Roberto Bomtempo

Por Liana Azeredo
No ano em que completa 25 anos de carreira o ator, professor e diretor Roberto Bomtempo traz uma extensa bagagem e um currículo admirável. Bomtempo nasceu no Rio de Janeiro, em 27 de maio de 1963 e na infância morou no bairro de Copacabana. Apesar da vida agitada, o ator estréia ao lado de sua esposa Miriam Freeland, no Sesc Copacabana a peça Espia Uma Mulher Que Se Mata. Na entrevista Roberto Bomtempo fala sobre sua experiência no teatro, televisão e cinema, seus projetos, sua ligação com Copacabana além de ressaltar pontos positivos e negativos do bairro.
Jornal Copacabana: Fale um pouco sobre sua trajetória:
Roberto Bomtempo: Minha carreira começou em 1984 quando eu fui trabalhar como contra regra de teatro. Não era o que eu pensava, mas até então eu não tinha pensado em exercer a profissão como ator, muito menos como diretor e nem professor. Assim que entrei no teatro me apaixonei e de lá pra cá não parei nunca mais. A televisão foi uma conseqüência do teatro. Era algo que estava ali, algumas coisas eu tinha vontade de conhecer, outras não me interessavam muito. O cinema foi a mesma coisa que o teatro, ele também exerceu em mim uma grande paixão.

J.C: Como está sendo 2009?
R.B: É um ano bem especial. Estou comemorando 25 anos de carreira e 10 anos da peça sobre a vida do Raul Seixas. Em novembro vou dirigir o meu segundo longa metragem Mão Na Luva. Somado a isso vou estrear dia 9 de abril no Sesc Copacabana a peça Espia Uma Mulher Que Se Mata, que eu estou produzindo com a Miriam Freeland, minha mulher. Está sendo um ano bastante feliz.
J.C: E no momento?
R.B: O momento pra variar está muito agitado. Sempre tive essa mania de fazer "3,4 coisas ao mesmo tempo", nunca fiz uma só. Hoje já tenho certo cansaço que não é igual como há dez anos.
Estou na Record há quatro anos. Primeiro fiz alguns trabalhos como ator e estou a três anos dirigindo novela. No momento dirijo a novela Chamas da vida, que termina mês que vem. Quando acabar vou tomar outros rumos na Record, ainda não está nada decidido, mas não vou dirigir, até para descansar porque novela é muito puxado e emendei uma atrás da outra.
J.C: Defina teatro, cinema e televisão na sua vida:
R.B: Teatro é minha escola, minha casa nesses 25 anos. Não passei nenhum ano sem fazer, seja no palco como ator, diretor ou dando aula. Nunca saí do teatro e vivo um conflito muito grande hoje dirigindo novela na televisão. Na TV dá para se fazer trabalhos mais aprofundados do que em novela.
Sinto muito pela grande procura da televisão. Muitas pessoas vão bater na porta para fazer um teste e mostrar seus trabalhos preocupados com simplesmente uma fama, um sucesso, com o dinheiro que vão ganhar e não com a formação. É o teatro que dá a formação do ator. Hoje, todo mundo é ator e atriz e isso é muito ruim, vulgarizou a profissão de uma forma que é engraçada porque antigamente, na década de 30, os homens eram fichados na polícia e as mulheres consideradas prostitutas. Meus companheiros brigaram muito por isso nas décadas de 30, 40, 50, 60,70 e de 1990 pra cá, ou seja, quase 20 anos, a profissão ganhou uma vulgarização por parte de quem faz, principalmente nesse marcado da televisão. A TV é uma vitrine nacional e mundial. Precisa olhar mais para o teatro porque desperdiça uma quantidade enorme de talentos que não chegam, em troca de outras pessoas que a gente sabe que tem vida curta na profissão.
Algumas vezes fui feliz na televisão, ela é sim um mercado de trabalho, um lugar onde você consegue viver a profissão com uma dignidade no sentido financeiro, poder ter uma família, criar filhos, ter uma vida. Ela é muito mais uma fonte de renda do que uma realização pessoal, artística para mim.
O cinema é uma paixão profunda de criança, mais do que o teatro! Na minha infância eu ia muito mais ao cinema. Amo fazer cinema. Fiz 29 filmes como ator e agora vou dirigir meu segundo longa metragem, então ele está sempre próximo de mim. No teatro você junta dois amigos, uma mesa e duas cadeiras e faz uma peça e no cinema não é assim, um filme é mais difícil de ser feito, precisa de mais recursos.
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Foto da peça Espia uma Mulher que se Mata |
J.C: Como surgiu a idéia de produzir a peça Espia Uma Mulher Que Se Mata?
R.B: A peça é uma recriação do autor argentino Daniel Veronese ao Tio Vânia do Tchecov. Nós estivemos em Buenos Aires assistindo há várias peças e quando vimos essa ficamos encantados. Ela é muito simples na sua cenografia e na concepção de direção. É um espetáculo de luz branca do início ao fim, o único movimento é quando termina a peça e apaga a luz. Não tem nada, é o ator e o texto. É muito impactante. Em Buenos Aires ela é um grande sucesso há dois anos.
J.C: Do que trata o texto?
R.B: Das relações humanas, acima de tudo, das relações familiares. É uma família ali com seus genros, madrinhas e outros agregados que convivem a longo prazo numa casa de fazenda próxima de São Petersburgo, na Rússia. Mas na verdade essa fazenda poderia ser aqui, em Duque de Caxias, no interior de Minas, na Tijuca, Barra. O interessante, o que causa uma identificação profunda de quem assiste, e a gente pode ver isso com as pessoas que convidamos para os ensaios, é exatamente essa exposição dos sentimentos humanos e dessa relação intrafamiliar. As mazelas, as coisas bonitas e feias, fáceis e difíceis, tudo de sincero e mentiroso que uma família de longa vida passa.
J.C Conte um pouco sobre a trama?
R.B: Eu faço o Vânia que na versão de Tchecov é o Tio Vânia, o titulo do livro. Ele é o homem da casa, um cara solteiro de 40 poucos anos de idade, criado ali. Viveu para cuidar da fazenda e da irmã mais nova que morreu. Essa irmã era casada e mesmo com sua morte eles continuaram mandando a parte financeira que a fazenda lucrava para seu marido, um intelectual, teórico de teatro, professor literário da cidade grande de São Petersburgo. Só que esse professor, na verdade, é um farsante. Ele se utiliza do tipo de relação que se tinha na época, onde as mulheres para casar tinham que ter um dote.
Num determinado momento o ex- marido da irmã vai pra fazenda porque está muito "ferrado" na cidade, não tem mais prestígio. A vinda dele gera uma crise "danada" dentro dessa casa. Por conta disso vêm à tona essas discussões familiares até que no auge da peça se cria um grande conflito entre o Vânia e esse professor.
Vânia é um homem que passou a vida abafando e engolindo seus desejos, sonhos, suas possibilidades de vida, pra viver pros outros. E aos 47 anos ele vê que o que fez não foi reconhecido, valorizado e que a vida dele estava perdida. Naquela época um homem de 47 anos que não casou e não teve uma profissão era considerado velho. Então ele passa por uma grande revolta, uma tentativa de transformação através do grande sofrimento. E com essa explosão desse personagem a família também vai abaixo, à ruína.
J.C: A peça irá estrear no Sesc de Copacabana. Dá pra fazer alguma associação do texto com o bairro?
R.B: A família é uma forma que se optou em viver na sociedade. Nem sempre é tão feliz, ela passa por vários sentimentos, emoções que se completam e se contradizem ao mesmo tempo. O vínculo que posso fazer e acho muito interessante é que Copacabana é um dos bairros mais antigos da zona sul do Rio de Janeiro e muito familiar, apesar de ser heterogêneo. Muitas famílias moram, gerações e gerações se criaram e se perpetuam em Copacabana. Se eu pudesse falar para o morador, seria nesse sentindo de ir assistir a peça, pois ele irá se identificar com muitas questões da sua vida ou de pessoas muito próximas.
J.C: Qual sua relação com o bairro de Copacabana?
R.B:Eu moro na Barra há 12 anos, mas morei uma parte longa da minha infância em Copacabana, em muitos lugares: Barata Ribeiro, Figueiredo Magalhães, Bolívar, no Leme e adolescente, ainda na época de colégio, morei em cima do Roxy. Foi uma época que eu convivi muito em Copacabana.
J.C: Quais são os pontos positivos do bairro?
R.B: O que Copacabana tem de positivo é essa grandiosidade, tudo que você precisa, teoricamente, tem. É um bairro que o mundo inteiro vai a ele. Se quiser ter relação com pessoas do país inteiro, do mundo, em Copacabana você consegue, por causa da quantidade enorme de turistas brasileiros e estrangeiros. Copacabana tem essa coisa de juntar pessoas, raças e crenças querendo ou não. Ainda é um centro do Rio de Janeiro e o bairro mais famoso do Brasil, essa referência é muito forte.
J.C: E os pontos negativos?
R.B:Particularmente sinto porque Copacabana perdeu seus teatros. Hoje, se não estou enganado, só tem a sala Baden Powell, o Vila Lobos e o Sesc. O cinema de rua também acabou. O Roxy foi o único dos antigos cinemas que se manteve. Lembro quando era garoto do Rian, Caruso no Posto 6, Art Copacabana, o próprio cinema Copacabana, Jóia, Palace, Condor eram muitos cinemas. De uma forma geral tem poucos cinemas para o tamanho do bairro. Falta um movimento cultural. Nesse ponto o Sesc é muito importante porque ele consegue manter o movimento do teatro que não é o comercial, não é o teatro dos globais, nem de shopping Center. É um teatro de gente que esta ali estudando, exercitando, criando novas linguagens, pesquisando. Fundamental o Sesc ser em Copacabana.
J.C: De um recado para os leitores do jornal:
R B:. Os moradores deveriam se preocupar com que Copacabana pudesse voltar a ser um lugar importante para a cultura do Rio de Janeiro e conseqüentemente do país. Outro dia vi um depoimento da Jandira Fegali, secretária de cultura do Rio de Janeiro, que está passando por um momento complicado com a classe teatral, dizendo que gostaria de reabrir o teatro Brigite Blair que anda "mal das pernas" há muitos anos. O morador poderia voltar a lutar por um novo caminho em direção a ter um movimento cultural mais forte no bairro.
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