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 Hoje: 23 junho, 2003 3:05 PM
ANO VIII - Nº 96 - MAIO A JUNHO 2003
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Mais oferta de livros, CDs e DVDs no Leblon

Famosa por atrair seus freqüentadores para a rua Dias Ferreira, no Leblon, a qualquer hora do dia e da noite, a livraria Letras & Expressões ficou ainda melhor. Seus 77 metros quadrados au-mentaram para 220 metros quadrados, a oferta de livros passou de quinze mil para 21 mil, a de CDs de quatro mil para oito mil, a de DVDs de mil para quatro mil e a quantidade de livros infan-tis triplicou, passando de três mil para nove mil exemplares à disposição. Desses artigos, 70% são importados. A loja também ganhou um Cibercafé com cinco computadores conectados à internet e um serviço com rapidez e eficiência recordes: o produto que não for encontrado em seus estoques será encomendado e o prazo de espera é de apenas um dia.

A nova Letras & Expressões foi inaugurada no dia 10 de maio, três anos após o início da obra de ampliação. Os donos, os irmãos Emilio e Giulio Bruno, compraram o espaço então ocupado pelo restaurante Bozó e, apesar dos protestos dos boêmios, estão certos de que fizeram um bom negócio. Embora ainda não haja um número exato, acreditam que a quantidade de clien-tes já aumentou em 20%.

A livraria foi aberta há 12 anos e idéia de fazê-la funcionar 24 horas surgiu da própria necessi-dade do carioca. "O Rio se mantém ativo dia e noite, e o nosso público diversificado faz com que o movimento que temos na madrugada seja o mesmo ou até maior que durante o dia", afir-ma Emilio. Entre seus clientes notáveis, estão o compositor Chico Buarque de Hollanda, o es-critor Rubem Fonseca e a empresária Astrid Monteiro de Carvalho.

Lena Pereira


A ARTE DO DIÁLOGO
Luiz Vilela revisita os males contemporâneos de forma precisa e cortante

A cabeça, de Luiz Vilela. Ed. Cosac & Naify, 132 pgs. R$ 18.

O mestre do diálogo está de volta. Desde 1994 sem publicar, Luiz Vilela volta à cena literária com A cabeça. O livro, homônimo ao último dos dez contos desta reunião, traduz o estilo irônico, direto e cortante do autor. Trata de temas que vão desde incesto até suicídio. As his-tórias consistem, basicamente, em diálogos semelhantes ao falado diariamente pelas pessoas comuns. O diferencial está em induzir o leitor a construir uma imagem precisa do personagem que fala, com a mínima intervenção do narrador.

A construção de um mundo ficcional próprio, verossímil, é o que permite essa maior aproxi-mação leitor-personagem. No conto "Freiras em férias", três irmãs de caridade divertem-se em uma piscina falando de sexo. No dizer de cada uma delas, é possível identificar traços de suas personalidades distintas. Ao fim do diálogo, ouvir uma religiosa dizer que quer ser comida cau-sa nada mais que um leve estranhamento.

Seguindo a linha do politicamente incorreto, Vilela se utiliza de situações vividas na província para revelar aos poucos toda a mediocridade humana. Mineiro de Ituiutaba, mas que já morou em Belo Horizonte, São Paulo, Estados Unidos e Espanha, parece conhecer bem o oportunis-mo, a covardia e o individualismo que andam regendo o ser humano. Sem fazer distinção de classe social, cor ou idade, revela na maioria de seus tipos criados, ou desmascarados, uma parcela de mau-caratismo da qual poucos se salvam.

Mas o autor não trabalha sua literatura de forma pessimista. Pelo contrário, essas atitudes pouco comprometidas com a ética revelam-se muito mais frutos do estresse vivenciado pelo homem contemporâneo do que propriamente uma natureza má. As ações percebidas nos diálo-gos correspondem às mazelas cotidianas do leitor comum e não impedem a presença de um certo lirismo.

Em "Suzy", uma menina de dez ou onze anos demonstra em sua fala estar vivendo uma crise de identidade. Não sabe se é criança, adolescente, moça ou mulher, e resolve testar seu poder de sedução com um sujeito mais velho e facilmente perturbável. Em meio a uma atmosfera sensual e tensa, na qual um caso de pedofilia está prestes a acontecer, uma borboleta branca adentra o apartamento. É uma cena delicada, com uma beleza inversamente proporcional ao número de palavras que a descrevem.

A ironia, outro traço marcante em A cabeça, funciona como mecanismo para subverter as instituições e tratar de forma original temas já muito explorados. A luta de classes e a cor-rupção política, superfícies escorregadias que facilmente desembocam no clichê, são rein-ventados a partir de um arquiteto e um candidato a prefeito. O primeiro se recusa a diminuir cinqüenta centímetros do banheiro de empregada por "uma questão de humanidade", e o segundo descobre, através de sua mulher, que pode fazer promessas e não cumpri-las.

Luiz Vilela, que pode ser comparado a Rubem Fonseca pela concisão do estilo e precisão das palavras, alinha-se à "melhor tradição modernista da prosa límpida e direta", segundo Augusto Massi. Fica claro, entretanto, que estamos diante de um escritor pós-moderno. Percorrendo os aspectos urbanos que esmagam o homem contemporâneo, "A cabeça" vem tornar evidente a apatia com a qual todos têm de lidar diariamente. De um estilo simples, mas não simplista, Vilela funciona como um alerta no mar de mesmice que vem acometendo a literatura contem-porânea.

Lena Pereira


PARA GOSTAR DE RELER:
O lirismo e a atemporalidade da obra de Paulo Mendes Campos

Diante da obra de Paulo Mendes Campos, perdem a credibilidade aqueles que classificam a crônica como um gênero menor. Cisne de Feltro, o primeiro dos nove livros que a Civilização Brasileira lança reunindo os escritos do autor, vem provar toda a profundidade que pode ser alcançada em uma narrativa simples, breve, mas com precisão cirúrgica na descrição de sen-timentos e lembranças.

Os textos iniciais tratam, basicamente, das memórias do autor mineiro: a infância passada sobre árvores na ainda bucólica Belo Horizonte, o carinho da avó, as travessuras de menino "Àquela hora da ardente manhã de dezembro, a chácara tinha a tranqüilidade madura do pa-raíso reencontrado. Comemos de todos os frutos proibidos". A cada crônica, um ou outro per-sonagem querido, ou temido, é apresentado para que o leitor vá tecendo, vagarosamente, a teia de relações que construíram as formas de ver e de lidar com o mundo de Paulo Mendes. É pos-sível penetrar em seu universo, sentir seus odores, sofrer a opressão da criança que recebe um não.

Mas pouco a pouco, a linguagem e os dramas pessoais vão se complexificando e fica claro que o menino levado está crescendo "Já não entendo teu clamor, ó confusa adolescência. Morreu contigo o sol dentro da tragédia. Morreu contigo o pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo a parte de mim mais infeliz e fiel". Percebe o mundo à sua volta, comenta as situações históricas como a Revolução de 30, localizando-se no tempo, interioriza-se cada vez mais e se transforma em um cisne de feltro. Impenetrável, intrigante, atraente, disserta agora sobre a miséria do homem adulto, sua inadaptabilidade ao caos urbano, seus fracassos.

Porém, a este clima de sobrepujante melancolia, contrapõe-se a um ceticismo e a uma ironia bem humorada que dão ao texto a leveza necessária para que uma crônica seja encarada co-mo tal. Em "Autobiografia", uma espécie de apresentação que reúne situações que serão pos-teriormente aprofundadas, o autor conta o que acontecia em um sua vida enquanto a história do século 20 era traçada " 1924- Revolução em São Paulo, estado de sítio. Dou para quebrar min-has mamadeiras após o ato de esvaziá-las. O califado turco entra pelo cano" Capítulo à parte é o último texto da coletânea, em que é narrada sua experiência com LSD.
O escritor preocupa-se em dar cada detalhe da explosão de cores e de sentidos com o encan-tamento de quem, pela primeira vez, entra em contato com um mundo maravilhoso: "fiquei um instante sem tempo fascinado pelo desenho duma peça de madeira, os nódulos escuros figu-rando para mim óvulos fecundados em revolução no caos". Longe de ser uma apologia às dro-gas, a descrição absolutamente lírica é relato de um apaixonado pela vida e seus encan-tamentos.

É com a simplicidade da forma e a pertinência do conteúdo que Paulo Mendes Campos se con-sagra como um dos maiores cronistas brasileiros. Seu fulgor há algum tempo apagado pelo es-quecimento tem agora a oportunidade de ser relembrado e deliciado em seus escritos autobio-gráficas. Com ele, inverte-se o conceito de crônica, que de texto efêmero passa a lirismo eter-nizado.

Lena Pereira


A DOÇURA MORDAZ DE DRUMMOND

Drummond é um poeta delicado. Nos seus poemas, vai como quem não quer nada traçando linhas de sofrimento que se diluem em versos cheios da "melodia e a emoção do verso autên-tico", nas palavras do próprio autor. Em Canção para álbum de moça, essa tristeza leve diz "Bom dia: eu dizia à moça /que de longe me sorria,/ Bom dia: mas da distância/ ela nem me respondia./ Em vão a fala dos olhos,/ e dos braços repetia/ bom dia à moça que estava,/ de noite como de dia,/ bem longe de meu poder/ e de meu pobre bom dia". A simplicidade da construção poética faz inúmeros aspectos da obra desse mineiro de Itabira se desnudarem para o leitor, do mais inocente ao mais arguto.

Há uma crítica social da diferença de classes, retomando as trovas medievais que tratavam do amor (a canção de amigo), uma enorme capacidade de espalhar imagens na estrofe ininterrupta e uma certa ironia que se fez presente em toda a sua obra. Não deixa de ser engraçado imagi-nar um homem gesticulando no meio da rua para uma moça que lhe devolve, no máximo, o sor-riso contido de quem quer se livrar do constrangimento.

Mas foi através desse humor pontual que Carlos Drummond de Andrade revelou a sua postura crítica em relação ao mundo, aos outros, a ele mesmo. Com seu jeitinho mineiro de ironizar, fez sua a definição de Manuel Bandeira em O humor na moderna poesia brasileira, que diz que a disposição para rir, ou pelo menos sorrir de coisas ou situações que encaradas a sério se-riam demasiado penosas ou revoltantes constituem o humor, este contido na ironia.

Em Poema de sete faces, o próprio anjo, normalmente celestial, aparece torto e o condena, ao invés de perguntar se ele quer ser assim. Uma vez gauche, o personagem Carlos vai se depa-rando com as situações da vida e molda-se um eu cada vez mais retorcido. A partir daí, as coisas do mundo deslocam-se, o sujeito vira objeto e o objeto sujeito, e "as casas espiam os homens/ que correm atrás de mulheres". Passa a se relacionar com o mundo através de ante-paros: "O homem atrás do bigode/ é sério, simples e forte. Quase não conversa./ Tem poucos, raros amigos/ o homem atrás dos óculos e do bigode." E as imagens são todas novas, de per-nas perdidas que sozinhas são estranhas, do homem de bigodes que é uma figura exótica, do Raimundo que rima com mundo mas não traz felicidade. Por fim, após toda essa divagação poética e filosófica, ironiza a si mesmo, revelando ao leitor: "Eu não devia te dizer/ mas essa lua, /mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo."

Assim é a ironia do poeta do século. Precisa, cortante, modela o mundo com seu bisturi de cirurgião que não compreende os mistérios da vida, mas os classifica e os transforma de ma-neira que mesmo a vida, por incompreensível que seja, revela-se enigma de uma dor doída, mas bela.

Lena Pereira

 

LITERATURA ENGAJADA

Os desafios de um peixe e seu autor

O rio Paraíba do Sul precisa de ajuda. Ao abastecer cerca de dezessete milhões de pessoas na região sudeste do Brasil, o rio recebe toneladas de lixo todos os dias, sem nenhum trata-mento. No livro Amiga Lata, Amigo Rio, Thiago Machado Cascabulho aborda a questão da de-fesa do rio Paraíba do Sul, através de uma história muito envolvente e poética. O peixe Doura-dinho e sua fiel amiga Lata enfrentam grandes desafios, como uma terrível língua negra, para chegar às tão sonhadas e escassas águas limpas.

Aos 21 anos, Thiago Machado Cascabulho divulga seu primeiro livro, uma publicação indepen-dente patrocinada pela ONG Vale do Paraíba. A organização ecológica enxergou na literatura infantil uma ferramenta eficaz de conscientização das crianças e de seus pais.

O escritor, que tem ainda outros livros prontos para publicar, enfrenta o velho problema chama-do "editora". Segundo o autor, "as grandes editoras preferem investir em temas de abrangência nacional por causa do mercado. Por outro lado, existem aquelas editoras que vivem à custa do sonho dos outros. É preciso investir nos temas regionais".

No site da organização (www.ongvaledoparaiba.hpg.ig.com.br), encontram-se informações im-portantes sobre o Rio Paraíba do Sul, sobre os projetos da ONG Vale do Paraíba e eventos ecológicos.

Leonardo Araújo