Roberto Burle Marx, o “Senhor dos Jardins”

No centenário de seu nascimento e também quinze anos após sua morte, já se torna possível fazer uma releitura da obra do paisagista Roberto Burle Marx.
Roberto Burle-Marx nasceu a 4 de agosto de 1909 na cidade de São Paulo, em meio à numerosa e abastada família. O pai, o comerciante William Marx, era neto do filósofo Karl Marx. A mãe, D. Cecília Burle, era uma pernambucana de ascendência francesa. Alguns anos depois, em 1913 a família mudou-se para o Rio de Janeiro, indo residir no bairro do Leme. De início, o jovem Roberto participava de todas as festas do bairro exercitando sua maviosa voz e todos ali previam um cantor de talento. Em 1923, Roberto é mandado à Alemanha para fazer uma operação de miopia e estudar canto no Conservatório de Berlim. Pouco antes de retornar em 1929, e já com o diploma de cantor, ele visitou o Jardim Zoobotânico de Dahlen, onde se encantou pelas plantas ali exibidas. Para espanto seu, descobriu depois que eram todas do Brasil. Roberto então passou a estudá-las, e lá mesmo adquiriu toda a literatura existente.
De volta ao Brasil, matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes, onde se formou como pintor em 1930, seguindo a estética da moderna arte expressionista alemã. Na própria escola, firmara sólida amizade com o diretor, o arquiteto Lúcio Costa, com os colegas Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e outros nomes notáveis que nos anos seguintes revolucionariam as artes no Brasil introduzindo entre nós a Arquitetura Moderna.
Em 1932, Burle-Marx recebe um convite inusitado de Lúcio Costa para fazer um jardim com plantas do Brasil na casa que estava construindo para o alemão Alfred Scwartz na praia de Copacabana. O proprietário assim o exigira e Lúcio viu-se num dilema, pois todos os jardineiros brasileiros somente lidavam com plantas européias, nada sabendo da flora brasileira. Lúcio lembrou-se então de seu aluno, o único que conhecia as espécies vegetais locais. O resultado agradou tanto que Roberto passou a ser convidado a fazer outros jardins, revolucionando o paisagismo ao adotar traçados abstratos e planos definidos pela vegetação, tal como fazia com as tintas na pintura.
Contratado para remodelar os jardins de Recife, realizou várias obras pelo Nordeste até 1937, quando passou a fazer os jardins de todos os prédios modernos no Rio de Janeiro. Seu trabalho no jardim do moderno Ministério da Educação, Cultura e Saúde Pública, no Castelo, Centro; inaugurado em 1943, projetou-o internacionalmente, passando a receber convites para trabalhar por todo o Brasil e Europa.
Em 1961, no auge da fama, foi contratado pelo Governo do Estado da Guanabara para fazer o maior jardim urbano do Mundo, o do Aterro do Flamengo, com um milhão e duzentos mil metros quadrados de área, sendo mais de novecentos mil metros de jardins. Foi entregue aos cariocas em 1965 e ainda é das mais importantes áreas de lazer da Zona Sul. Em 1969, viria a ser novamente contratado pelo Governo da Guanabara para refazer o calçadão da Avenida Atlântica, o maior piso de mosaicos do mundo. Na orla, Burle Marx manteve o traçado tradicional de ondas que vinha do início do século, mas nos dois calçadões interiores, adotou um desenho moderno, abstrato, em mosaico de pedras portuguesas e árvores, apropriado para ser visto pelos aviões que chegavam ao Rio. Em 1969 Roberto Burle Marx mudou-se para o sítio Santo Antônio da Bica, em Guaratiba, com 360 mil metros quadrados de área verde, adquirido por ele vinte anos antes, e onde passou a residir e trabalhar.
Além das artes citadas, Burle Marx foi mosaicista, tapeceiro, escultor e ceramista de talento; e nos últimos anos estava projetando peças em cristal para a fábrica de Murano, na Itália.
Foi neste sítio, onde depois de prolongada enfermidade, Roberto veio a falecer a 4 de junho de 1994, prestes a completar 85 anos e já considerado há tempos pelos especialistas de todo o mundo como o maior paisagista do século XX.
|