Zózimo Bulbul
Texto e foto:Renata Moreira Lima

70. De lá para cá, Zózimo Bulbul dedicou a carreira ao resgate do que chama de africanidade através do cinema com os filmes em que atuou e dirigiu, como em Alma no Olho, Terra em Transe (de Glauber Rocha) e As Filhas do Vento (de Joel Zito Araújo). Foi o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira e manequim de uma grife de renome.
Há cinco anos criou o Centro Afro Carioca de Cinema, local destinado a exibir filmes de diretores africanos e afro-brasileiros, além de ser um espaço de encontro e reflexões sobre a arte do cinema. Para 2012 serão abertas oficinas.
Jornal Copacabana: Esse ano você realizou o 5º Encontro de Cinema Negro Brasil África & Caribe, sendo o curador do evento. Obteve os resultados pretendidos com a ideia que teve desse encontro?
Zózimo Bulbul: O encontro foi criado para alavancar o cinema negro. Vem sendo uma expectativa proveitosa. Sinto que tenho essa resposta a cada ano. Cada vez há mais interesse com o assunto.
Cada ano é uma surpresa, um desafio que peguei para a minha vida porque 70% dos brasileiros são afro descendentes, miscigenados e afins, como digo! (risos). Mesmo assim, ainda se nega a cultura africana nesse país.
O cinema hoje é moderno, rápido, ele acontece!
Cheguei da África há pouco tempo e percebi que lá, o continente está se comunicando, se encontrando através do cinema.
Com o projeto tento resgatar a “africanidade” dos brasileiros.

J.C: Pretende unir os negros americanos com a participação do Caribe?
Z.B.: Trouxe o Caribe, também para o festival, porque nós, brasileiros, ficamos isolados da América Espanhola por causa da língua, eles interagem entre eles, precisamos estar nesse circuito também. Não podemos mais ficar isolados. Foi muito importante agregar o Caribe ao Festival.
J.C.: Quais serão as atividades do Centro Afro Carioca de Cinema no próximo ano?
Z.B.: A casa existe há cinco anos e agora obtivemos o certificado de Ponto de Cultura, por isso, no próximo ano estaremos aptos a dar cursos de tudo ligado à cinema. Ainda não temos a definição, mas estamos elaborando como será.
J.C.: A casa fica na Lapa, um dos berços da africanidade do Rio de Janeiro...
Z.B.: Essa casa na Lapa caiu do céu! (risos). Rua Joaquim Silva, 40. Já era um lugar ligado à cultura, carpintaria para cinema e teatro no primeiro andar e figurinos no segundo. Quando fechou acabei pegando esse local. Aqui é um reduto negro, isso é realmente importante.
J.C.: Você marcou época como ator na novela Vidas em Conflito (1969), quando foi par romântico de Leila Diniz.
Z.B.: Nessa época a TV Excelsior me chamou para o papel e foi mesmo uma revolução! (risos). Eu fazia um professor de vestibular e ela uma moça de família italiana tradicionalista.
A novela saiu do ar porque, além dela começar a namorar um negro, um absurdo naquela época, ela ficava grávida, mesmo sem nenhum beijo. Coisas da ditadura.
J.C.: Além de protagonista, você foi o primeiro manequim negro de uma grande grife brasileira?
Z.B.: Nessa mesma época da novela, aproveitando o gancho de protagonista fui chamado pelo Dener para desfilar a marca dele. Fui capa de revista, foi um sucesso! Só que eu queria mais do que ser apenas um rostinho bonito, minha base foi no Centro Popular de Cultura da UNE, nos anos 60. Não me conformaria em ser um ator vazio.
J.C: Você sempre foi engajado nas causas políticas e negras, né?
Z.B.: Desde 1970, ano que o Brasil estava em ebulição, tinha acabado de acontecer o AI5 (Ato Institucional nº 5, em 1968) e nós brigávamos contra os militares.
J.C: Politicamente, hoje, o que falta ao negro?
Z.B.: Está muito difícil escolher um partido. Discuto sempre sobre a negritude. Acho necessário que haja respeito ao contingente africano que veio construir e dignificar o país. Precisamos ser respeitados como os brancos são.
É importante que haja incentivos para que o negro possa conhecer a África de alguma forma, nem que seja através do cinema, para que haja esse resgate cultural, para que conheça a sua cultura.
J.C: Como a juventude de hoje pode ajudar nesse resgate da “africanidade” através do cinema?
Z.B.: Jovens, negros e brancos que quiserem podem estimular as pessoas a assistirem os filmes negros, que representam a cultura negra na telona. Seria fantástico ver novamente os Cineclubes (que estimulavam os participantes a verem, discutirem e refletirem sobre o cinema). Hoje, Com essas TVs de Led... “Aquilo” é quase uma tela! (risos). Coloca a tv na esquina, chama as pessoas e faz acontecer o encontro da cultura negra!
Já para fazer cinema, realmente é mais difícil, faltam incentivos e é muito importante buscar conhecimento. Uma dica: mais importante do que a imagem que vai passar na telona é o a história escrita. Leia bastante e aí escreva antes de fazer cinema. Escreva a história, o cinema vem depois!
J.C: Vamos falar de Copacabana. Qual a sua relação com o bairro?
Z.B.: Sou morador de Botafogo e tive uma ligação quando servi no Forte de Copacabana.
Sei que vou cair no lugar comum, mas Copacabana é a Princesinha do Mar... É charmosa... Todo estrangeiro que vem aqui, levo para conhecer a orla de Copacabana.
J.C: E com relação aos cinemas do bairro?
Z.B.: Primeiro vou registrar que amo o filme Copacabana Me Engana, Antônio Carlos da Fontoura, é uma linda obra!
Sobre os cinemas, o Metro Copacabana era um charme. Era um bairro com muitos cinemas, lamento que o número tenha sido tão reduzido, mas comemoro o retorno do Joia! Se eu pudesse resgataria os cinemas do bairro! Não só de Copacabana, mas de todos que vem perdendo as salas ao longo dos anos.
J.C: Deixe seu recado para os leitores do Jornal Copacabana
Z.B.: Adoro a população residente de Copacabana e respeito muito, até pela persistência em continuar morando no bairro, já que a moda agora é ir para a Barra. Sigam assim, orgulhosos de Copacabana!
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