Ordenamento Urbano Espero de coração que o novo governo continue a dar importância à Copacabana.
Não só maquiagem, mas cuidar da violência nas ruas, menores e maiores de rua, morando, fazendo suas necessidades em público e agredindo os turistas (e moradores!) que, iludidos, aparecem por aqui para serem maltratados.
Jornalista,
publicitário, humorista, radialista e acima de tudo, um
precursor. Sim, precursor. Quer um exemplo? Gosta de pegadinha?
Foi com a Câmera Indiscreta do Cavaca, feita em filme 16
mm, em 1965 na TV Globo, que tudo começou.
José Martins de Araújo Júnior nasceu em
27 de março de 1924, na Tijuca, bairro da zona norte carioca.
Penúltimo filho de seis irmãos, já revelava
sua tendência artística no extinto Instituto Rabello,
em seu bairro de origem, onde cursou o ginásio e científico,
juntamente com os atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres.
O curso primário foi feito no Colégio Silvio Leite.
No colegial José era presidente do grêmio escolar.
No qual reunia uma turma de alunos para contar piadas de português.
Cabe citar que José era filho de um português de
quem herdou o nome, que chegou ao Brasil com sete anos, prosperou
de condutor de bondes a proprietário de terrenos na Ilha
do Governador, mandou construir na Tijuca, próximo ao América
Futebol Clube, um edifício de três andares, onde
acomodou todos os filhos. José perdeu o pai aos 16 anos,
do qual se lembra ser um homem de atitudes severas, segundo suas
próprias palavras:-"Cadeado no portão, tabefe
no cangote, descompostura, tive não foram poucas as vezes.
Só do meu pai! Da polícia, não (depois compreendi)"Aos
18 anos entrou para o Instituto Félix Pacheco, no cargo
de datiloscopista.
Aos
20 anos começou a escrever para o Jornal dos Sports, realizando
seu sonho de jornalista esportivo. Assinava suas matérias
como Araújo Júnior. Fator importante para esta opção
profissional partiu da noiva, Nelly, que acreditava em sua capacidade
criativa (Nelly dizia que ele era engraçado, fazia humor
desde que o conheceu no carnaval do Fluminense Futebol Clube).
Em novembro de 1948 assinou contrato com a Rádio Continental,
atuando como repórter. José Martins de Araújo
Júnior se transformou em Don Rossé Cavaca quando
passou a integrar a equipe de esportes do jornal Tribuna da Imprensa.
Don seria fruto de uma admiração confessa pelo herói
de la Mancha, visionário como ele e até de tipo
físico semelhante. Rossé é como se pronuncia
José em espanhol. Cavaca era o tipo de lanche preferido
por Don Rossé, uma espécie de rosca doce que ele
devorava sem limitação.Criado o pseudônimo,
este o acompanhou pelo resto da vida, tanto como cronista esportivo,
publicitário, escritor, humorista, no cinema, no teatro
e na TV.
Conheceu a namorada, que tornou-se sua esposa após um
noivado em que o maior empecilho para a realização
do casamento foi o automóvel que começou a construir
na garagem de seu edifício, na Tijuca.
Don
Rossé Cavaca escrevia um diário no qual compilava
os gastos com as peças para o carro. Isto quando eram peças
mesmo, porque a alavanca da marcha era uma maçaneta de
porta que, puxada para dentro ou para fora e virada à esquerda
ou à direita, desempenhava as quatro marchas do automóvel.
Em um dos trechos do seu diário, por ocasião de
seu noivado, ele escreveu: "Usei o dinheiro do móvel,
na confecção do automóvel".
Cavaca casou-se em 1950 e dois anos depois veio a filha Cláudia,
nome escolhido por ele "para livra-la do terrível
Laura Beatriz escolhido pela mãe", contava o humorista.
Em 54, casado, portanto, há quatro anos, nasce Flávia,
a segunda filha. Dois anos depois vem Márcia Andréa,
nascida na Clínica Arnaldo de Moraes, em Copacabana e a
primeira viagem à Europa, como correspondente esportivo
da Tribuna da Imprensa, a convite da Associação
Atlética Portuguesa. Sempre brincalhão, enviou para
as filhas um cartão-postal de um gorila vestido com a camisa
de um time de futebol, onde escreveu: "Queridas filhinhas,
aqui na Rússia é tão frio que o papai criou
pêlos para se proteger. Não estou diferente?"
Nem é preciso dizer que a brincadeira teve que ser desmentida
imediatamente pela mãe das meninas, tamanha a choradeira
que gerou.
Cavaca e a família saíram do apartamento de Ipanema
em 1960 e se mudaram para o Leblon, no Condomínio dos Jornalistas.
Ali moraram nomes ilustres como Oduvaldo Viana e seu filho Vianinha,
Paulo Mendes Campos, Homero Homem, Fagundes de Menezes, Sandro
Moreyra, Alex Viany, artistas como Adolfo Celli por ocasião
do seu casamento com Tônia Carrero, Cláudio Marzo,
Lucélia Santos, Tâmara Taxman, Betina Viany, o herói
infantil Capitão Furacão, Alceu Valença,
Luis Carlos Vinhas, Vitor Biglioni, entre outros omitidos, mas
de igual importância.O filho Cássio foi a última
e vitoriosa tentativa de ter um homem em casa. Cássio nasceu
no Leblon e conviveu com o pai por apenas cinco anos. Uma das
mais bonitas homenagens pela morte de Cavaca partiu da escritora
Clarice Lispector, que concentrou na figura infantil do filho,
a admiração que sentia pelo pai. Sob o título
"Cássio", ela termina sua crônica no jornal,
dizendo: "É Natal. Cássio olha para o céu
e vê uma estrela. Só não sabe que a estrela
é seu pai " (Cavaca morreu às vésperas
do Natal de 1965).A família, em função dos
milhares de afazeres de Don Rossé Cavaca, se programava
apenas para as férias e os domingos eram passados sempre
na casa da mãe do humorista. Cavaca tinha um sítio
em Rio das Flores, município fluminense onde os avós
de sua mulher foram fazendeiros. Ao morrer, ele deixou inacabada
uma casa defronte ao sítio, idealizada para receber os
amigos. "Terá uma janela panorâmica maior do
que cenário de filme", dizia, empolgado com a obra.Cavaca
tinha prosperado e além da velha "Perereca" apelido
que ele mesmo dera ao automóvel que construiu (não
deslizava, saltava), tinha uma lambreta "Vespa" (na
qual se acidentou fatalmente), uma Kombi e um automóvel
inglês comprado de um cônsul italiano, da marca Armstrong
Sidley Safiri, que ele pouco usou. Numa dessas vezes resolveu
apostar corrida com um carro desconhecido nas imediações
do Colégio Militar, num domingo sem movimento, convencido
da potência do automóvel. Em menos de 100 metros
o capô levantou, cobriu sua visão e ele só
teve tempo de ouvir as gargalhadas do motorista do outro veículo.Atitudes
inusitadas faziam parte de sua rotina. Certa vez comprou num camelô
em São Paulo, cerca de 50 cachorrinhos de pelúcia.
Levou parte da compra para a Tribuna da Imprensa e tentou vender
para os colegas. Um deles disse: "Cavaca, esse cachorro não
vale nem 10 cruzeiros, imagine 25!". Ao que ele respondeu:
"Mas é o único que vem acompanhado de uma piada"
(vendeu todos).No fechamento da edição da Tribuna,
já madrugada adentro, ele costumava brindar os colegas
com a imitação perfeita de Gandhi. Longe de Carlos
Lacerda, dono do jornal, Cavaca ficava de cuecas e se enrolava
em qualquer pano que aparecesse à vista. Do alto de seu
1,87m, macérrimo, subia numa mesa e proferia discursos
que provocavam risos de se ouvir na noite da rua do Lavradio,
onde fica o jornal.A vida de Cavaca era assim, original desde
o café da manhã até a despedida dos colegas
de trabalho, em plena madrugada.
A
morte de Don Rossé Cavaca deixou órfãos os
meios de comunicação, seus filhos e todas as crianças
do condomínio em que morava, que ele voluntariamente convidava
para uma volta de lambreta no campo de futebol interno. Ao anunciar
a sua morte no programa que comandava, o Capitão Furacão,
ídolo da meninada e também morador do condomínio
de Cavaca, fugiu do texto, dizendo que chegaria em casa e o prédio
estaria triste e sem graça. Emoção pura,
pois o capitão "morava" num navio que singrava
os mares... O Jornalista Esportivo - Don Rossé Cavaca iniciou
suas atividades artísticas e seu humor literário
no América Futebol Clube, comentando partidas de futebol.
Em seguida, através do convite do jornalista Luiz Paulistano,
passou a integrar a equipe de esportes do Jornal dos Sports. Nesta
época assinava suas matérias como Araújo
Júnior. Depois atuou como repórter da Rádio
Continental. Foi um dos fundadores da Tribuna da Imprensa - jornal
do primo de sua esposa, o ex-governador Carlos Lacerda - participando
da equipe do jornal desde 1949 como repórter esportivo,
vindo mais tarde a chefiar a seção de esportes onde
permaneceu até 1965. Também na Tribuna assinou a
coluna "Bate-Bola", uma das mais destacadas no campo
da crônica esportiva, que o lançou com êxito
entre os melhores humoristas do país. Foi nessa coluna
que ele disse uma das frases mais famosas do humorismo brasileiro:
-"Desgraçado é o goleiro, até onde ele
pisa não nasce grama." O escritor - Cavaca lançou
um livro em 1961 chamado "Um Riso em Decúbito"
("editado e distribuído pelo autor, nem Deus sabe
como").
Ele
fazia questão de frisar que o livro não tem bossa
e nem é deliberadamente diferente. Mas, na realidade, o
leitor fica surpreso quando o folheia. As páginas são
escritas de um lado só e cada uma delas contém apenas
um conceito, uma poesia, uma frase tremenda. O autor explicava
que procedeu assim para conservar a força do texto - uma
crítica social, humana e política. Ele estipulou
o preço do livro em 995 cruzeiros e colocou dentro do volume
uma nota do índio sem apito (5 cruzeiros), só para
ter o gostinho de anunciar que se tratava do "único
livro do mundo que já vem com o troco".A noite de
autógrafos de Don Rossé Cavaca, no bar "Gôndola",
de Copacabana, para a venda de seu livro "Um Riso em Decúbito"
acabou só pela manhã. Foi preciso até a polícia
para "conter o entusiamo" dos amigos e leitores de Cavaca
que, com isso, vendeu mais de cem livros.O então senador
Juscelino Kubitscheck também foi lá "só
para comprar o Um Riso em Decúbito do Cavaca". E acabou
ficando ao lado do autor, autografando o troco. Alguns dias antes
o então Presidente Jânio Quadros não quis
autografar uma das notas, dizendo que isto era crime. Cavaca conseguiu
negociar com a Casa da Moeda a liberação destas
notas dias antes de serem lançadas, fato que causou grande
curiosidade entre os compradores do livro. Para Don Rossé
Cavaca a noite de autógrafos, na Gôndola, foi um
sucesso.Cavaca trabalhou no cinema. Era um tocador de cavaquinho
no filme "Pluft, o Fantasminha", foi ator de televisão
no "Teatrinho Trol", "Time Square", "Câmera
Indiscreta". Foi publicitário, trabalhou na Galo Xavier
e Labor Propaganda. Patrícia finaliza sua monografia com
essas palavras: "Escolhendo Don Rossé Cavaca como
tema de minha monografia visitei o passado. E descobri que Cavaca
era tão atual, que foi como eu viajasse no tempo sem sair
do lugar..."
UM
POUCO DO PENSAMENTO DE CAVACA:
Na promiscuidade dos bairros que crescem em sentido vertical,
há binóculos de comprovada experiência sexual.
A Bíblia conta à sua maneira que Adão também
comia maçãs em outra macieira.
O solteirão sem atrativos segue o destino: Cibalena à
noite para dormir com algo feminino.
Na reunião de cúpula do Centro de Pesquisas, a
ciência revelou aspectos surpreendentes: descobriram doze
moléstias até então inexistentes.
Morreu de enfarte o João. Comentário geral: um
ótimo coração.
Chinelo em baixo da cama conforto é. Mas cadê o
outro pé?
Graças à liberdade de ir e vir, assegurada pela
Constituição, o nordestino tem oito milhões,
quinhentos e vinte e cinco mil quilômetros quadrados para
morrer de inanição.
Vendo para Seleções um conto neo-realista bem do
tipo Seleções. Tanto que narra a história
de um soldado destemido que perdeu pernas e braços, ficou
cego, surdo e mudo. Azar inqualificável: até neurose
incurável. Voltou da guerra e internou-se no Centro de
Readaptação de Ex-Combatentes. Lá se casou
por amor com a filha do diretor, que lhe tirou da cabeça
todas as coisas complexas. Hoje ele é UM FELIZ FAZENDEIRO
NO TEXAS.
Na situação em que me encontro, se puserem um revólver
na minha frente eu o vendo imediatamente.
É tanta polícia que a gente fica sem a mínima
garantia.
A sífilis e as capitanias eram hereditárias.
Bons tempos aqueles! Como se ganhava pouco!
Não é para te elogiar não, mas o enterro
do teu pai estava um show.
Humoristas lutam agora por um mundo menos engraçado.
É a quinta massa fria vinda do Sul que o Rio desmoraliza.
Agora gostaria que as senhoras fizessem silêncio, mas todas
ao mesmo tempo.
Os dois são Deuses, mas o da direita tem mais experiência.
Letra V da cartilha contemporânea? Vina viu vovô
se virando.
Alguns átomos também se consideravam íntegros.
Depressa, Pedro! Grite logo, que estamos às margens do
Ipiranga e a letra do hino já está pronta.
Há milhares de notas falsas em circulação,
mas tão prestativas que conquistaram a confiança
de todos.
Que corrupção é esta que a gente morre sem
conseguir atingi-la?
Flagrei minha mulher me pegando em flagrante.
Um destes viveiros que matam de inveja os passarinhos livres.
Acredito na sua honestidade mas a quadrilha já está
formada.
Tem cura, doutor? Se tem, vamos desenterrá-lo.
Bebeu veneno e o legista descobriu que era uma solução.
Só sabe contar pré-histórias.
Que foi que você sentiu quando soube que havia nascido
no Brasil?
Parte do texto tirado da monografia da neta de Don Rossé
Cavaca, a publicitária Patricia Balsini.
Livro do Humorista Don Rossé
Cavaca é imperdível:
já vem com o troco!12/04/2007
Já
está nas melhores livrarias do ramo o livro Um Riso em
Decúbito, com prefácio de Helio Fernandes. Com custo
de 16,90, a edição vem com 10 centavos de troco.
O humor fino e piadas inteligentes são as marcas de Don
Rossé Cavaca, que teve a segunda edição lançada
pela editora Desiderata. Editado em 1961 só Deus
sabe como (palavras do autor), o livro traz pílulas,
piadas curtas como Flagrei minha mulher me pegando em flagrante,
Sem querer foi falindo, falindo, até falecer
e Há milhares de notas falsas em circulação,
mas tão prestativas que conquistaram a confiança
de todos.
Considerado gênio por artistas, jornalistas e admiradores
por contemporâneos, Don Rossé teve o trabalho quase
esquecido após o acidente fatal em 1965.
Além de jornalista, publicitário,
ator e humorista, Cavaca (que era morador do Leblon) construiu
um carro na garagem do apartamento da Tijuca. Ficou famoso por
introduzir com personalidade as pegadinhas no Brasil, ele era
o Cara de Pau do programa Câmera Indiscreta
no primeiro ano da TV Globo.
Com a reedição do livro Um Riso em Decúbito,
o humor inteligente do homem triste que fazia rir e pensar
volta a público e os leitores e admiradores só terão
a agradecer quando puderem conhecer ou relembrar as piadas desse
gênio. Fique ligado!