André Ramiro
O Matias de Tropa de Elite
Texto e fotos: Renata Moreira Lima
Da portaria do cinema de um shopping carioca para as telonas de todo Brasil. A participação como Matias no filme Tropa de Elite, em 2007 deu projeção ao ator, que figura nas produções nacionais de cinema. Esse ano vai para o sexto filme da carreira, que começou também na arte, como MC (cantor de Rap). Sem abandonar a veia musical, vai lançar o CD Crônicas de Um Rimador, com participações de Gabriel O Pensador, Black Alien e Dudu Nobre.
André Ramiro se prepara para novos trabalhos, está estudando comédia e esperando o próximo personagem na televisão (foi, recentemente, o agiota Betão da novela Vidas em Jogo, da Rede Rede Record) e quer alcançar o sucesso também na telinha!
Confira a entrevista de André Ramiro ao Jornal Copacabana.
Renata Moreira Lima: Como ganhou o papel para o filme Tropa de Elite? Já tinha feito algum teatro?
André Ramiro: Não tinha feito nada como ator. Aliás, aos nove anos, fiz aulas no CIEP, com o professor Heraldo. (risos). Até participei de uma peça: O Menino e o Sonho, mas não pretendia ser ator. Queria mesmo gravar meu disco. Sou MC.
Eu fazia rap e participava de duelos de improviso, duelos de rima. Participava do evento Batalha do Real, na Lapa, organizada pela Brutal Crew, quando conheci o João Velho, que é ator e também faz improviso. Ele sabia que estavam procurando alguém com o meu perfil, me indicou junto com outras pessoas, com as mesmas características que eu. Na época, além de cantar Rap, eu era porteiro do cinema do Fashion Mall. Com a indicação fui ver o que era e me dei bem! (risos).
R.M.L.: No filme você faz incursões e até trabalha como voluntário na favela. Qual a sua ligação com as comunidades?
A. R.: Nasci no Méier e fui criado na Vila Kennedy, bairro que está enfrentando uma situação difícil no momento. Me preocupo. Espero que o melhore. Meus familiares moram lá.
R.M.L.: O fato de ter sido criado em uma comunidade o ajudou na composição do personagem?
A.R.: Sou um em um milhão vivendo essa realidade de ter crescido em comunidade. Não sei se ajudou a compor o Matias (foto). A Fátima Toledo (preparadora de elenco do filme) busca no ator, a personalidade do personagem. Tinha que ter essa minha cara de nerd, com “oclinhos”... (risos). Isso ajudou. Agora estou barbudo, cabeludo, mas... Ajudou.
Claro que ter crescido lá também foi bom, de alguma forma, mas não valorizo isso. O fato de ter crescido lá foi apenas uma realidade em tantas outras, parecidas ou não, cada uma com suas experiências.
Acho que o fato de cantar, interpretando, improvisando, isso me ajudou muito a desenvolver meu lado ator.
R.M.L.: Engrenou um filme no outro desde 2007. Já são 5! Tem previsão do próximo?
A.R.: Vou para o sexto filme. (risos). Devo começar a gravar em novembro. Estou animado porque deve ser mais romântico, o que achei bem legal. Estou estudando mais comédia, o palhaço... Não sei se posso falar muito ainda sobre o filme... Vai ficar na surpresa. (risos).
R.M.L.: Você sonhava lançar um CD. Agora é ator...
A.R.: Sempre me perguntam se eu sou mais ator ou MC, o que prefiro. Sou um serviçal da arte! (risos). Aos 30 anos, que tenho, me entendi como autodidata e dedicado. Só sei fazer as coisas à vera, não entro em algo só por fazer... Tenho necessidade de saber mais. É como o José Wilker falou em uma entrevista: “grande parte das vezes o que gera o movimento é o conteúdo”. Penso assim. Prefiro sempre valorizar o processo.
R.M.L.: E o CD, vai sair?
A.R.: Crônicas de Um Rimador! Está pronto. Foi feito de maneira independente em 2010 e será lançado no fim de outubro, com participação de Gabriel O Pensador, Black Alien e Dudu Nobre. Já gravei o clipe. Espero que as pessoas gostem. Acho bom além de conhecerem o Matias, conhecerem o André!
R.M.L.: Sem deixar o ator de lado, né?
A.R.: É! Agora estou contratado pela Record. Fiz uma participação na novela Vidas em Jogo, mas meu personagem Betão era um agiota e foi morto pelo Ernesto, personagem do Leonardo Vieira, que é um ótimo ator, com quem aprendi muito! Estou esperando o próximo papel e feliz com minha vida ativa: os filmes, televisão, família...
R.M.L.: E Copacabana?
A.R.: Moro aqui há quase quatro anos, no Bairro Peixoto.
Morei no Jardim Botânico, no Flamengo, agora estou aqui.
Sei que é meio clichê, mas acho o Bairro Peixoto é mesmo um Oasis em Copacabana! Gosto de levar meu filho para brincar na pracinha, curto os grafites da travessa, além do movimento que tem, naturalmente o bairro. Acho legal esse mix de gente que tem aqui, não é como no Leblon e em Ipanema, que são também ótimos bairros, mas aqui é misturado, combina mais comigo. (risos). O caos e o oasis que encontrei em Copa me remetem ao meu bairro, onde cresci. Copacabana tem gente simples, sempre sou bem recebido onde vou, no ponto de taxi, no Restaurante Pontinho, no Kitutes da Deusa, na locadora Paradise, adoro ir ao Shopping dos Antiquários, sou bem atendido na Drogaria Peixoto... (risos). Os porteiros que sempre me dão força... Sou abraçado pelas minhas empresárias Denise del Cueto e Cláudia Gutierres, a “república das calcinhas”! (risos). Fui muito bem recebido e acolhido pelo bairro, gosto da simplicidade que tem aqui. Além de tudo é um ótimo laboratório para os meus personagens!
R.M.L.: Você fez dois filmes que tratam de questões de segurança e política. O que espera em relação ao nosso país e nossa cidade?
A.R.: Dei sorte de crescer na Vila Kennedy. Vi muita coisa quando era pequeno e agora posso viver os paralelos. Tenho meus familiares lá e as pessoas que me acolheram na Zona Sul.
Vendo os dois lados, percebo que o país só vai se desenvolver socialmente se as pessoas tiverem coragem e boas ideias. O país está tomando um rumo extremamente capitalista, tem que tomar cuidado. Temos a maior quantidade de água potável no planeta! É importante que tenhamos senso de preservação da natureza. O povo é bonito e feliz e estamos passando por um momento de transição cultural, nos ligando mais a ela. Pena que ainda há um certo complexo de Macunaíma: a política ainda não é pauta nas rodas de conversas. O futebol ainda é mais importante. Sou Flamengo, acompanho, adoro futebol, mas temos também que nos preocupar com o país. O governo precisa investir em saúde e educação.
Na nossa cidade vemos a Zona Sul privilegiada, com mais acesso à cultura, até pelo poder econômico.
O mundo hoje está interligado, tem a internet que abre possibilidade de troca de informações com estrangeiros. O brasileiro, que ainda não sabe português direito, tem que saber inglês também! Isso é importante. Quando cheguei na Zona Sul, percebi que eu não tinha algumas informações, fui atrás de saber, para suprir essa carência.
Que o povo tome a responsabilidade já que o governo não faz. O ideal é que a gente consiga “caminhar” com o governo e ele com o povo.
Quando o Brasil perde uma Copa do Mundo, as pessoas vão ao aeroporto cobrar dos jogadores, da comissão técnica, mas ninguém se mobiliza para cobrar um corrupto que está roubando ou um político que prometeu e não está cumprindo.
R.M.L.: Deixe seu recado aos leitores do Jornal Copacabana.
A.R.: Quero agradecer, também pela minha família, por sermos bem vindos no bairro.
Há muitos pedintes e sujeira por aqui, queria que melhorasse isso. Vamos reivindicar essas melhorias, seria bom ter mais segurança também. As pessoas ruins estão sempre fazendo algo ruim, por isso as pessoas boas tem que fazer coisas boas.
Sempre há os contras, mas acho Copa um lugar maravilhoso! É colorida e isso se reflete no povo daqui! Gosto mesmo do povo daqui! (risos).
Meu próximo CD virá com uma música que fiz para o bairro, escrevi na praia...
Um abraço para o pessoal do Bairro Peixoto e um alô para a galera do futevôlei do Posto 4! Obrigada a todos!
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