Sem
ziriguidum, sem balacobaco,
sem borogodó e sem telecoteco
Com a morte de Sargentelli, mais uma baixa registrada
entre as patentes do samba. Pelo menos, entre as legítimas
(os oficiais de cavalaria não contam, pois esses
continuam dando coice à vontade, nos palcos e na
mídia). Há muito tempo partiu o General
da Banda, o destemido Blecaute (de quem o Aldir sempre
lembra toda vez que ouve falar em "Sombra e Sombrinha").
De lá pra cá, o exército vem perdendo
forças: se foram o major Zé Kéti,
o capitão João Nogueira, o tenente João
do Vale. "Ces´t la vie que a minha não
veio", diria o marechal Morengueira.
Foi-se o ziriguidum, perdemos todos com a retirada estratégica
do grande sargento, comandante-em-chefe das mais belas
tropas com as quais contamos aqui e no front: as inúmeras
mulatas, as que ficaram famosas ou não, viraram
estrelas ou não, mas que hoje lembram com imensa
saudade do amigo, colega, patrão e anjo da guarda
Oswaldo Sargentelli. Conviveu com o mundo do samba desde
criança e deu cores e brilho às noites do
Rio. Inventou a mulatologia; agora, quem quiser que a
estude.
Pouco antes do infarto, Sargentelli gravou cena de novela,
ao lado de uma ex-mulata Oba-Oba que ficou famosa (com
todos os méritos, a grande atriz Solange Couto).
Né brinquedo, não: o sargento falou, cantou
e contou histórias. Histórias, aliás,
nunca lhe faltaram. Até porque, foi rico e virou
pobre uma porrada de vezes, era sobrinho de Lamartine
Babo, tinha voz de cantor de ópera, não
comia as mulatas com quem trabalhava, torcia pelo Botafogo
(dizia respirar em preto e branco e seu corpo foi velado
na sede do clube), foi advogado do diabo e gostava de
escrever. Mensalmente, contava algumas dessas histórias
nas páginas do Jornal de Copacabana, bairro onde
morou por muitos anos e só há poucos meses
mudou-se para a Barra da Tijuca.
Atualmente, apresentava um programa semanal de entrevistas
na TVE, A Verdade (será substituído por
Fernando Pamplona, outro craque em sabedoria e elegância),
e preparava um livro de memórias. Entrevistando
a si mesmo, disse que queria "voltar a falar, contar
e cantar a história da música popular brasileira.
Preciso disto para viver. Sinto-me em um beco sem saída.
A moçada está na contramão, dizendo
que estou gagá".
Não estava. Aos 78 anos, era um dos mais lúcidos
da tropa.
Luís
Pimentel - JULHO DE 2002
Homenagem
à Sargentelli
Ainda
está para ser feita uma análise maior
da presença de Sargentelli no cenário
artístico brasileiro, até mesmo sob o
viés sociológico.
Muito tempo antes do "politicamente correto",
Sargentelli criou oportunidades para milhares de mulatas,
em época de racismo ainda forte. Sua vida foi
ponteada pelos três emblemáticos símbolos
da cultura brasileira: Futebol, Samba e a Mulata. (escrevo
em caixa alta, porque assim Sargento o faria)
Também não se pode esquecer seu sincretismo
religioso. Respeitava todos credos, incorporando e divulgando
expressões da umbanda e candomblé antes
até de Vinicius de Morais e Baden Powell.
Era apaixonado pela sensualidade, criatividade e malandragem
do brasileiro, traços característicos
de nossa miscigenação, admirada até
por outros povos.
Gostava de lembrar quando era locutor encarregado do
noticiário da Segunda Guerra. Sempre que precisava
falar nomes complicados de generais alemães ou
russos, abria um clip de papel e o raspava no microfone,
emitindo estática para quem ouvia os informes.
- Ô Sargentelli!-porque mesmo com céu claro,
só dá estática no seu horário?
Perguntavam seus colegas...
Um de seus programas era encerrado com as doze badaladas
de carrilhão. Certa ocasião, o mecanismo
emperrou na quarta badalada. Sargento rapidamente botou
as mãos em concha e soltou sua voz de trovão:
Blén, Blén....com todos no estúdio
rolando de tanto rir.Histórias como estas, de
Sargentelli, existem milhares.
Generoso, não deixava de ajudar quem precisasse,
e nunca cobrou de volta. Cobrou sim, nos últimos
tempos, trabalho. Dizia: "Estou lúcido,
memória 100% e quero trabalhar". Fernando
Barbosa Lima foi quem confiou no taco do amigo e o chamou
para fazer "A verdade de...".
Dentre tantos que prometeram e prometeram...
Profissional competente e talentoso era o primeiro a
enviar seu texto para o jornal, manuscrito, feito num
ato só, do tamanho certo, com início,
meio e fim, conteúdo saboroso, que deleitava
a todos.
Nunca perdeu o bom humor mesmo em tempos de ostracismo.
Nos
deixou como sempre quis, rodeado de amigos, em cena,
no palco, sob os holofotes.
Saravá meu irmão!!