O CENTENÁRIO
DA REVOLTA DA CHIBATA 1910 - 2010

Foto: Augusto Malta
No ano de 1910, o Brasil possuía a maior força naval da América Latina. Nossa Esquadra de Guerra era composta de dois super couraçados de 19.900 t, os maiores do Mundo à época: São Paulo e Minas Gerais; fora três outros de modelo mais antigo: Deodoro, Floriano e Riachuelo. Dois cruzadores modernos de 1.200t: Bahia e Rio Grande do Sul; e seis mais antigos: Primeiro de Março, Tiradentes, Benjamin Constant (Cruzador Escola), Tupy, Timbiras e Tamoyo. Nove contratorpedeiros modernos de 560t e um antigo: Gustavo Sampaio. Enfim, a frota de ataque totalizava cerca de vinte e seis unidades, fora os barcos de patrulha e navios auxiliares. A Argentina, temendo o poderio militar do Brasil, tentou evitar que comprássemos mais um Couraçado, o Rio de Janeiro, que acabou vendido à Turquia, mas foi encampado pelos próprios ingleses quando estourou a 1º Guerra Mundial em agosto de 1914.
Entretanto, uma coisa ainda vigorava dos tempos coloniais: o tratamento dispensado aos marinheiros. Trabalho estafante e excessivo, vencimento pequeno e, o mais degradante, punições severíssimas para qualquer desvio de conduta, incluindo castigos de chibata, à maneira dos tempos da escravidão.
No couraçado Minas Gerais existia mesmo um carrasco, o Alípio, que colocava agulhas dentro do chicote e deliciava-se com os gritos dos padecentes.
A marujada começou a organizar um levante, marcado para o dia da posse do Presidente Hermes da Fonseca a 15 de novembro, mas uma licença coletiva concedida a muitos marinheiros adiou a sedição por alguns dias. A punição por chibatadas de um marinheiro na tarde do dia 21, entretanto, fez com que o levante fosse antecipado para a noite no dia seguinte.
Pouco depois das 22h do dia 22 rebentou na baía do Rio de Janeiro, no Couraçado Minas Gerais, a Revolta da Chibata, chefiada pelo marinheiro negro João Cândido (foto abaixo), tendo como co-líder o marinheiro de primeira classe Francisco Dias Martins, este no Cruzador Bahia.
Iniciado o motim no Minas, reagiram vários oficiais tentando deter a marujada, sendo ferido o Segundo Tenente Álvaro Alberto da Mota e Silva e mortos o Comandante Batista das Neves, Capitães Tenentes José Cláudio da Silva Júnior e Mário Carlos Lahmeyer. Alguns marujos também foram mortos e outros feridos.
No São Paulo, os marinheiros intimaram os oficiais a se retirar do navio. Recusou-se a isso o Primeiro Tenente Américo Sales de Carvalho, que reagiu e foi ferido à bala, falecendo no dia seguinte.
No Couraçado Deodoro não houve problemas, tendo os oficiais se retirado do barco ante a intimação dos marinheiros.
No Cruzador Bahia, o Primeiro Tenente Mário Alves de Souza recusou-se a abandonar o barco e foi morto pelos amotinados.
Outros navios aderiram depois, alguns ficaram neutros e os destróieres e lanchas ficaram, pelo menos nominalmente, do lado do Governo.
Os marinheiros enviaram um telegrama ao Ministro da Marinha, Almirante Marques de Leão, e depois duas mensagens semelhantes ao povo e ao Chefe da Nação. Nelas, os revoltosos reivindicavam a abolição dos castigos corporais, uma melhor escala de trabalho e aumento dos vencimentos, além de uma anistia geral, sob ameaça de bombardeio da cidade, caso não fossem atendidos.
O Governo ficou de início sem saber o que fazer e que determinações tomar, bastando dizer que sequer providenciaram serviço religioso e funerário para os mortos. Alguns deputados ficaram do lado governista e outros dos revoltosos, aumentando a confusão na Câmara. No Senado não foi diferente, havendo muitos que concordavam com as reivindicações dos amotinados, mas não com a violência praticada, como no caso do Senador Rui Barbosa.
Enquanto isso, no dia 23, a esquadra fazia evoluções perfeitas na baía de Guanabara, realizando manobras corretas lideradas apenas por João Cândido, sem nenhum oficial a bordo. Vez por outra os navios disparavam contra a Ilha das Cobras e outras fortalezas, bem como contra Niterói e o morro do Castelo, no Rio.
O Governo tentou montar uma reação com os poucos navios fiéis, mas João Cândido foi informado do intento por um aviso de rádio de um dos contratorpedeiros, cuja parte da tripulação pensava em aderir à revolta. Imediatamente ele ordenou que os navios saíssem barra afora, o que foi feito com precisão matemática na noite do dia 23. Nos dias seguintes a esquadra ora bordejava a praia de Copacabana, ora entrava na baía, em formação perfeita, sem sofrer ataque algum por parte das fortalezas.
O povo assistia em peso o espetáculo das avenidas Beira Mar e Atlântica, e muitos até aplaudiam quando algum dos navios disparava contra posições governistas. Outros, mais temerosos, pegavam trens para fora da cidade.
Nesse meio tempo, o Congresso Nacional votou um decreto atendendo às reivindicações dos marinheiros revoltosos e concedendo-lhes anistia. Esse decreto foi sancionado pelo Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, na tarde do dia 25. Dois dias antes, o Congresso mantivera contacto com os revoltosos por intermédio do Deputado federal pelo Rio Grande do Sul, Comandante José Carlos de Carvalho, que ficou bem impressionado com os marinheiros e chegou a elogiar alguns de seus procedimentos.
Terminada a revolta, os navios se entregaram sem resistência.
A traição do Governo veio dias depois.
Na noite de 9 de dezembro ocorreu nova revolta, desta vez no Batalhão Naval na Ilha das Cobras e no Cruzador Rio Grande do Sul.
O Governo agiu com rapidez, sufocando no mesmo dia a revolta no Cruzador Bahia e dominando a Ilha das Cobras no dia 10. Os revoltosos foram presos e, claro, o Governo aproveitou a “deixa” para mandar prender os líderes da revolta de 22 de novembro que tinham sido anistiados pelo decreto do dia 25.
João Cândido e outros líderes foram colocados num buraco imundo na Ilha das Cobras, onde os prisioneiros morreram por sufocação, à exceção do próprio João Cândido e outro marinheiro. Outros marinheiros foram deportados para a Amazônia no navio Satélite, sendo os líderes da rebelião executados a bordo por qualquer motivo e seus corpos jogados ao mar, pois o capitão possuía “carta de prego” para assim proceder.
Terminava assim miseravelmente a Revolta da Chibata, mas nascia o mito do Almirante Negro que lutou pela dignidade dos marinheiros do Brasil, hoje figura bastante reverenciada, principalmente pelas comunidades afro-descendentes.
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