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Elza Soares
Texto e fotos: Renata Moreira Lima

Março é o mês das mulheres. Em 2011, o carnaval caiu justamente nesse mês. Unindo essas duas forças com mais de 50 suspiros de alegria, O Jornal Copacabana foi até a casa de Elza Soares para conhecer um pouco mais dessa mulher guerreira e que tem tudo a ver com o carnaval carioca.
Em 2001, Elza foi eleita A Voz do Milênio, pela BBC de Londres. Foi a primeira mulher a interpretar um samba à frente de uma escola na avenida. Passou por problemas com o governo brasileiro, mas não deixou de representar o Brasil. Teve uma história de vida humilde e se tornou uma estrela.
Os mais de 50 anos de carreira são apenas suspiros de felicidade para quem vive o agora como se houvesse apenas hoje.
Conheça mais dessa mulher, um dos símbolos do carnaval e apaixonada por Copacabana: Elza Soares.
RML.: Você é moradora de Copacabana, como vê o bairro?
E.S.: Eu amo Copacabana! É um lugar que tem feitiço... O charme das pessoas sábias... É o bairro com o maior número de idosos, mas com muitos jovens também. Meus filhos moram em Copacabana. Aqui tem fascinação!
O que me entristece é a garotada solta nas ruas... Melhorou um pouco, mas ainda tem muita criança largada por aí. Os buracos também são um absurdo! Copacabana não podia ser assim, é um lugar que todo mundo conhece. Ninguém sabe onde é o Leblon, as pessoas só conhecem Ipanema por causa da música Garota de Ipanema, já Copacabana, é conhecida mundialmente, devia exalar um perfume bom para nós e nossos queridos turistas que vêem ao Rio por causa de Copacabana.
R.M.L.: A sua relação com o bairro começou no início da sua carreira, antes de você gravar o seu primeiro LP, quando foi crooner em uma boate do bairro...
E.S.: No Texas Bar, no Leme. Naquela época, Copacabana era encantadora, mais charmosa ainda, tinha mais vida! Ainda mais para mim, que estava vindo de Água Santa. (risos).
R.M.L.: Você citou Água Santa, foi criada em uma comunidade da região onde passou sua infância e adolescência. Sempre gostou de cantar? Desde pequena já tinha essa voz característica, com uma rouquidão diferenciada, com a cadência dos sambistas de raiz?
E.S.: Aprendi samba canção com meu pai, que era um blueseiro, gostava de serenatas. Mas não me considero de raiz. Cantor tem que ser em todos os sentidos. Gosto de cantar samba, funk, jazz, blues... Eu sou blueseira. Ouço Billy Holiday, Elizete Cardoso. Sou fanática por Chet Baker, é como João Gilberto, Dick Farney. Gosto de um bom samba, mas hoje tem uns que são feitos e levados para um rumo desonesto. Gosto de Paulinho da Viola, Helton Medeiros e tantos outros. O brasileiro tem muita riqueza de musicalidade, prova disso é Dorival Caymmi, Ari Barroso, Silvio César, Lupicínio Rodrigues, Luis Reis, João Bosco e tantos outros. O Brasil é rico na produção de letras e músicas. Gosto muito de samba enredo, algumas pessoas acham que é tudo igual, mas tem toda uma pesquisa, cada escola de samba leva uma história para a avenida.
A embriaguez do carnaval com o belo samba não pode fechar os olhos das pessoas. Temos que cobrar dos nossos governantes para mudarmos o nosso país, para que fique ainda melhor. Lamento a união que há dos brasileiros em torno de uma Copa do Mundo e a desunião que segue depois dela...
R.M.L.: Como deixou de ser lavadeira e operária para seguir a carreira artística?
E.S.: A vida me levou para o samba, ela sabe o que faz. O que tem que ser está escrito, não tem como fugir. Cabe a nós,sabermos abraçar e amar o que fazemos. Eu amo os palcos! Se continuasse como lavadeira também teria feito com amor.
Quando comecei a trabalhar com Grande Otelo, ele me falava para fazer direito, para valorizar a minha raça. Eu dizia que a minha raça é humana, não preciso me defender nem diferenciar.
R.M.L.: Em 1958 foi à Argentina onde ficou por quase um ano em cartaz com o espetáculo Jou-Jou Frou-Frou...
E.S.: Comecei a carreira, praticamente como profissional, no teatro Astral, na Argentina.
Cantei com Louis Armstrong e me emocionei quando tive a honra de substituir Ella Fitzgerald. E, quando o país me expulsou, fui passear na Europa. Mas voltei porque não guardo mágoas, vivo sempre “o agora, now”. Foi muito triste ter que deixar a minha casa, mas foi bom porque aprendi outros idiomas.
R.M.L.: Você tem muitos sucessos desde o primeiro Se Acaso Você Chegasse. Quais são os que mais gosta de relembrar?
E.S.: É difícil não cantar Façamos, do Chico Buarque, O Malandro, de Jorge Aragão, Beija-me, de Zeca Pagodinho, Mulata Assanhada, Dom Fuas, que não é muito conhecida mas foi na época que comecei o sambalanço, junto com o Simonal.
R.M.L.: Você é uma artista sempre moderna, mistura o samba à bossa nova, MPB, sambalanço, samba rock e, até, ao hip-hop e à música eletrônica em seus trabalhos. O que o público pode esperar de seu próximo trabalho?
E.S.: O Bruno Lucide, meu marido e empresário, está montando um show com muito eletrônico em releituras de grandes sucessos. Vai ser bem Elza! (risos). Será para a nova geração conhecer a minha música. Esse país, infelizmente, ainda não tem memória. Não temos data de estreia, mas fiquem atentos que será lançado daqui a alguns suspiros... (risos).
Estou, também com uma ONG de mulheres para valoriza-las e aproximar umas das outras. Ainda temos muitos “gritos” para dar na sociedade. Ser mulher é lindo!
R.M.L: Sua vida e obra está sendo acompanhada de perto desde 2008 pela cineasta Elizabete Martins Campos, que está fazendo um filme longa metragem sobre Elza Soares. Como está esse processo? Tem previsão para o lançamento do filme?
E.S.: Ainda não tem nome, eu gostaria que fosse De Que Planeta Você Veio?, mas vamos aguardar. Ainda não tem data para de lançamento.
R.M.L.: Você tem mais de 50 anos de carreira. Teve indicações ao Grammy, foi eleita pela BBC de Londres a “Melhor Cantora do Milênio”, representou o Brasil na Copa do Mundo de 1962, onde conheceu o craque de futebol Garrincha, com quem foi casada durante 15 anos, interpretou o Hino Nacional nos Jogos Panamericanos de 2007, aqui no Rio... O que ainda almeja para a sua carreira?
E.S.: Almejo tudo! Estou viva! (risos). Quero sempre ser feliz de verdade! Busco saúde, sucesso na vida, mesa farta e poder caminhar de cabeça erguida, dar cabeçada também faz parte e ser respeitada.
Não são 50 anos, são 50 minutos de vida, ela passa rápido, são 50 suspiros revigorantes de prazer e felicidade! (risos). Costumo dizer que “my name is now”!
R.M.L.: São mais de 50 anos que...
E.S.: Não se prenda aos 50 anos, para mim não querem dizer muita coisa. Talvez dissessem mais se eu não precisasse correr atrás de patrocinadores até hoje. Busco mais 50 suspiros! (risos). Daria mais valor a isso se eu não tivesse que gritar: atenção patrocinadores do Brasil, eu existo! A Voz do Milênio está querendo trabalhar! Às vezes fico triste por isso, mas sou feliz pelo que faço e fiz!
Luto há um ano contra uma dor no tornozelo porque amo subir no palco, cantar e me doar... Lá eu sou feliz!
R.M.L.: Você foi a primeira mulher a interpretar um samba na avenida. O que vai fazer nesse Carnaval?
E.S.: Vou ficar com saudade da minha escola, Mocidade Independente de Padre Miguel. Devo ir para Portugal ou para Trancoso.
Adoro carnaval, aproveito sempre para apreciar e analisar da minha janela o bloco Unidos de Copacabana, que se reúne sempre aqui na frente do meu prédio. Gosto da bateria deles e espero que estejam representando bem Copacabana. Nem sabem que eu fico aqui de casa de olho no trabalho e na alegria deles. (risos).
R.M.L.: Quais artistas da nova geração estão se destacando?
E.S.: Eu vivo o agora, quem está fazendo a história deve ser coroado. Gosto muito do Marcelo D2 e dos conhecidos como Emílio Santiago, Luiz Melodia, Cauby Peixoto, que gravou Frank Sinatra de maneira exuberante, recentemente, sem embromation. Todos estão aí agora, now! Eu e Bruno temos uma produtora e estamos buscando novos talentos, cantores que acredito que vão engrenar no mercado como João Paulo Silva, Roberta Espinosa, Francesco Lage, Marcele, Beto Aquino. Estão chegando sem “vícios” ao cenário musical. Dos que já estão, gosto muito da Maria Rita, Mart’nália, gosto do jeitão dela, da atitude que ela tem, gosto de toda a família.
R.M.L.: Sua relação com Copacabana começou quando foi crooner. Hoje, é moradora do bairro. O que gosta de fazer em Copacabana?
E.S.: Gosto de venerar Copacabana: olhar, sentir, cheirar... Por isso gostaria que o bairro fosse perfumado... E nem precisaria ser do meu perfume Dolce & Gabbana! (risos). É um bairro que tem tudo, a qualquer hora! O meu orgulho é morar aqui. Adoro quando me perguntam onde moro, respondo toda metida: moro em Copacabana!
R.M.L.: Deixe seu recado aos leitores do Jornal Copacabana.
E.S.: Peço que tenham consciência e mais respeito por Copacabana! E não deixem de ler o Jornal Copacabana que é super interessante! Nós, copacabanenses, sabemos o valor que esse jovem de 15 anos tem para o nosso bairro!
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