HAROLD EMERT
Um oboísta americano em Copacabana

Por Renata Moreira Lima
Renata Moreira Lima: Com o fim do carnaval, tem início o “calendário da música clássica?”.
Harold Emert: Sim, graças a Deus! Precisamos de música “clássica” depois de quase 10 semanas da musica hip-hop, rock, samba e barulho infernal! (risos). A temporada da Orquestra Sinfônica Brasileira - Petrobrás, da qual faço parte, Orquestra Sinfônica Nacional, o Rio Camerata e o Teatro Municipal vai começar. Na mesma época, temos Música no Museu, no Fórum, na (UFRJ-Urca), IBAM, Sala Cecília Meireles, IBEU (Copacabana), entre outros lugares. Minha pergunta sempre é e foi “Por que durante o verão não temos música ao ar livre com orquestra sinfônica, ópera e por que em Friburgo, Teresópolis e Petrópolis não temos festivais da música erudita? Estarão faltando músicos talentosos? Quando jovem sempre assisti aos concertos de verão ao ar livre da Filarmônica de Nova Iorque. Por que não temos aqui?
R.M.L: Você é norte americano. Começou a tocar aos nove anos. Aos 13 já era compositor. Entre tantos lugares onde estudou, tocou e lecionou, como nos Estados Unidos, Holanda, Israel... Por que acabou optando pelo Brasil, um país sem muita tradição erudita? Conte essa história.
H.E: Sem tradição musical? Com compositores nativos como Villa Lobos, Carlos Gomes, Ary Barroso, Noel Rosa, Pixinguinha, Francisco Mignone, entre outros e pianistas como Guiomar Novaes, Nelson Freire, Jacques Klein, a soprano Bidu Sayão (Metropolitan opera), o Brasil tem muita tradição musical! Vivendo entre nós em Copacabana, os compositores Mignone, Siqueira, Gnatalli e hoje em dia o Maestro-Compositor Alceu Bocchino e Cesar Guerra Peixe.
Em 1970 saí da minha cidade nativa, Nova Iorque, e fui para Johannesburg para uma “experiência” na orquestra da rádio. Depois fui para Israel, toquei na Israel Philarmonic, regida por Zubin Mehta. Estudei e toquei na Orquestra da Radio Saarbrucken, na Alemanha... Um dia li uma nota - sempre uma nota pode mudar nosso destino (risos) - no jornal dos músicos alemães, anunciando que Isaac Karabtchevsky estaria em Genebra – Suíça, selecionando um primeiro oboísta para a OSB. Passei na prova e Isaac me disse “Até março no Rio de Janeiro!”. Cheguei no Rio um pouco depois da morte de Pixinginha em 1973. Passei pela imigração com uma radiografia de meu pulmão, meu oboé embaixo do braço e permissão para ser um estrangeiro permanente com o direito a trabalhar no país. Em 1977 casei com a psicológa-dançarina-professora de dança do ventre e artista plástica de Copacabana Ana Maria Miranda Bassoul Emert, e nunca mais voltei para o Big Apple (Nova Iorque).
R.M.L: Hoje você é o primeiro oboísta da Orquestra Sinfônica Nacional. Quando haverá apresentação da OSN?
H.E: Nossa temporada vai começar em Março em Niterói. Minha sugestão para um ótimo programa de domingo é pegar a barca na Praça XV, ir para o concerto às 10h da manhã, assistir a orquestra com grandes talentos da música clássica. Depois pode ir a um restaurante com o melhor peixe do Brasil e voltar para Copacabana.
R.M.L: Além da OSB e OSN, você gravou alguns cds. Quantos? Irá lançar novos trabalhos?
H.E: Vou me apresentar na Radio Mec FM (98.8), programa “Sala dos concertos”, dia 12 de março às 17h. O tema será a música de Alec Wilder, compositor americano. Outros músicos irão participar, como a pianista Fernanda Canaud, o percussionista Sérgio Naidin e Walter Jr na clarineta. Gravei vários CDs com a OSB, OSN, com Milton Nascimento, Olívia Hime, Maria Lucia Godoy (soprano), Ed Motta, Lenine, dois filmes brasileiros: Duas Vezes com Helena (com composições minhas) e um documentário sobre Amyr Klink com Kassim-Berta (grande talento). Gravei sozinho seis CDs, incluindo Um Recital Brasileiro com Irany Leme, pianista, All Aboard com minhas composições e recentemente Música Colonial do Brasil, com Carmen Beatriz Bartoly, soprano e Claudio Vettori, baseado na minha pesquisa e arranjos desta época fantástica do Brasil. Poucos brasileiros sabem sobre a grande tradição da música aqui no país!
Meu sonho neste ano é o de além de organizar o segundo Festival de Oboé e Fagote com Flauta dos Museus, fazer arranjos da música de Noel Rosa para um CD. Já tenho arranjos com cello, oboé, flauta, violino, fagote e voz. O título será Noel Rosa Erudito. Você tem leitores produtores? (risos), Quem se habilita?
R.M.L: Além de Oboísta você ainda trabalha como correspondente internacional? Escreve sobre música?
H.E: Nem pensar! (risos). Infelizmente escrever sobre música não paga uma vida como músico. Não paga os IPTUS, IPVAS, condominios, dentistas, psicólogas, etc! (risos).
Comecei escrevendo sobre música-cultura-dança para o Brazil Herald e os tablóides da Inglaterra me descobriram pedindo reportagens sobre Ronald Biggs, o ex-ladrão inglês que morava em Santa Teresa. Passei tanto tempo com ele nas festas anuais, que escrevi uma ópera cômica chamada Crime Não Compensa.
Os anos passaram e Mr. Biggs foi embora (para a cadeia da Inglaterra).Um jornalista inglês me disse na época “There goes your meal ticket” (Sua fonte da renda esta indo embora). Depois dele apareceram o caso Jean Charles Menezes, o pai da Primeira Dama da França morando em São Paulo, e mais as namoradas e namorados brasileiras (os) dos ingleses como Luciana Gimenez (Mick Jagger) até Jesus Luz, “toyboy” de Madonna... Falando nele, é de enlouquecer alguém que estudou música toda sua vida 4 a 5 horas por dia ver os cachês do rapaz como DJ. Ao mesmo tempo li que o empresário Eike Baptista se recusou a doar dinheiro para o Academia Brasileira das Letras! Que mundo louco!
R.M.L.: Qual a sua visão sobre o cenário da música clássica brasileira? Trace um paralelo entre quando chegou ao país e os dias de hoje. Acredita que houve evolução através de estímulos governamentais ou privados?
H.E: Acho que os jovens estão mais preparados e talentosos que quando cheguei em 1973. Tudo mundo hoje pode consultar google, youtube e fazer downloads de gravações e partituras. Tem MP3, MP4, etc. Quando cheguei no Rio não tínhamos nada além do ar condicionado nas salas do concertos e afinadores. Mas, apesar destes grandes talentos hoje, precisamos lembrar que antes o Rio e o Brasil tinham grandes músicos como Oscar Lafer, violinista e da minha época da OSB, Noel Devos, fagote(francês), José Botelho, clarineta (luso-brasileiro). Quanta gente pode dizer que seu vizinho é o flautista Altamiro Carrilho, morador da Copacabana?
Hoje tem mais intercâmbio, contato com o mundo... Só falta... dinheiro! (Risos)
R.M.L.: Quem são os novos valores da música clássica nacional e internacional?
H.E: Meu ex-aluno Alex Klein, de Curitiba, era primeiro oboísta da Orquestra de Chicago, Carlos Prazeres, maestro-oboísta (Petrobras), o violinista Daniel Guedes, Antonio Menezes (cello), e minha pianista favorita, Fernanda Canaud.
Li que o filho do meu colega, o violinista Erich Leningher (Spalla) será assistente do maestro da Boston Symphony Orchestra. Não faltam talentos aqui!
R.M.L.: Você vive entre Copacabana e Teresópolis. São seus lugares preferidos?
H.E: Depois de Nova Iorque, minha cidade natal, sim. Mas neste verão, o Rio pareceu o Congo! (risos). Depois disso, adoro Teresópolis, mais que nunca! Mas Copacabana tem uma ginga especial... Só falta ter menos barulho e mais segurança.
R.M.L.: O que gosta em Copacabana? O que faz aqui no bairro? Há algo que, se possível, gostaria que mudasse?
H.E: Comecei minha vida na Cidade Maravilhosa no Hotel Florida, na Glória. Quando vi Copacabana pela primeira vez foi “love at first sight” (amor na primeira vista), parecendo uma mistura de Manhattan e Miami. Sempre gostei de morar perto do mar, de movimento e possibilidades culturais, restaurantes, cinemas perto de mim. Com a idade mudei, para melhor ou pior, prefiro peace and quiet (paz e tranquilidade).
Adoro nadar no Clube Israelita Brasileiro (CIB) e tenho o melhor personal trainer: Marcelo Cruz , com uma paciência de santo! Preciso fazer esportes para estar em forma para tocar meu oboé e viajar todos as dias para Niterói, onde temos ensaios da OSN. Fora destas atividades estou sempre visitando minha cunhada Angela Bassoul e minhas sobrinhas Mariana Bassoul, grande atriz e Daniela .Gosto de paz e de ficar quieto e da vida social familiar brasileira.
R.M.L.: Você é apaixonado por música brasileira já tendo participado de várias gravações de sambas e chorinhos. O que tem despertado sua atenção atualmente?
H.E: Este ano estamos comemorando 200 anos do nascimento do compositopr alemão Robert Schumann e 100 anos de Noel Rosa. Estou organizando um concerto com os dois gênios e fazendo arranjos de Noel para voz, oboé, cello, piano, etc. Pretendo apresentar na Música no Museu e durante o Cello Festival do cellista inglês David Chew. Noel Rosa morreu com 26 anos de idade, e foi um gênio... Eu tinha uma visão provinciana do mundo da música. Cresci em Nova Iorque com a referência dos populares compositores americanos, como Gershwin, Irving Berlin e Cole Porter, O Brasil tem artistas em todas as artes, só que aqui não repercute tanto.
R.M.L.: Você acha que poderia acontecer um show de chorinho no Carnegie Hall de Nova Iorque nos mesmos moldes do Buena Vista Social Club?
H.E: Por que não? Não tinha a noite da Bossa Nova em Carnegie Hall?Anos atrás assisti na Broadway um grande musical baseado no tango.
R.M.L.: O que sugere para os novos alunos de música clássica?
H.E: Estudar uma profissão para poder pagar os melhores professores, comprar seu instrumento, gravações, viagens, conferências no exterior. Talento não é o bastante. Mas nunca desista e apesar de todo mundo estar indo para a praia ou festas, estude, pratique, practice if you wish to get to Carnegie Hall. Mas realmente sem um bom instrumento estará limitado.
R.M.L.: Deixe seu recado aos leitores do Jornal Copacabana.
H.E: Amo Copacabana mas preciso sair, às vezes, por um mês ou mais para, na volta, apreciar os valores de nosso bairro. E não precisa ser para o exterior... A 90 minutos de Copacabana está minha querida Teresópolis, mais conhecida como Erezópolis (Terra Prometida)!
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