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O Martketing do Medo

Embora já tivesse, a época, contado a história da UNE no livro O poder jovem,, só vim a conhecer, pessoalmente, o Serra, que a presidira nos meses que antecederam o golpe militar de 64, no exílio: eu, na Alemanha; ele, no Chile. Nosso encontro, em Berlim Oriental (o muro ainda estava de pé), no Festival da Juventude de 73, foi várias vezes interrompido pelas suas ansiosas tentativas de falar com a mulher, em Santiago. Queria saber como andava a greve dos caminhoneiros, às vésperas do 11 de setembro chileno. Até que retornou, sorumbático, à mesa da boate em que só havíamos conseguido entrar depois que os porteiros nos emprestaram gravatas. Acertou em cheio:- “Não tem mais jeito. O Allende vai cair”.
Nunca mais nos vimos. De volta ao Brasil, ele virou senador e ministro, se socialdemocratizou e acabou se neoliberalizando. Como continuei de esquerda, fiel aos princípios e ideais que me levaram ao exílio, chegamos a este instante da vida nacional em campos opostos. O que é absolutamente normal num país que retomou a caminhada pela democratização. Só lamento que o Serra, diante da iminente derrota nas urnas, tenha perdido a objetividade analítica do encontro berlinense. E que os seus programas eleitorais do segundo turno venham se transformando num canhestro ensaio de exploração de medos ancestrais.
Sou contra qualquer cerceamento à livre manifestação do pensamento. Como jornalista e escritor, nem poderia ser outra a minha posição. A Regina Duarte tem todo o direito a temer o futuro que se prenuncia. Aliás, no momento que vivemos, o Bush, com a sua arrogante irresponsabilidade, deve ser um dos raros seres humanos que nada temem. Mas, de que o papel desempenhado pela atriz no horário eleitoral foi uma apelação do marqueteiro, não tenho a menor dúvida.
Felizmente, o tiro saiu pela culatra. Porque a esmagadora maioria dos brasileiros demonstra muito mais esperanças do que medos às vésperas de ser governada, pela primeira vez, por um presidente que não vem das elites, mas da vasta legião dos explorados e oprimidos. Por um torneiro-mecânico, pobre e sem diploma universitário como Tiradentes.




      OUTUBRO DE 2002


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