José Louzeiro
Por
Renata Moreira Lima

Nascido no Maranhão em 1932, José Louzeiro fez carreira no Rio de Janeiro após ser jurado de morte na cidade natal. Morou ainda em Brasília e em São Paulo. Viajou o país fazendo matérias policiais que inspiraram livros como Infância dos Mortos e Lúcio Flávio. Na tv, escreveu novelas como O Marajá, quando foi processado pelo ex-presidente Fernando Collor. Em junho estará nas livrarias a polêmica biografia de Eurico Miranda, escrita por Louzeiro. Com 53 anos de carreira ele coleciona publicações e ainda quer realizar mais duas antes de encerrar a carreira. Há dois anos no bairro, José Louzeiro está adaptado e se sente em casa. Confira a entrevista.
Jornal Copacabana: O seu histórico é de luta pela democracia e engajamento político, inclusive com textos polêmicos que renderam processo, até mesmo censura, como no caso das novelas Guerra Sem Fim e O Marajá, respectivamente. Traçando um paralelo, como analisa o Brasil de hoje?
José Louzeiro: Economicamente, vai melhor para certas classes do que se esperava, mas não reduziu a miséria das comunidades pobres. Aliás, em torno de cada grande empresa existe uma grande favela.
J.C.: Acredita em uma solução?
J. L.: Não. Isso é um reflexo do capitalismo: de um lado os que lucram, de outro, os que têm prejuízo, trabalhando em prol do lucro do primeiro grupo. Basta tirar pelo valor do salário mínimo, relacionado aos custos de vida e familiar quando se gasta 200 reais com a casa, como viver o resto do mês com 250?
J.C.: Você começou a trabalhar como aprendiz aos 16 anos. Em um país como o Brasil, que tem dificuldade em educar e estimular a leitura, desde a infância você já se interessava por literatura?
J. L.: Não, eu gostava de empinar papagaio! (que no Rio é pipa).
Estudei em uma escola particular porque meu pai era pedreiro e fez um acordo: ele consertava, fazia serviços para o colégio e, em troca, eu estudava lá.
Certa vez, a professora de português pediu uma redação. Escrevi toda em letra de forma e dividi a folha em duas partes, como era meu costume, formando duas colunas.
A professora gostou e mostrou a redação ao diretor do colégio, Luiz Rêgo, que, por sua vez, adorou e me pediu que a entregasse dentro de um envelope, a um amigo da Academia Brasileira de Letras, o poeta Corrêa da Silva.
Eu não sabia que a minha redação estava naquele envelope, e nem queria saber... Estava um dia lindo, céu azul e meus amigos empinando os seus papagaios enquanto eu tinha que levar aquele envelope que não me interessava em nada! (risos)
Quando Corrêa da Silva abriu, descobri que se tratava da minha redação, com um bilhete que terminava dizendo: Veja o que acha. Dá ou não para encaminhá-lo ao Emanuel?
J.C.: Algum amigo do jornal?
J.L.: Emanuel era o chefe de redação do jornal O Imparcial. Fui até lá falar com o senhor Carneiro, que era o chefe da oficina e estava todo sujo de graxa... Quando perguntei quando deveria voltar para começar a trabalhar, ele disse que eu começaria imediatamente, como aprendiz de revisor. Bom mesmo foi quando ganhei meu primeiro salário! Achei que eles eram loucos de me pagar para ficar lendo. (risos)
J.C.: Nessa época começou a se interessar por livros?
J.L.: Na verdade, o primeiro livro que comprei foi por causa da capa! Sempre gostei de música erudita, até hoje escuto muito. Era a biografia de Chopin, achei a capa linda! Comprei pelo deslumbre gráfico!
J.C.: Ficou como aprendiz durante muito tempo?
J.L.: Durante um ano. Com a leitura dos artigos do jornal, conheci grandes poetas maranhenses como Ferreira Gullar, José Sarney, Lauro Machado... Todos no suplemento literário do O Imparcial.
J.C.: Como se envolveu com o jornalismo policial? Aliás, uma marca na sua carreira, nos textos no estilo Romance-Reportagem, do qual você foi pioneiro no Brasil.
J.L.: Fiquei dois anos como aprendiz e logo comecei a fazer reportagens policiais, faço há mais de 30 anos!
Sempre achei o delinqüente fascinante, muito sensível. Tudo explode nele com muita intensidade, exaltação. Ele é capaz de praticar o crime e chorar quando é condenado. Mata sem motivo... Era isso que me atraía, além da covardia que é praticada com os presos. A cadeia deveria ser um local de reabilitação, não de tortura e morte, como acontece em vários casos. O que vemos é um abuso de poder declarado, onde a polícia, muitas vezes, prende, julga e mata o sujeito.
J.C.: Começou a fazer essas reportagens ainda no O Imparcial? Como veio para o Rio?
J.L.: Na verdade comecei no O Globo Pacotilha, que era um jornal vespertino do Maranhão. Tive como mestre Moacyr de Barros, isso de 50 a 53.
Depois de lá fui para a reportagem policial de um jornal político, O Combate. Lá recebi uma pauta de uma tortura que teria sido ordenada por um político famoso da região, Vitorino Freire. Ele teria mandado espancar um trabalhador. Só que depois de publicada a matéria, os partidários de Vitorino na Assembléia conseguiram provar que a história estava errada. E, realmente, estava. O espancado era um criminoso. Entrei na lista dos executáveis depois desse episódio e tive que fugir para o Rio de Janeiro.
J.C.: E como foi sua chegada aqui?
J.L.: Cheguei ao Rio por uma companhia aérea que todos os aviões caíam. Fechou um ano depois. Dei sorte! (risos) Eu não tinha muito dinheiro e me estabeleci em uma pousada no Flamengo, “para cavalheiros de fino trato”, como dizia o letreiro.
J.C.: veio para cá sem trabalho ou recomendação, não é?
J.L.: Eu tinha conhecido Válber Rocha no Maranhão, ele morava no Rio, mas quando cheguei, tinha se mudado para São Paulo. Eu estava sozinho e não podia trabalhar como repórter porque não conhecia a cidade. Como datilografava bem, fiz provas para algumas empresas e escolhi uma que vendia máquinas gráficas recauchutadas. Não ganhava muito dinheiro, mas dava para sobreviver.
Ali eu sabia que poderia fazer contatos com pessoas que trabalhavam em jornal. E foi o que aconteceu. Comecei a trabalhar como boy na Revista da Semana. Depois passei a redator publicitário. Em 56 fui para o Jornal Luta Democrática, depois Diário Carioca, Última Hora, e, finalmente, O Correio da Manhã, onde fiquei durante oito anos.
J.C.: Quando começou a fazer livros?
J.L.: O dinheiro era pouco e me mudei da pensão para uma vaga em Botafogo. Nessa época eu era muito roubado e, por isso, tinha que andar com várias roupas no corpo durante o dia. Um calor insuportável no Rio de Janeiro e eu com três camisas por baixo do paletó! (risos) Comecei a comprar livros, que ninguém roubava, e lia nos fins de semana. Ali comecei a escrever minhas primeiras histórias.
Em 58 vendi a máquina de escrever e publiquei meu primeiro livro: Depois da Luta, pela Editora Simões.
J.C.: Ao longo dos 53 anos de carreira são 48 livros editados, 10 roteiros de longas-metragens e quatro novelas. É isso?
J.L.: É isso mesmo. E foi bom porque a ditadura fez com que os escritores fossem mais lidos. Qualquer coisa que se escrevesse contra o regime, era lida com a maior atenção. Principalmente os textos teatrais. Entre os meus, O Dia da Caça e O Caso Aracelli. Teve, ainda, Lúcio Flávio, que foi a minha fúria contra o esquadrão da morte e seus 12 homens de ouro, como Mariscot e Sivuca.
J.C.: E não tinha medo de ser perseguido pelo regime?
J.L.: Enquanto o jornal O Globo era um boletim da ditadura na época, O Correio da Manhã fazia oposição a ela. Todos nós éramos perseguidos. Lá vi colegas como Carlos Heitor Cony, Álvaro Mendes, Atala serem presos. Até eu fui!
Por causa disso tive que me mudar do Rio. Aprendi, com os anos de reportagem policial que o melhor lugar para se esconder é ao lado da polícia. Por isso fui morar em Brasília, em um prédio na Asa Norte, no qual o síndico era coronel do exército. Mas ele me adorava! Até descobrir quem eu era. Tive que fugir novamente com minha família!
J.C.: E voltou para o Rio?
J.L.: Não. Fui morar em São Paulo e consegui um trabalho ótimo, na Folha de São Paulo. Fui fazer uma matéria especial em Camanducaia, sobre uns meninos que a polícia matou jogando de um precipício. 52 deles foram resgatados e presos nus. Era para a matéria ser dividida em três edições, a censura deixou passar 30 linhas.
Foi aí que voltei para o Rio com minha mulher e quatro filhos e escrevi Infância dos Mortos. Depois teve a morte do bandido Lúcio Flávio, que eu conhecia e foi assassinado na cela. Mais um motivo para escrever um livro sobre ele. Meu plano, nessa época, era fazer um por ano... Não consegui.
J.C.: Mas fez 48, um número razoável para a média que gostaria de obter! E no cinema foram mais 10 roteiros. O que acha da “nova safra” do cinema brasileiro?
J.L.: Admiro muito o José Padilha. Ele fez o longa sobre o ônibus 174 sem muita pretensão. Agora ganhou o Urso de Ouro com Tropa de Elite, que é muito bem feito! E se tivesse ido ao Oscar, certamente sairia com a estatueta!
Vejo nele um seguidor do Hector Babenco, que por coincidência fez dois filmes meus com Jorge Duran: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia e Quem Matou Pixote.
J.C.: Hoje você dá aulas de roteiro no Teatro Posto 6 e está fazendo a biografia do Eurico Miranda (presidente do Vasco da Gama), não é?
J.L.: Lancei um livro em 2007 Diabetes: Inimigo Oculto. Além disso, escrevo em um jornal maranhense há mais de 20 anos e quero encerrar minha carreira com mais dois livros: São Dimas, um ladrão no Céu e Parece Que Foi Ontem, uma biografia romanceada da minha vida.
J.C.: A biografia do Eurico é autorizada?
J.L.: Ele não viu nada até agora e estou entregando. (risos) Mas sabe que estou escrevendo. Ouvi amigos e inimigos do Eurico, acredito que não vá gostar de tudo! (risos) O livro vem com um DVD com depoimentos de Márcio Braga, Márcio Guedes, Roberto Dinamite... Deve ser lançado em maio, hoje é tudo bem mais rápido.
J.C.: Vamos falar de Copacabana. Você nasceu no Maranhão, se mudou para o Rio onde morou no Flamengo e em Botafogo, foi para Brasília e São Paulo. Como Copacabana entrou na sua vida?
J.L.: Morei ainda em Santa Teresa e na Usina. Há dois anos meu filho me deu esse apartamento em Copacabana e eu adorei, me identifiquei rapidamente com essa mistura que tem no bairro. A relação é antiga. Foi aqui que lancei o meu primeiro livro, em uma feirinha gratuita que estava acontecendo durante a construção do Shopping dos Antiquários (Cidade Copacabana).
J.C.: Se pudesse mudar algo no bairro, o que faria?
J.L.: Nada. Copacabana já é ideal!
Pensando bem, de cadeira de rodas percebo o descaso com as calçadas. Ainda vou contar os buracos nos quarteirões... Um horror! Fora isso, me sinto em casa! Me encontrei em Copacabana. E de cadeira vejo a solidariedade do ser humano, isso é espontâneo, gratuito e ainda acontece muito.
J.C.: Deixe um recado ao leitor do Jornal Copacabana.
J.L.: Continue amando o nosso bairro. O sol que desperta todos os dias na Avenida Atlântica é a luz do amor. Nada se compara no mundo! É lindo, é liberdade!
Ressalto ainda a importância cultural e social nos nossos comerciantes, que estão de parabéns. São educados, atenciosos e competentes. Copa é uma maravilha!
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