Poesia,
numa hora dessas?

Amigo meu, de infância, entrou na adolescência pela porta que se abre para a maioria dos meninos de classe média baixa: a dos fundos. Trabalhando para ajudar os pais, comprar um par de sapatos novos por ano e uma entrada de cinema por mês, contando trocados para um cigarro ou uma cervejinha, visitas fortuitas ao baixo meretrício, uma falta absoluta de quase tudo. Sobrando, só as espinhas na cara.
Meu amigo gostava de ler, dos textos moralistas que a professora adorava à pouquíssima literatura dos livros didáticos, futucando estantes de amigos, fazendo carteirinhas em bibliotecas públicas. Jovem, já sabia quem era Machado, Graciliano, Lima Barreto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, essa cambada. De repente conheceu Drummond, Bandeira, João Cabral, caiu nos braços da poesia e nunca mais teve paz.
Como todo mundo que lê muita poesia e se apaixona por poesia, o meu amigo sentiu profunda vontade de também praticá-la, e começou a perpetrar uns versos. Por não conhecer o título que mestre Veríssimo deu à sua série de humor poético – “Poesia numa hora dessas?” – levou o ofício a sério, e em menos de um mês tinha um caderno repleto de odes, sonetos, redondilhas e desabafos. Alguns até com alguma qualidade.
Um dia, à hora do jantar, com o caderninho em punho, resolveu soltar a verve do vate em família. Diante do pai e da mãe, iniciou e teve que engolir o seguinte diálogo:
– Pai, posso lhe mostrar um poema que eu fiz?
– Poema? Que porra é essa?!
– Uma poesia. Um texto em versos.
E o pai, tolerante, mastigando o palito de fósforos que usava para limpar os dentes:
– Pode.
Meu amigo poeta se esmerou. Escolheu o mais bonito, que tinha um ritmo mais musical, e leu caprichando na impostação de voz. Ao terminar a leitura, respirou o fundo e se preparou para ouvir os comentários.
O pai nem olhou para ele. Mas olhou fixo para a mãe dele e foi definitivo:
– A culpa é sua, que mimou demais.
|