Hoje:


                                    Jacob e o Bandolim
 

Nove entre dez leitores deste jornal, incluindo aí os curtidores da MPB, não sabem quem foi Jacob Pick Bittencourt. Mas todo mundo sabe quem foi Jacob do Bandolim, o compositor genial e soberbo instrumentista cujo instrumento passou a fazer parte de seu nome.
Não só Jacob era pouco conhecido; há quem garanta que também o bandolim era um ilustre desconhecido até sentir na pele ou nas cordas os dedos do mestre.
Jacob nasceu no Rio de Janeiro, em 1918. Começou a tocar muito cedo, mas por jamais confiar inteiramente na vida incerta dos músicos, exerceu diversas atividades para sobreviver. Trabalhou com vendas, corretagem, foi prático de farmácia, comerciante e até escrivão de polícia – profissão que encarou até a morrer, em 1969, com 51 anos de idade.
Entre as suas obras mais manjadas, estão choros que integraram definitivamente às páginas mais nobres da música brasileira, como Doce de coco, Noites cariocas, Receita de samba, Assanhado, Vibrações, A ginga do Mané, Treme – treme, O vôo da mosca e outros. Tocou com os maiores, ensinando e aprendendo com eles, gente como César Faria, Dino 7 Cordas, Jonas, Carlinhos, Gilberto e Jorginho, no histórico regional Época de Ouro.
O valoroso acervo do grande Jacob, que não é pequeno, foi confiado pela família, há quase 30 anos, ao Museu da Imagem e do Som. Estava em boas mãos, mas sem o cuidado devido. Agora, graças ao esforço de jovens e brilhantes músicos como Bruno Rian, Pedro Aragão e Sérgio Prata, contando com a força do veterano Déo Rian, acaba de nascer – para provocar o renascimento do mestre – o Instituto Jacob do Bandolim. Na retaguarda, à frente do Conselho Administrativo, gente de peso e prestígio como Hermínio Bello de Carvalho, Joel Nascimento, Jorginho do Pandeiro, Luiz Otávio Braga, Marília Trindade Barbosa (atual presidente do MIS), Maurício Carrilho e Sérgio Cabral.
Em 1947 Jacob do Bandolim gravou seu primeiro disco solo. Mas, segundo os organizadores do instituto, durante sua trajetória artística ele deve ter participado da gravação de mais de 400 músicas, em centenas de discos 78 e 33 rpm. Estão em campo, procurando colecionadores em todo o Brasil, para reunir o maior número possível de registros sonoros que possam fazer parte do acervo de Jacob. Trabalho de craques, apaixonados e abnegados.
Foram encontradas e estão sendo catalogadas, para recuperação e posterior disponibilização ao público, 122 fitas magnéticas, fotos e partituras além de páginas e páginas sobre a literatura do choro, pois nas horas vagas o grande Jacob ainda era pesquisador da música.
Vem aí até o final deste ano, para batizar e sacramentar o projeto, um recital que deverá chamar-se Ao Jacob, seus bandolins, reunindo a melhor cambada do choro. O repertório, todinho do mestre, vai virar CD e talvez DVD. Enquanto aguardamos, bons votos e aplausos para os meninos do Instituto Jacob do Bandolim, que eles merecem.