinto estético, despertar a curiosidade,
para que a pessoa se aprofunde ao longo da vida."
O preço
da cultura:
"A cultura de alto nível sempre foi subvencionada,
seja pelo arquiduque de não sei das quantas, na época
das monarquias, seja pela iniciativa privada hoje. Veja uma casa como
"Metropolitan Art", em Nova Iorque, de mais ou menos mesma
lotação que o Teatro Municipal. Um Placido Domingo pedia
25000, 30000 dólares por récita. Juntando isso com dois,
três do mesmo nível, mais o custo da orquestra, o cachê
do maestro, mais o cenário, o figurino, mais o que faltar...
O ingresso mais barato lá é trinta dólares, indo
até os duzentos. Entretanto, mesmo somando toda a bilheteria,
você não paga um centésimo do que custa o espetáculo.
É completamente diferente de um "show", que se auto
financia. Nenhuma récita no Teatro Municipal se auto financia.
Diana
Matilde Menasché
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