Lady Francisco

Por Renata Moreira Lima
Ela está de volta! Lady Francisco estreou em novembro na peça 3 Mulheres 1 Destino, no teatro Posto 6, em Copacabana, dois anos depois de atuar como a personagem Cruela Cruel em Os Dálmatas – O Musical.
Com 50 anos de carreira, Lady Francisco destaca a dificuldade enfrentada por atores da Terceira Idade, e alerta para a falta de emprego para muitos dos pioneiros, como ela, da televisão brasileira.
Além da preocupação com a classe dos atores, é protetora dos animais, ativista política e estuda a possibilidade de se candidatar nas próximas eleições.
Lady Francisco recebeu o Jornal Copacabana no apartamento dela em Laranjeiras para falar da nova fase.
Jornal Copacabana: Seu personagem mais recente foi Odete, na novela Duas Caras, em 2007.
Lady Francisco: Fiz participação com a Marília Pêra, adorei! Tudo que eu faço é com amor, com tesão! Acaba ficando bom!
Depois disso, comecei a levar minha vida de “normal”. Sou protetora dos animais, pego na rua para tratar... Adoro academia, se deixar fico três/quatro horas...
Enviava e-mails para autores dizendo: estou aqui! Mas há uma tendência, hoje, de só quererem atrizes novas, a Terceira Idade está sendo deixada de lado! Escalam moças de 30 anos para papéis com filhas de 20, por exemplo! Enquanto as atrizes experientes são deixadas de lado! Antigamente tinha que dar oportunidade para os jovens, hoje é o contrário! Acho isso injusto, cruel e que os pioneiros da televisão e teatro, como eu, deveriam ser valorizados. Comecei na televisão em fase experimental! A profissão hoje está ingrata. Você ganha prêmios, ajuda a televisão a crescer e depois toma um “pé na bunda”!
Mas pode ter certeza de que se eu tiver nova oportunidade na televisão, vou agarrar com unhas e dentes!
Sempre fui ativista política, dois partidos me convidaram para ser candidata nas próximas eleições. Acho que dessa vez pode ser que eu aceite. Fiz, recentemente, a campanha “Fora Sarney”. Independente disso, já estou correndo atrás para que seja realizada a Olimpíada Gay, trazendo a chamada minoria – que deixou de ser há muito tempo – para o convívio com a sociedade. Sou a madrinha e o Jô Soares é o padrinho da campanha. Quero fazer um asilo especial para os gays, pois muitos deles chegam à velhice sem condições financeiras e ficam sem ter o que fazer diante disso.
J.C.: Então recebeu o convite para participar da peça 3 Mulheres, 1 Destino?
L.F.: O diretor, Fabrísio Coelho me convidou para fazer um dos personagens. Fiquei um pouco relutante em aceitar porque na minha vida toda fiz prostitutas no teatro, apenas uma vez eu fiz outro personagem. Mas aceitei porque é sempre um bom papel, gosto de fazer humor, a peça é engraçada... Aceitei! Estou super empolgada! O teatro vai ficar pequeno para o sucesso que vai ser! (risos).

J.C.: Com a peça você, que é moradora de Laranjeiras, vai freqüentar o bairro. Costuma ir à Copacabana?
L.F.: Morei lá muitos anos. Quando vim para o Rio, fiquei em um quarto de empregada na Rua Miguel Lemos. De um para outro, fui parar na Xavier da Silveira, em um apartamento onde fui muito feliz! Depois de passar fome e morar 15 dias na rua, fui empregada e comprei um apartamento na Barata Ribeiro, em frente à Rua Inhangá. Foi a melhor época da minha vida! Viajei o mundo com dois grandes papéis, maravilhosos, na televisão: Gisela de Louco Amor, com José Lewgoy, um grande parceiro e ator e a Liana em Transas e Caretas. Orando lá eu tive meu último amor! Outro dia pensei em voltar para lá para ver se a boa fase voltava! (risos). Hoje moro em Laranjeiras, só vou a Copa para o meu médico homeopata e para visitar amigos. E sempre recebo o carinho da população.
J.C.: Nasceu e começou a carreira cantando em Minas.
L.F.: Aos nove anos eu cantava na rádio. Meu pai era patrocinador e eu vivia lá!
Mas quando eu quis ser artista, meu pai não gostou nem um pouco! Minha família era tradicional, artista era mal visto na época. Atuei durante muito tempo sem ele saber.
Por isso o começo foi difícil! Acostumada com conforto, “bilhardária”, não tive apoio para vir fazer minha carreira.
J.C.: E você sabia que era artista desde pequena!
L.F.: Eu sempre participava das peças no colégio, gostava de me apresentar. Acho que o grande ator começa assim, na infância, no colégio, fazendo teatro de rua, participando... Na minha época não tinha esse negócio de escola. Hoje em dia tem umas 500 escolas de teatro, todo mundo quer ser ator!
J.C.: Você fez filmes no cinema na época da Chanchada e Pornochanchada. Gostaria de voltar à telona?
L.F.: Na minha época se fazia filmes baratos e bem realizados, tanto na Chanchada quanto na pornochanchada, eram grandes sucessos de bilheteria. Hoje tem outro perfil. A tecnologia evoluiu, mas existe um monopólio onde meia dúzia de artistas se reveza entre os filmes. Estou torcendo para conseguir o tão esperado Oscar, e que me convidem para fazer parte desse sucesso! Cinema eterniza o artista!
J.C.: Atuou em Alma Gêmea, Marcas da Paixão, Por Amor, Barriga de Aluguel e tantas outras novelas. Tem um personagem que tenha deixado saudade?
L.F.: Adorei fazer a Iara, de Barriga de Aluguel, Gisela foi um amor também. Gostei muito de fazer a Regina em O Pulo do Gato!
J.C.: Existe um personagem que ainda não tenha feito e que gostaria?
L.F.: Uma vilã daquelas bem cruéis! Adoraria! Só fiz vilã no teatro infantil, onde eu era a Cruela Cruel em Os Dálmatas – O Musical.
Tenho 50 anos de carreira, mas não tive a grande chance na televisão!
Por incrível que pareça, os autores e diretores ainda não descobriram do que sou capaz!
Falo porque a idade nos dá a oportunidade de ser mais autêntica do que na juventude! Hoje me permito não ter papas na língua, isso é um presente!
J.C.: Quem é Lady Francisco hoje?
L.F.: Autêntica, cheia de personalidade, carinhosa, justa, honesta, polêmica, protetora dos animais e dos chamados excluídos, mais ativista do que nunca e ótima atriz! E, claro, sonhando, ainda!
J.C.: Aos leitores do Copacabana:
L.F.: Se quiserem me conhecer mais de perto, vão ao teatro do Posto 6, além de atuar, vou falar algumas palavrinhas com vocês depois da peça, respondendo perguntas. Não deixem de prestigiar o artista, ele depende do aplauso de vocês. Olhem para os bichos abandonados pelas ruas do bairro, cuidem deles. E se eu for candidata e eleita, me ajudem a fazer o meu mandato.
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