"Gostaria de pedir encarecidamente as autoridades do
bairro de Copacabana que fosse até a Rua Belfort Roxo,
esquina com Av Atlântica, onde uma senhora (moradora de
rua) fixou residência. Esta senhora possui uma criação
de gatos, cada vez maior, colocando em risco de doenças
as pessoas que freqüentam a praça do Lido, principalmente
as crianças. Lembro que esta senhora chegou ali há
alguns anos naquela calçada com um guarda-sol e hoje
ela tomou conta da calçada quase toda impedindo até
pedestres de transitar, sem contar com o mau cheiro insuportável
de gatos e suas fezes. Por favor, vejam que isso esta acontecendo
quase na esquina de uma das avenidas mais lindas do mundo, Onde
estão as autoridades de Copacabana? Porque não
transferem aquela senhora para um abrigo onde ela possa ter
mais condições de vida e os moradores, voltem
a freqüentar a Praça do Lido, porque ela tem que
viver com uma porção de gatos na esquina da Av
Atlântica."
Ana - por email.
Morre aos 102 anos Dercy Gonçalves
Entrevista em 10 de julho de 2008
Por Renata Moreira Lima
Em entrevista realizada no dia 10 de julho Dercy estava vigorosa e plena em sua vontade de viver. Em 19 do mesmo mês ela morreu, vítima de uma pneumonia, deixando nas páginas do Jornal Copacabana, suas últimas palavras.
Não se trata de uma figura qualquer, estamos falando de Dercy Gonçalves! Atriz versátil, cantora, humorista, irreverente, espontânea, talentosa e, como ela mesma diz: “com o cú pra lua!”. Dercy abriu as portas do apartamento em Copacabana para uma conversa sobre os 102 anos que completou no final de junho, a carreira, o DVD comemorativo dos 100 anos, a entrada no Guiness Book, a vida difícil em Madalena e, como não poderia faltar, o amor à Copacabana.
Quem não se lembra da Perereca da Vizinha ou Dercy Espetacular e até do histórico desfile na Marquês de Sapucaí em 1991, quando mostrou os seios na homenageada feita pela escola de samba Viradouro? Confira a entrevista.
Renata Moreira Lima (Jornal Copacabana): Elaborei algumas perguntas e roteirizei para a nossa entrevista, mas temo que não vá segui-lo, uma vez que é uma “expert” em improviso! Dercy Gonçalves: Realmente não sigo roteiros, gosto do improviso, mas você pode seguir o seu. Se eu não quiser responder alguma pergunta... eu pulo ela! (risos)
Renata: Há um erro no seu registro, seu pai o fez com atraso. Mas você nasceu em 1906 e completou, recentemente, 102 anos. Pensou em viver tanto tempo e fazer não só uma vida artística, mas tornar-se um exemplo social de longevidade? Qual é o segredo? Dercy: Nunca pensei que fosse viver tanto tempo! 102 anos é muita coisa, está bom demais! Sinto-me bem. Estou viva e cheia de saúde. Faço alongamento todos os dias, ando dentro de casa, faço massagem nos pés, como muita pimenta e tomo soro (água, sal e açúcar) diariamente. Não tenho, nem tive vícios. Nunca bebi, fumei ou usei drogas. Minha avó viveu até os 113 anos...
Outra coisa que contribuiu muito para a minha permanência foi a ajuda de Ademar Martins, o pai da minha filha. Ele se dedicou muito a mim quando tive câncer. Na verdade não sei como estou aqui até hoje! Quando era criança eu tive uma incandescência de sangue, eu evacuava sangue. Nessa época papai cuidava de mim. E fiquei boa.
Renata: Se considera um exemplo em um bairro que tem um alto índice ( %) de idosos? Dercy: Que idosos?! Copacabana é tudo! É o que há de mais lindo! Não só Copacabana, mas o Rio de Janeiro! Olha que eu conheço mais da metade do mundo! Tem que saber viver! Por causa da profissão tive que ver muita coisa que não sabia que existia. A Rede Globo sempre me mandava para lugares lindos, que nunca imaginei. Eu não tinha cultura, adquiri conhecimento. Copacabana é o mais lindo de todos! É abençoado!
Renata: Vamos falar um pouco da sua história. Fugiu de casa com uma Companhia que esteve em Madalena? Dercy: Venho de uma família humilde. Minha avó era negra, africana. Papai era alfaiate. Meu avô, português de Coimbra, coveiro. Ele plantava e criava porcos, galinhas, assim não nos faltava para viver.
Fugi de casa aos 14 anos. Fui encontrar a Companhia da Ana Maria Castro, que tinha ido à Madalena. Fui até Macaé. Pedi para ela me deixar fazer parte e entrei como duetista.
Antes de fugir eu trabalhava na bilheteria do cinema de Madalena e adorava pintar os olhos como as atrizes dos filmes, papai ficava enfurecido. Mais do que pintar, eu queria fazer aquilo que elas faziam. Queria estar lá na tela. Por isso eu fugi para a Companhia.
Renata: Foi cantora durante anos... Inclusive cantando no Teatro João Caetano. Dercy: Muitos anos. Um dia César Ladeira fez um teste comigo para a rádio Tupi. Eu cantava músicas tristes, profundas e ele mandou eu parar com isso. Pensei: será que eu estou ruim? Então fiz um pupurri de músicas animadas de Carmem Miranda, Orlando Silva, Aracy de Almeida. Comecei a fazer sátiras das músicas. Era um poupurri de esculhambação, fiz pornográfico. Agradei muito. Fiz a vida inteira! Foi um sucesso danado! Ganhei muito dinheiro! Muito!
Renata: Mas você não começou a falar palavrões, influenciada por um ator português que se apresentou no Teatro Municipal? Dercy: As pessoas insistem! “Cú” não é palavrão! É uma coisa que você tem, eu tenho, todos nós temos! “Puta que Pariu” é um nome comum! As pessoas falam assim por aí...
Palavrão é gente esnobe, isso é feio. O pedante é que inventa o palavrão! Isso é palavrão! A falta de arroz, de educação, de cultura, roubar do pobre... Isso é palavrão! Os animais estão sendo alimentados à base de ração! Nós estamos comendo ração! Isso é palavrão para mim! Isso é feio! O boi não come mais capim! Tenho certeza que não é feio falar! Eu tenho dignidade nata e me orgulho disso! Não tive educação, mas sei falar, reagir, viver!
Renata: Sofreu com discriminação em uma época em que as atrizes eram consideradas prostitutas? Dercy: Como eu não era “puta”, isso nunca me ofendeu. Fui. Por um dia! Precisava de “cinco mirreis”, um cara me chamou e eu fui. Foi horrível! Ali tive a compreensão da luta que é ser uma “puta”! Beijar a boca fedida, de quem você não ama, sentir um sovaco fedorento, um pé de chulé... Não há mulher que agüente! Não há uma que resista a esse “pecado”! Eu achava que marido era deitar na cama e dormir com um homem. Ao contrário do que pensam, eu era uma moça ingênua e essa característica me valeu muito. Por isso nunca me atingiu.
Renata: Em 1977, em uma entrevista à Marília Gabriela, atribuiu o motivo de viver à paz. Continua em paz? Dercy: Duvido que haja gente mais feliz! A felicidade bateu na minha porta e arreganhou! (risos). Não tenho um gesto contra mim. Sou convidada a participar de festas como a inauguração do Teatro Municipal de Paulina onde fiquei deslumbrada. É lindo, grego, com requintes para a cultura. A cidade é pequena, mas aplica os recursos em arte e cultura. Está de parabéns!
Renata: O que mais faz sentir-se bem? Dercy: Sinto falta dos bingos. Acho uma tristeza que tenham fechado. Era uma alegria para os idosos, um combate à solidão! Achei uma perversidade fecharem. Deveriam ter moralizado e não acabado com eles.
Renata: Sem os bingos, o que gosta de fazer? Dercy: Vou aos espetáculos de teatro, prestigiar os amigos. Não gosto muito de televisão porque tudo que vejo hoje, eu já fiz. Não que me considere a maior, não é isso, mas sou uma criadora. Foi assim na Globo, na Excelsior... Sou artista o dia inteiro. Gosto de me divulgar e vender meu DVD, que conta a minha história nesses 100 anos. Gosto de ir à casa do Faustão, em São Paulo, comer pizza no aniversário dele.
Renata: E em Copacabana? Dercy: Vou ao Manoel e Joaquim, na Atlântica, que eu gosto muito, e a outros também. Sempre fui aos restaurantes daqui, mas hoje prefiro a minha comida. Cozinho e adoro!
Renata: Esteve no programa do Silvio Santos no início do ano... Dercy: E ganhei 100 mil reais! (risos) Só falei a verdade!
Renata: É contratada do SBT, não é? Dercy: Sou sim. O Silvio é um empresário divino, um homem muito correto! Gosto dele e admiro muito o trabalho que faz.
Renata: Nessa ocasião, roubou beijinhos chamados de “selinho”... Dercy: (Risos)
Renata: O bom humor é para sempre? Dercy: Tenho comigo, guardado! Coloco pra fora quando eu quero. (risos) Ganhei dinheiro fazendo brincadeira. Beijo na boca mesmo! E não é só na dele! (risos) Gosto de ser feliz! Adoro me divertir.
Renata: O seu último espetáculo foi um talk show. E agora o que está fazendo? Dercy: No momento não preciso mais lutar pela vida. Agora sou convidada e faço participações em shows de amigos. O meu DVD também está à venda. Fui convidada e vou à Fortaleza receber uma homenagem e fazer uma participação em um evento.
Renata: Continua ativa na profissão. Por isso, enviou ao Guiness Book a papelada necessária para entrar no livro como a atriz brasileira mais lúcida e ainda na ativa... Dercy: E fui aceita, deve entrar na próxima edição. Estou também na exposição Femmes du Monde, sobre as mulheres do mundo. Está na França e vem para o Brasil no ano que vem. Este tem ainda um livro e documentário em DVD.
Renata: Quando olha para trás e vê 102 anos vividos... Como é? Dercy: Eu esqueci do passado. Vivo o hoje e o amanhã. Antes e depois, não quero nem saber! Tenho programação pra hoje, não quero saber da vida de ninguém! Não falo de ninguém! Gosto de ir para bons lugares que me levam.
Renata: Como lida com a tecnologia de hoje? Dercy: Não lido muito! Acho formidável, mas vejo que se preocupam mais com ela do que com educação e cultura. Isso me entristece. Não tive acesso a nada durante muito tempo e acho muito importante a instrução. Um país como o Brasil e tem fome! É uma coisa que não consigo entender, fico indignada! Como pode com terras e mais terras, riquezas e mais riquezas?
Renata: Sua preocupação política sempre foi evidente. Ainda tem título de eleitor? Pensa em votar esse ano? Dercy: Como eu disse, não gosto de me programar, vivo um dia após o outro. Mas tenho título, voto em Madalena. Se chegar o dia e eu tiver vontade, vou para lá e voto.
Renata: Sempre fala muito em Madalena, tem um Museu Dercy Gonçalves lá. O que mais pensa em fazer pela cidade? Dercy: O museu é lindíssimo e o meu túmulo oriental está só esperando eu deitar (risos). Quero fazer um teleférico na Pedra Dubois. Fiz investimentos na cidade e faço até hoje.
Renata: Ter um mausoléu é sinal de que não tem medo da morte? Dercy: Como vou ter medo se acho que ela é o descanso da vida? Preciso morrer para não sofrer. Hoje me sinto bem, mas a velhice não é fácil e pode me pegar a qualquer hora. Espero que não percam tempo me enterrando aqui, fiz um túmulo lindo em Madalena para descansar bem.
Renata: Com essa vivacidade toda, ativa, pensante... O que tem para dizer às pessoas que gostariam de chegar à sua idade? Dercy: Respeitem! Assim se vai longe e se consegue tudo!
Tenho motivação e uma vida linda. Nunca sofri, nunca passei fome! Vivi de tudo e tive uma sorte arreganhada! Vivo do meu trabalho até hoje! Eu pago as minhas contas! Isso é importante!
Renata: Você tem estrela, não é, Dercy? Dercy: É. Eu nasci de “cú pra lua”! Até hoje não bato em uma porta que não abra. Se eu perco aqui, ganho lá! Não minto, sou assim e não mudo. Gosto da vida!
Renata: Deixe um recado para os leitores do jornal Copacabana. Dercy: Estou com uma psicologia ótima da natureza, a beleza e a importância que tem para o ser humano. E ninguém fala disso. Uma coisa tão importante temos que cuidar. A terra é amante da água assim como a lua é do sol. A vida é linda pela natureza.
Lutem! Principalmente pela alimentação, que é o que nos mantém vivos! Lutem pelas galinhas, porcos e bois! Que eles parem de comer ração! Eles precisam de comida! Capim, inhame! Isso é um crime! Nós estamos comendo ração também! Ninguém mais dá milho à galinha! É uma imoralidade! Estamos comendo ração! Isso me entristece. Por isso, lutem!