Fernanda Gomes

Por Geraldo Edson de Andrade
Quem entrar na Galeria Artur Fidalgo, no conhecido Shopping dos Antiquários, em Copacabana, poderá conhecer uma nova faceta do trabalho da artista plástica Fernanda Gomes, que nela mostra pela segunda vez sua obra.
O verbo vai aí no futuro mesmo porque se trata de artista nada convencional que desde o início de carreira vem brilhando como uma das mais conceituadas de sua geração. Brilho próprio ela tem. Intelecto, também. E não está nem aí para aqueles que ainda discutem valores estéticos do Belo na Arte, como se ainda estivéssemos no inicio do século vinte.
“Arte é Arte”, ela diz displicentemente com uma naturalidade surpreendente para uma artista que talvez para um público pouco habituado às galerias não seja tão acessível assim.
Então, repito, no papo com Fernanda Gomes, principalmente no âmbito da galeria onde expõe atualmente, como fez o Jornal COPACABANA, é privilégio de poucos, uma vez que a artista nascida em 1960, criada e embalada no bairro mais conhecido do Rio de Janeiro, extravasa emoções artísticas, expõe conceitos, propõe idéias como a maior naturalidade possível. Para que o leitor conheça um pouco do seu valor, avisamos de antemão que Fernanda Gomes, além de presença constante no calendário expositivo nacional, tem levado sua arte, ou a arte brasileira, a vários países. E o que é melhor: sempre sob aplausos da crítica e do público. Prova de que às vezes o que é difícil para alguns não é nem um pouquinho para outros. Aí já estamos entrando naquela mesma conversa de que brasileiros não tem educação visual (ou artística) e outros papos do gênero.
Nem por isso Fernanda é uma artista convencida. Isto eu garanto porque a conheço desde os anos 80, na Escola de Desenho Industrial, da qual fui professor e ela aluna. Longe de ela ser dotada de ego exageradamente narcisista. No fundo todo artista o é um pouco, mesmo porque como qualquer pessoa ligada à criação ela não quer ficar isolada no contexto artístico e, sim, nele integrar-se como faz a cada exposição individual que realiza.
Como a de agora, na Galeria Artur Fidalgo. A princípio a surpresa de se entrar num espaço que é uma ode ao branco. Mesmo as intervenções, algumas mínimas, quase imperceptíveis, revelam um diálogo da artista com seus materiais. Diálogo, aliás, bastante íntimo que o espectador vai aos poucos querendo “ouvir”, como se toda aquela brancura e seus suportes fizessem parte de uma música de câmara. Aliás, do trabalho de Fernanda Gomes sempre me pareceu emergir uma suavidade de sons que esta mostra, mais do que as outras, confirma.
Eis, pois, a nossa vizinha Fernanda Gomes, que nos fala um pouco do muito que tem sido sua participação na arte brasileira e, ao mesmo tempo, declara-se perdidamente apaixonada por Copacabana “que me viu nascer, logo ali na Maternidade Arnaldo de Moraes, numa travessinha da Rua Toneleros, onde hoje é o Hospital São Lucas”.
Geraldo Edson de Andrade.: A partir de que ano você inicia sua arrancada na arte brasileira?
Fernanda Gomes: Há um ano específico no meu currículo: 1988 que é a data de minha primeira exposição individual, realizada na Galeria Macunaíma, da FUNARTE. O mais curioso é que nunca tive intenção de ser artista.
GEA: Me lembro da mostra porque você surpreendia pelo inusitado da proposta, ao queimar fitas de papel para demonstrar, acredito, a efemeridade do material. Ou um conjunto de coisas no espaço, como você a definiu. E o público, como reagiu?
F.G: Olhe, eu ficava num bar em frente à galeria, ali na Rua México, tomando suco e não via ninguém entrar para ver o trabalho. Mesmo com aquele clima do centro do Rio rondando a Macunaíma. No entanto, a crítica foi boa e a acolhida dos amigos, melhor ainda.
GEA: Ausência de público não é problema somente do Centro do Rio. A maioria das galerias da Zona Sul também sofre do mesmo problema. As pessoas têm medo de entrar numa galeria, esta é a verdade.
F.G: Inclusive alguns centros culturais. Outro dia vi uma exposição maravilhosa de Torres Garcia, um pintor que adoro, no Centro Cultural da Caixa, que fica num espaço acessível para todo mundo, com escasso público. Vários colegas meus com quem comentei nem se interessaram de ir.
GEA: A que você atribui esse desinteresse pelas artes visuais no Rio?
F.G: Arte é emoção e pensamento. A literatura ou o cinema, por exemplo, dão ao leitor ou ao espectador, alternativas variadas, simples como largar a leitura quanto ao questionamento da língua, ou sair do filme que, de repente, ficou chato. E paga-se para ter essas opções. Nas artes visuais não, o tempo é seu, você passa o tempo que quiser diante da obra, seja uma hora ou um segundo, há um canal muito mais simples de comunicação entre o a proposição artística e o espectador. O mais estimulante é que para se sentir uma emoção estética numa galeria ou num centro cultural, ninguém paga nem compra nada. E ainda sente-se gratificado pela mensagem que a obra lhe transmite.
GEA: Existe, hoje, no Rio de Janeiro, clima para trabalho experimental de arte?
F.G: Existe, sim. Acho que desde a geração surgida nos anos 60. Foi ela que abriu espaço para as linguagens inovadoras e enriquecedoras no contexto da arte brasileira. No meu caso específico, sempre tive autonomia no trabalho que faço. Desenvolvi-o dentro de uma lógica minha, pois trabalho com sinceridade e dedicação. Desde a minha primeira individual, na Macunaíma, minha proposta obteve reconhecimento. Então vem aquela coisa de que tive sorte num momento certo, Inclusive quando, a partir de 1995, comecei a participar de exposições coletivas e individuais em várias partes do mundo, como Portugal, Áustria, Espanha, Nova Iorque, Londres, Tóquio, etc.
GEA: O que foi mais enriquecedor para você nesse convívio internacional?
F.G: O de perceber que a arte é tão internacional que a nacionalidade não faz o menor sentido e também que ela é intensa e livre. Acho ótimo quando trabalho em conjunto com outros artistas de diferentes gerações e de outros contextos. Quando se pensa em arte não há fronteiras. No Japão, por exemplo, artistas me indagavam se eu tinha antepassado japonês. Na verdade, mais eu me movo, mais mudo de perspectiva, uma vez que entre a natureza e a formação, vou também podendo me encontrar. Como artista e como pessoa.
GEA: Nosso conhecimento pessoal vem da Escola Superior de Desenho Industrial, do qual você é cria e que lhe deu régua e compasso. Alguma influência esdiana na sua proposta visual?
F.G: Mas não fui sua aluna de História da Arte e, sim, de Flávio de Aquino (risos). Pode ser...pode ser... Gostei de ter feito a ESDI. Muito.
GEA: Os atuais conceitos experimentais da arte ainda causam espanto ao público pouco habitual ao seu conceito?
F.G: Além da arte, muitas coisas ainda causam espanto no mundo contemporâneo. Está dentro da tradição e da arte dos nossos dias pensar numa outra beleza sem anacronismos, não no sentido convencional e, sim, para retomar a idéia de uma beleza mais espiritual. Não consigo entender como as pessoas podem viver sem arte.
GEA: Na sua obra o material empregado tem importância vital. Ele fala de transitoriedade ou de permanência?
F.G: Transitoriedade é muito relativo. Acho que ele deve criar uma presença na arte, ou seja, o material é importante, sim, e deve ser repensado. Esta minha nova exposição uso desde tinta de parede, tinta acrílica a ouro de 14 quilates. E não é matéria permanente não. Amanhã ela será refeita num outro espaço, numa situação que será repetida igual, mas nunca será a mesma. Numa sociedade consumista como a nossa, o que está em jogo são os materiais perdidos e os que certamente ficarão.
GEA: Qual outra linguagem da arte tem o seu interesse?
F.G: Gravura. Tenho um especial interesse pela gravura. Talvez porque tenha ela tenha sido a minha primeira compra de um objeto de arte. Vivia de mesada e mesmo assim adquiri uma gravura de Paulo Roberto Leal. Essa coisa me marcou demais.
GEA: No Brasil existe política cultural que atenda as necessidades das artes plásticas?
F.G: Já houve, sim. Hoje está tudo muito complicado. Infelizmente, política cultural entre nós não tem continuidade. Começam com muita garra e aos pouco vai se diluindo. Já participei de projetos lindos da Rio Arte, Funarte e outros mais que foram ótimos enquanto duraram, um dos quais me levou a diversas regiões longínquas do país, como Macapá, Teresina, onde pude desenvolver oficinas e outras trocas de informações sobre arte.
GEA: Que conselho Fernanda Gomes daria a uma jovem aspirante a artista plástica?
F.G: Que não tenha medo de se arriscar e siga adiante fiel a si mesmo ao pensar e fazer arte. Principalmente não ter medo de errar. Às vezes, há mais interesse num erro do que num acerto.
GEA: Nascida, criada e vivendo em Copacabana, como vê o bairro hoje?
F.G: Adoro meu bairro. Com uma ligeira permanência em Santa Teresa, jamais deixei Copacabana, onde nasci na antiga Maternidade Arnaldo de Moraes, numa travessinha charmosa da Tonelero. Hoje, moro na Rua Raimundo Correia. Para mim, Copacabana é uma espécie de síntese emblemática do planeta. Encontra-se de tudo aqui: milionários, três favelas, múltiplas religiões, hotéis de luxo, colônia de pescadores, com seus barcos ancorados ali no Posto Seis... Há uma saudável profusão de raças e credos. E há a praia, que me atrai e onde costumo passear no calçadão para apreciar seus contrastes. Copacabana tem melhorado muito o seu padrão, mas ainda precisa de muito mais. Mesmo assim, não moraria em outro lugar.
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