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A Andança
de Edmundo Souto
Por Renata Moreira Lima

Fã de Paul McCartney, o compositor Edmundo Souto baseou sua carreira na dedicação e no estudo. A dificuldade de tocar Bossa Nova fez com que ele buscasse o sonho! Assim, Edmundo se tornou um compositor respeitado e de sucessos como “Andança”, “Aguapé”, “Cantiga para Luciana” e “Canto Para Dizer-te Adeus”. A primeira composição foi “Candomblé”, em 1966 em parceria com Paulo Magoulas e Danilo Caymmi. A música foi regravada pela cantora Mariana Aydar e está no CD Kavita 1, lançado em 2006 pela cantora.
Como arquiteto, projetou o ParCão (o espaço designado para os cães, no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas).
Agora morador da Lagoa, Edmundo fala da carreira, de amigos e do amor que continua tendo pelo bairro onde foi criado: Copacabana.
Jornal Copacabana: Como começou a tocar violão?
Edmundo Souto: Sou de uma geração privilegiada. Época de Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano...
Meu pai sempre colocava um bom disco em casa para tocar: Johnny Alf, Dick Farney, Braguinha.
Eu tocava clássico, mas não conseguia tocar Bossa Nova. Fiquei enlouquecido com isso e fui até a escola do Carlos Lyra tentar estudar violão. Estava lotado. Quando ele apareceu, me antecipei e disse que queria estudar porque não conseguia tocar “Chega de Saudade”! Todo mundo ali queria o mesmo! (risos).
Samuel Eliashá foi meu primeiro professor. Naquele dia, cheguei em casa e fiquei até 4h da madrugada, acordado, tocando “Maria Ninguém”. Comecei a respirar Bossa Nova!
J.C.: E quando começou a compor?
E.S.: Quando digo que sou privilegiado, não é por acaso. Estudei apenas um ano no colégio Anglo, em Copacabana (hoje não existe mais). Lá, conheci Dori Caymmi e comecei a frequentar a casa dele. Dori se tornou meu amigo! Segundo o Dorival (Caymmi), eu “era do bem”, estudava violão. (risos).
Na verdade a minha paixão era pelo cinema, mas acabei não indo por esse caminho.
Minha turma de Copacabana era Xavier de Oliveira, Frederico Rodrigues... Fizemos um filme: “Garoto de Calçada”. Fiz a trilha sonora. Era sem diálogos, só com a música dando o tom. Só que eu nunca tinha feito música! (risos).
Colocamos no Festival JB e ganhamos o terceiro lugar no prêmio de Melhor Filme e primeiro no prêmio de Melhor Trilha Sonora! Foi aí que me tornei profissional.
J.C.: Foi o seu único contato com cinema?
E.S.: Depois disso, fui fazer a trilha de “Manequim”, um outro filme. Danilo Caymmi sempre dava palpites nas minhas composições, dizia para eu fazer notas mais longas... Na busca pelo tema, Dori me indicou Danilo para tocar flauta. Um certo dia, me liga o Roberto Menescal chamando para gravar no estúdio. Quando chegamos, tinha uma orquestra esperando para tocar minha música. Foi um sonho! Hugo Marotta fez o arranjo, Menescal ao violão... Eles tocando a nossa música e eu, ali, paralisado!
A partir daí, conhecendo os Caymmis e os Tapajós, comecei a fazer música!
Fiz, recentemente, a trilha do filme “Veloso”, de Carlos Mossy, sobre o bar que virou o Garota de Ipanema.
J.C.: E os festivais? O primeiro foi em 1967?
E.S.: Na Bossa Nova, acontecia uma coisa engraçada: um freqüentava a casa do outro em reuniões bem sociais. As pessoas iam arrumadas, não era um encontro casual. Elas tinham um estilo próprio, um ar blasé na hora de cantar... Eu ficava encantado com tudo!
Oscar Castro Neves foi meu professor de violão popular. Recebi um telefonema do Tibério Gaspar para mostrar minhas músicas, para entrarem nos festivais. Ele era muito “agregador” e, através dele, conheci muita gente! Como Beth Carvalho, Paulo Sérgio Valle, Milton Nascimento, que estava chegando ao Rio... Entrei no circuito.
Comecei a parceria com Danilo e fizemos “Canto Para Dizer-te Adeus” em 1967. Iracema Werneck cantou no festival do Rio Grande do Sul e conseguiu o segundo lugar.
J.C.: Sua música “Cantiga para Luciana” foi vencedora do festival em 1969, e um sucesso. Mas foi “Andança”, com o terceiro lugar em 1968 que marcou época, certo?
E.S.: Andança é um marco! E a história dela foi interessante: fiz uma música para Beth Carvalho cantar. Já estava pronta quando Danilo pediu para fazer o arranjo. A Beth adorou e colocou o gravador pra não correr o risco de perdermos a música. Danilo gravou 21 vezes o contra canto que inventou ali, na hora. Beth sugeriu que fizéssemos o primeiro, pois tinha sido o mais natural.
A música começava triste, em tom menor, então passei para um só tom e pedi a letra para o Paulinho Tapajós.
Foi legal porque a Beth gravou uma base vocal com la ra ra rei ra rei... e Paulinho aproveitou a sonoridade e fez: “Vim, tanta areia andei...” E deu o nome: Andança (segundo ele, uma mistura de andar e dançar). Paulinho ainda materializou o contra canto de Danilo com: “Me leva amor”.
J.C.: Como se dá, hoje, o reconhecimento aos compositores, sem os festivais?
E.S.: Tinha festival no Brasil inteiro! Com orquestras... Hoje não se sabe mais quem são os compositores. Só restaram os créditos dados nas rádios. Naquela época, não havia rixa, sim, reconhecimento e admiração pelo trabalho do outro. A emoção ditava a tendência nas gravadoras e rádios, hoje é o “jabá”.
J.C.: Um conselho para os jovens:
E.S.: A guitarra prejudicou um pouco as novas gerações. Eles aprendem guitarra sem saber violão, isso empobrece o artista. É como ser ator de televisão sem ter feito teatro! Violão é muito difícil, tem que estudar e se dedicar. Ele dá uma boa base para tocar guitarra.
J.C.: Você tem alguma mania para compor?
E.S.: Não exatamente. Mas se estou triste, tendo a fazer músicas felizes, e vice-versa. Outra coisa é que sou muito observador, presto atenção a tudo que está a minha volta.
J.C.: Você é formado em arquitetura e fez MBA (Master of Business Administration - Mestrado em Administração de Negócios) em Marketing. De 1999 até 2007 você trabalhou na Secretaria Estadual de Educação. Deixou a música de lado durante esse período?
E.S.: Sou um fazedor de coisas. Faço um ambiente com a mesma tranqüilidade que faço música. Nunca deixei de fazer música!
J.C.: Está com músicas para gravar? Pretende lançar CD? Tem novos projetos?
E.S.: Fiz um CD com 19 músicas sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas (que era chamada pelos índios de Sacopenapã) em um projeto muito bonito que vem em um livro com fotos, ilustrações, histórias do lugar, um guia boêmio do entorno da Lagoa, song book com as músicas e a descrição do que motivou cada composição.
Esse livro foi lançado pela Petrobrás e agora fui liberado para editar e vender nas livrarias. Estou buscando uma editora.
No fim da vida do Tom Jobim, nós nos encontrávamos muito e ele tinha me encomendado a música “Sacopenapã”, então fiz esse projeto. Comecei com uma sinfonia, mas achei pretensioso da minha parte e dividi em 19 músicas. (risos).
Stil e eu estamos fazendo um personagem, que também está no livro, o Socó! É um pássaro resistente que dá nome à Lagoa: Sacopenapã significa “o caminho do Socó”.
Além disso, fechei recentemente contrato com a gravadora Warner e penso em gravar músicas impactantes! (risos).
J.C.: Algumas vezes você se apresenta no bar Bip-Bip, em Copacabana, não é?
E.S.: Algumas vezes, vou lá mais como expectador. O pessoal do chorinho gosta de apreciar a música em silêncio... É muito legal!
J.C.: Qual a sua ligação com Copacabana além do Bip-Bip?
E.S.: Até 20 anos atrás eu morava em Copacabana. É um bairro que eu amo para sempre e ainda frequento. Foi onde tudo aconteceu, onde eu jogava futebol, pegava jacaré com prancha de isopor, ah, o Posto 4... Adoro o Mondego, o Bip-Bip é um “colírio” para os meus ouvidos (risos), gosto de almoçar e jantar na Av. Atlântica. Quando ando de carro por Copacabana, costumo ser lúdico, é um bairro onde há muitos idosos, tem que passar de carro de maneira especial, respeitando os moradores.
Copacabana é um bairro muito vivo, mas tem aquela característica de cidadezinha ao mesmo tempo. Tem limpa-prata, quitanda, sapateiro, costureira... Isso é incrível em Copacabana!
Minha paixão é a Modern Sound! Não consigo sair de lá sem comprar alguma coisa! (risos).
J.C.: Copacabana hoje:
E.S.: Perdeu os cinemas e isso me mata! Ainda bem que o Roxy está aí, ainda! É a nossa resistência! É um bairro cosmopolita, eu amo isso!
J.C.: Deixe seu recado para os leitores do Jornal Copacabana:
E.S.: Deixo uma confirmação: Copacabana é eterna para os poetas, os idosos, os mendigos, porteiros, empregadas... Tem a sofisticação de Ipanema, mas é Copacabana! É como Nova York, vive dia e noite! Eu amo Copacabana!
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