Monique Lafond
Por
Renata Moreira Lima

Ela dedica a vida aos palcos, televisão e cinema. Desde os seis anos de idade, Monique Lafond trabalha e encara a profissão com amor e responsabilidade. A fim de contribuir para a qualidade de vida de pessoas acima dos 40 anos, ela mantém uma Oficina de Teatro há 10 anos em Copacabana e tem como sonho e objetivo, transformar o projeto em Centro Cultural, com atividades gratuitas.
Durante anos fez a peça de Abílio Fernandes, Por Falta de Roupa Nova, Passei o Ferro na Velha. Desde o último filme, Lara, rodado em 1999, ela aguarda o próximo personagem na nova safra do cinema nacional e não esconde a ansiedade, foram 54 ao longo da carreira. Em bate-papo descontraído no apartamento do Bairro Peixoto, Monique volta ao Fala Vizinho depois de 10 anos para contar como está sua vida, projetos e planos para o futuro.
Jornal Copacabana: Você começou a atuar ainda menina, aos 11 anos.
Monique Lafond: Antes disso, minha mãe me levava para fazer comerciais. Ela sempre sonhou ser bailarina e transferiu o sonho para mim, influenciando artisticamente.
Lembro de um episódio engraçado: fui fazer um comercial de aveia. Eu devia ter seis anos e ficava sentada em uma cadeirinha, com uma mesinha na frente e um mingau de aveia embolotado e quase frio. (risos). Eu não conseguia fazer cara de que estava gostando daquilo! Passei anos sem comer aveia, um trauma! (risos). Fui comer depois de “burra-velha”!
J.C.: Aos 11 anos você estreou no teatro em Música, Divina Música, com Ary Fontoura e grande elenco. Logo depois foi para a estrada com Os Pais Abstratos, onde contracenava com Darlene Glória, Glauce Rocha, Jorge Dória, entre outros. Como foi encarar grandes artistas sendo tão nova?
M.L.: Minha mãe me levou para o teste de Música, Divina Música, escondida do meu pai. Passei. Acho que eu ainda nem tinha a dimensão dos artistas com quem estava trabalhando, era muito criança. Com o tempo e a convivência descobri quem eram aquelas pessoas maravilhosas e brilhantes. Sou fã da Darlene até hoje, de carteirinha! Com o Dória tive o prazer de fazer todos os personagens possíveis: filha, mulher, amante... (risos) Ele é muito bom! Foi uma escola “jogar bola” com essas pessoas. O Dória sempre falava para a gente brincar em cena.
J.C.: E logo começou a fazer filmes?
M.L.: É. A peça, Os Pais Abstratos ganhou uma versão para o cinema: Até que o Casamento nos Separe, de Flávio Tamberlline.
J.C.: Então sua mãe impulsionou e você gostou da brincadeira de ser atriz...
M.L.: Adorei a idéia, me identifiquei rapidamente. Por mais que falassem para minha mãe não fazer isso comigo, eu adorei! Naquela época havia muito preconceito. Aliado à concorrência, que era menor do que a de hoje, que todos querem aparecer no “plim-plim”, eu fui seguindo a carreira. Por outro lado tinha um glamour que hoje não tem. Outra coisa é que se tornou repetitivo. Você não vê mais um trabalho de “carpintaria”, “laboratório”. Os artistas só mudam de figurino, não tem tempo para fazer uma composição, estudar o personagem.
J.C.: O que mais mudou ao longo dos anos, além da popularização da profissão de ator e o aumento da concorrência?
M.L.: Antigamente a televisão era teatral. O Avancine (Walter, diretor de programas na tv) é que deu esse tom natural à atuação na tv. De falar baixo, pois o microfone capta bem a voz, não ser exagerado com os braços, pois vai sair de quadro... Essas coisas.
Outra é que hoje vemos muitos jovens na televisão, isso foi uma conquista. No começo eles não gostavam de assistir novela e, para atrair esse público, as emissoras começaram a investir em artistas jovens. Hoje tem uma garotada trabalhando. Acho que isso contribuiu também para esse novo formato, menos teatral. Não haviam atores muito bons nessa faixa de idade naquela época. Quanto menos precisassem atuar com “caras e bocas” comuns no teatro, maior seria o resultado. Artistas como Edwin Luise, eu e vários outros, tivemos que reaprender a atuar.
J.C.: O que não foi um problema, com certeza!
M.L.: Foi sim! Acho que de uns cinco anos pra cá é que fiquei “bacana”, apta a fazer televisão. Antes eu não ficava me sentindo tão em casa.
J.C.: Além da tv, teatro e cinema, você começou a fazer trabalhos como modelo, paralelamente. Como foi, um convite ou você procurou a profissão?
M.L.: Eu fui pela sobrevivência. Comecei a fazer muito teatro infantil e adulto com Aurimar Rocha, dono do Teatro de Bolso do Leblon. Me firmava cada vez mais, mas teatro não pagava muito naquela época. Ainda hoje não paga. Por isso fui procurar agências de modelo. Daí viajei e fiz muitos trabalhos até o dia que eles pararam de me chamar, alegando que eu tinha ficado famosa e aparecia mais do que a marca da revista, no caso de uma capa, ou mais que o produto que eu estava vendendo. Coisa da mentalidade da época. Hoje é o contrário: a modelo conhecida chama atenção para a capa da revista. Voltei para o cinema.
J.C.: Dos 54 filmes que fez, entre 1969 e 2003, alguns foram na fase da chamada Pornochanchada. Os grandes atores da época faziam esses filmes, pois era o que tinha de produção cinematográfica no Brasil. Acredita que os filmes eram apelativos por falta de recursos?
M.L.: Não fiz tantos filmes de pornochanchada. Na minha terapia cheguei à conclusão de que os filmes não eram tão apelativos assim. Mas sim retratavam a realidade da sociedade burguesa da época. Que, por sua vez, ficou chocada com a exposição de seus verdadeiros sentimentos e intenções para com suas empregadas, amantes e tudo mais que se envolvia nos filmes, e foi contra, taxativamente, nomeando as obras de pornô. Hoje, vendo os filmes que entram em cartaz, não acho que aqueles eram pornôs. Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, começou a revelar as loucuras, desejos e obsessões burguesas.
Mas fiz filmes de Walter Hugo Khoury, Os Trapalhões, entre outros tantos que não tinham nada de apelativo.
J.C.: Seu último filme foi Lara. Já na nova safra do cinema nacional, com mais incentivos financeiros.
M.L.: Foi. Terminei de gravar em 1999 e foi lançado em 2003. Uma diferença dos filmes antigos. Tinha cadeira para atrizes, câmeras por todos os lados, gruas, uma equipe enorme, equipamento de qualidade... Antigamente você filmava com o barulho da câmera na sua orelha: “zuuuuuuuuuuuummmm”! Uma perturbação! (risos). É muito bom estar em um set atualmente!
J.C.: E quando você volta para a telona?
M.L.: Ah! Quero muito voltar logo. Estou aguardando o convite ansiosamente!
J.C.: Na televisão você fez algumas participações nos últimos anos...
M.L.: Fiz em Paraíso Tropical, Malhação, Belíssima... Mas estou com saudade dos personagens. Quero um que tenha uma história na trama, com começo, meio e fim, e todas as complexidades que merece. Estou com saudades!
J.C.: Você tem uma produtora de teatro e dá aulas para o que chama de “idade da sabedoria”. E os espetáculos?
M.L.: O complicado do teatro é que para fazer um espetáculo tem que haver uma capitação de recursos muito grande, se não você não consegue montar, nem lucrar com a montagem. No momento me dedico à minha produtora e às aulas, que adoro.
J.C.: Trabalho que já realiza há 10 anos...
M.L.: Pois é. Chama-se Oficina de Teatro na Idade da Sabedoria. Trabalho com pessoas acima dos 40, que já não tem aquele afã e ilusão da juventude, são vividas e sábias. O trabalho acaba ajudando psicologicamente aos alunos que vem de todas as partes, não só de Copacabana, apesar da escola ser aqui no teatro Gláucio Gil. Tem um cunho terapêutico. É um trabalho social. A idéia é captar recursos para transformar a oficina em Centro Cultural, com custo zero e aulas de especialização. Isso é um sonho! Hoje já temos várias aulas, mas quero fazer algo mais completo. Acho importante levar o bem estar ao próximo. Ajudar a acabar com os traumas que a vida impõe ao longo dos anos. Temos que pensar no nosso vizinho, demonstrar carinho, afeto. Não é só ter um animal de estimação em casa, é cumprimentar o vizinho que você, na maioria das vezes, vira a cara. A proposta é andar na contramão, desarmar o que está instituído, para que haja o bem.
J.C.: Como os interessados podem chegar à Oficina?
M.L.: Através do telefone 2547-8226, ou pelo meu site www.moniquelafond.com.br. O próximo espetáculo será O Cabaré da Melhor Idade! Estamos super empolgados!
J.C.: Você tem a Oficina em Copacabana e, apesar dos seus pais serem franceses, foi criada aqui no bairro.
M.L.: Meu pai tinha lojas de flores e era muito conhecido, fazia arranjos maravilhosos para festas no Copacabana Palace, buquês de noivas que até hoje me param nas ruas para dizer que ele fez o buquê delas. Eu sempre morei aqui. Entrava escondida nas festas do Hotel, usava uma passagem secreta. Entrava pela cozinha, passava por um cofre até chegar ao salão nobre... (risos). Via todas as peças naquele teatro! Morei durante algum tempo em Ipanema e Recreio dos Bandeirantes, mas não agüentei e voltei para Copacabana. Quando fiz o Fala Vizinho, há dez anos, eu morava na pracinha do Bairro Peixoto, que era meu sonho, no apartamento que foi da Elis Regina. Agora voltei justamente para cá, lugar que eu adoro e sou muito feliz! Aqui é legal que a gente entra aos poucos na loucura de Copacabana. Faço tudo que qualquer cidadão local faz. Vou ao mercado, farmácia, ali na Paradise Locadora, adoro os meninos de lá! Visito o meu amigo Zé Louzeiro (escritor e roteirista) que é vizinho aqui também e meus irmãos.
J.C.: Quem é Monique Lafond?
M.L.: Agora sou uma aquariana de 54 anos, teimosa, com muita garra, trabalhadeira, palhaça, de bem com a vida, sempre com bom astral, que adora um alicate de unha, estou sempre me cutucando... (risos). Só tenho meus irmãos, por isso peço adoção às minhas alunas. E estou resgatando os amigos que perdi o contato ao longo dos anos e achando isso muito importante nesse momento. Sempre fazendo o bem!
Oficina de Teatro na Idade da Sabedoria no Teatro Gláucio Gill

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