Eu
jogava botão no corredor e nem queria tomar conhecimento
do que se passava no resto da casa. O jogo era decisivo, Bahia
e Vitória, um clássico com estádio lotado
e todas as emissoras de rádio cobrindo a partida. Eu era
o locutor de todas elas, comandando os jogadores com os meus dedos,
não poderia mesmo me distrair com nada.
Minha irmã lavava roupas no quintal. Os panos ficavam de
molho na bacia e a bacia ficava em cima de um banquinho de madeira,
ao lado do tonel enferrujado e cheio de água. Minha irmã
ensaboava, torcia, batia os panos na pedra, depois enxaguava um
por um, sempre cantarolando "se você pensa que o meu
coração é de papel/não vá pensando,
pois não é". Minha irmã estava alegre,
não reclamava do namorado que ela dizia que tinha outra,
uma vagabunda, nem da dor na coluna, nem das vizinhas que adoravam
fazer fuxico.
Minha mãe na cozinha, coando café fresquinho no
coador de pano. O coador enfiado na chaleira, que no caso era
também cafeteira, cheio de pó de café. Minha
mãe jogava água fervendo e o café já
saía prontinho do outro lado do coador, enquanto na outra
boca do fogão ela cozinhava o aipim. Café fresco
com aipim quentinho é a melhor coisa do mundo e minha mãe
sempre soube disso, por isso preparava o desjejum feliz, assoviando
e cantarolando "meu canarinho, meu beija-flor/onde andará
o meu amor/que foi-se embora e nunca mais voltou/meu canarinho,
meu beija-flor". Minha mãe estava alegre, nem reclamava
da dor nas pernas que subia pelo corpo inteiro. Queria coar logo
o café, cozinhar o aipim e botar tudo na mesa, pois o meu
pai chegaria de viagem a qualquer momento.
Minha outra irmã já estava se preparando para ir
trabalhar. Saiu do banho e passava batom na boca e ruge no rosto,
perto dos olhos, uma toalha enrolada no corpo e outra, menorzinha,
em volta dos cabelos. Tirou a toalha pequena da cabeça,
balançou os cabelos para lá e para cá, meteu
a escova entre os fios, para cima e para baixo, até que
ficou muito bonita. Encostou a porta do quarto para que eu não
pudesse acompanhar mais nada (a porta do quarto dela ficava bem
em frente ao corredor), porque era a hora de se livrar da toalha
que protegia o corpo, para vestir calcinha, sutiã, saia
e blusa. Depois sentou-se à mesa para tomar café
com aipim. Cheirava à colônia de alfazema e cantava,
lindamente, "esqueça, ele não te ama/esqueça,
ele não te quer/não chore mais, não sofra
assim".
Meu irmão acordou apressado, como sempre, pois estava sempre
atrasado para o trabalho. Nem entrou no banheiro e minha mãe
perguntou se ele não ia tomar banho. Disse "de noite
eu tomo", engoliu café com aipim às pressas,
e quando passou pelo corredor me deu um peteleco na orelha. Depois
arrastou aquela mão enorme pelo campo, embaralhou todos
os jogadores, perguntou quem estava ganhando e eu mandei à
merda, puto por causa da interrupção do jogo. Meu
irmão disse "vai trabalhar, moleque, sai dessa vida",
e pegou o caminho da rua, cantando "Meu carro é vermelho/só
uso espelho para me pentear". Nem esperou pelo pai, o mal-agradecido.
Aquele era mesmo um dia de paz em minha casa. Por isto não
perdoei até hoje, jamais perdoarei, o miserável
que chegou àquela hora da manhã para contar que
o meu pai tinha morrido em um acidente de carro, que estava estirado
na estrada perto dali, o corpo todo arrebentado, morto, morto,
para sempre morto meu pai naquela manhã.
Do livro de contos Grande homem mais ou menos
(Prêmio Nacional Cruz e Souza de Literatura, 2º lugar),
que lanço terça-feira, dia 21 de janeiro, na Livraria
do Museu (Rua do Catete, 153), a partir das 19 horas. Todos os
amigos e leitores deste jornal estão convidados.