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Os falsos profetas

Toda virada de ano, é a mesma coisa: em meio às festividades, alguns funestos vaticínios grazinados por pseudoprofetas ansiosos por fama e publicidade. Não se pode nem se deve levar a sério esses agoureiros de meia-tigela, que se comprazem em difundir o medo e a desesperança entre os mais crédulos e supersticiosos. Mesmo quando calcadas em bases supostamente científicas, as predições de infortúnios e desgraças não devem jamais ser acolhidas de maneira acrítica, ainda que brotem de videntes com diplomas de economista. Estes, aliás, são os mais perigosos, pois muitas vezes se escondem, por trás dos seus prognósticos, interesses os mais inconfessáveis.
Aqui na República do Leme, que, como se sabe, é uma das sínteses disléticas mais perfeitas e bem acabadas das contradições enfeixadas pelo nome Brasil, não poderia ser diferente. Também aqui, esta é a época em que insuspeitados bacuraus e caburés surgem das trevas da noite, quando menos se espera, para pressagiar desditas com os seus pios não solicitados. Felizmente, graças à Deus e aos Orixás, nunca acertam.
Se acertassem, o meu amigo Ilves Gaspar, ex-presidente da Banda do Leme, já deveria ter subido há muito tempo. Pois, há séculos, ouço a sinistra cantilena: "Ele não chega ao final do ano." A bem da verdade, devo reconhecer que a previsão, neste caso específico, tem algum fundamento, já que o Ilves reaparece, sempre nesta fase pré-carnavalesca, cada vez mais franzino e mirrado. Às vezes, eu acho que ele ressurge da longa hibernação, do período em que foge do frio siberiano que varre a esquina da Taberna Atlântica, só pelo prazer de desmentir os tarólogos e áugures de botequim.
Vocês já ouviram dizer que cerveja engorda, não é mesmo? De fato, pode engordar a mim ou a vocês, não ao Ilves. Sete décadas de chope na meia-pressão não produziram uma mísera grama a mais na barriga ou nos dois gravetos em que sustenta o corpo. Canelas esta que já resistiram ao ataque de um leão. Foi no Selva, uma bar que virou Leme light na era neoliberal, embora continue sendo chamado, como sempre, de Escadinha. Pois o Ilves, distraído a saborear seu chopinho, cometeu a imprudência de tropeçar num filhote de leão que sempre acompanhava o Rômulo, outro inveterado boêmio. Resumo a história, pois o espaço está acabando: o Ilves com uma das pernas sangrando muito devido à patada do felino, foi levado ao Rocha Maia, onde o médico perguntou: "Que foi isso?" Com a concisão que lhe é peculiar, respondeu: -"Leão". O médico: -"Onde?" O Ilves: -"Selva". O médico perdeu a paciência: -"Eu vou fazer o curativo, mas, depois, o senhor vá, por favor, completr o tratamento ali defronte, no Pinel!"
Aliás, o laconismo - que, no caso dele, deve ser uma forma de economizar energia - certa vez lhe acarretou outro problema. É que, quando saía dos supracitados bares, por já estar levemente trôpego, mas também para poupar as combalidas forças, o Ilves costumava pegar um táxi para levá-lo em casa, a três quarteirões de distância, na Rua Belfort Roxo. Entrava no carro, anunciava o destino e - sempre com o sábio intuito de preservar o que lhe restava de vigor físico - puxava um ronco. Uma noite, foi acordado pelo táxi, quase uma hora depois: - "Doutor, já estamos em Belfort Roxo. Em que rua o senhor mora?"
O pior - e é isto que me chateia - é que nada do que realmente acontece na vida do Ilves, como a investida do leãozinho e a involuntária excursão à Baixada, foi previsto por algum desses adivinhos de esquina.

Arthur Poerner