Quando
esta carta for publicada você já estará
empossado na funçaõ de Secretário do
Audiovisual do Ministério da Cultura, mas mesmo assim,
quero aqui externar meus votos de que sua gestão
seja um grande passo na consolidação do cinema
brasileiro como atividade geradora de bens culturais, sociais
e, sobretudo, econômicos.
Por que econômicos? Porque ainda persiste entre nós
a idéia de que cultura é uma atividade que
deve ser exercida sem visar lucro, como um sacerdócio.
Ora, numa sociedade em que nem os pastores de almas exercem
sua pregação graciosamente é incongruente
que os ditos "agentes culturais" o façam
de forma não remunerada e o mais das vezes às
próprias custas.
Em todos esses anos de minha atividade cinematográfica,
e que não são poucos, já participei
de trabalhos em quase todas as áreas do audiovisual
mas por uma tenho especial carinho: o curta metragem. Me
emociona e comove ver o esforço, a garra e a coragem
com que os jovens (alguns não tão jovens assim)
candidatos a cineasta se entregam ao anseio de ver seus
sonhos projetados na tela. E eles são muitos e cada
vez mais profícuos. Surgem de todos os cantos esse
imenso país cheios de historias e esperanças
correndo em busca de um objetivo que para poucos se torna
realidade: a conquista de um patrocinador. Poucos conseguem
atingi-lo e, na maior parte das vezes, as verbas não
bastam para que o sonho chegue a se concretizar já
que os valores disponibilizados pelos "concursos de
curta" mal dão para pagar o material de consumo
necessário à realização de um
filme. A maior parte do restante da produção,
elenco, equipamento, equipe, transporte, finalização
depende da boa vontade dos agentes do mercado cinematográfico,
ou seja, custo zero. Um produtor de um filme de curta metragem
não é mais do que um "descolador"
de facilidades, um pedinte cultural. E aqui não posso
esquecer e deixar de enaltecer aqueles que generosamente
disponibilizam seus préstimos em troca, quase sempre,
de um simples agradecimento nos créditos do filme.
São aqueles que alavancam os sonhos dos futuros cineastas
e o que se deseja é que os órgãos incentivadores
da atividade desburocratizem a participação
desses agentes.
Faço aqui um pedido ao colega agora secretário
do audiovisual. È necessário e urgente que
se tomem algumas providencias no que diz respeito ao processo
de prestação de contas na sua secretaria.
Não vou detalhar quais seriam para não ser
inoportuna, mas trata-se da exigência de notas fiscais
de serviço que, o mais das vezes foram feitos graciosamente
e pelos quais o prestador não obteve nenhum lucro.
E a coisa fica mais estranha quando o prestador (atores
e técnicos) é pessoa física e, inexplicavelmente,
os órgãos governamentais exigem a apresentação
de nota fiscal na prestação de contas contrariando
outros preceitos trabalhistas.
Amigo, quase que extrapolei ao objetivo desta carta que
é o de desejar um enorme sucesso à sua gestão
à frente da Secretaria do Audiovisual. Competência,
coragem e discernimento por certo não lhe faltarão.
O cinema brasileiro e a amiga aqui continuarão firmes,
agora ao seu lado, nessa luta.
Um
grande abraço
Denise Del Cueto - Produtora de Elenco