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Milton Teixeira

O CONTO DO VIGÁRIO

Mentira Carioca
Extraída de nossa história, ocorrida no período joanino, tão na moda.

           Corria o ano de 1814 quando, em pleno Rio de Janeiro joanino, desembarcou no Largo do Paço, vindo de Portugal, o cidadão lisboeta Antônio Theodoro. De ótima aparência e muito bem trajado, demonstrando finos modos, este senhor, ao se hospedar, identificou-se com seu nome apondo o título de Visconde de Vila Nova. O estalajadeiro, embevecido de abrigar tão importante personagem, não se furtou a fazer algumas perguntas. Informou então o “Visconde” que era parente do Ministro das Finanças do Reino e confidente de D. João, Thomás Antônio de Vila Nova Portugal, então no poder e, não por acaso, gozando os favores do Príncipe Regente como seu conselheiro pessoal.
A conversa melhor ficaria para depois. Estando já o Visconde de Vila Nova estabelecido no melhor quarto da casa, e servindo-se de três refeições diárias, viveu sendo bem tratado; até que, alguns dias após, em tom muito confidencial, revelou ao estalajadeiro que tivera de fugir de Portugal às pressas, pois estava ameaçado de morte por alguns familiares. Inquirido sobre tão grande problema, o Visconde confessou que se tornara herdeiro único de imensa fortuna deixada por um tio, vigário de uma paróquia alentejana. O tio, ao assim proceder deserdando outros parentes, inquiriu no ódio dos outros familiares contra Antônio Theodoro, que, temendo por sua vida, entregou os detalhes da herança para serem arrumados por um advogado procurador, e viajou para o Rio de Janeiro com o fito de se sentir mais seguro, até a questão da fortuna serenar.
A notícia rapidamente se espalhou, pois o estalajadeiro não guardou segredo algum e, em poucos dias, toda uma nata de fidalgos bateu à porta da estalagem para convidar o Visconde a almoços e jantares nas melhores casas da cidade. Logo se estabeleceu numa mansão, cedida por um nobre, onde passou a ter criados e comer à tripa forra, dando, inclusive, recepções. Não poucas famílias foram lhe obsequiar com presentes, e o Visconde de Vila Nova chegou até a namorar algumas das moças mais importantes do Rio de Janeiro.
Passados alguns meses, Antônio Theodoro revelou a alguns amigos fidalgos que estava passando necessidades, pois o testamento estava sofrendo embargos por parte da família, ao mesmo tempo em que o procurador não demonstrava ter o talento e a rapidez que se apregoava possuir. Nem precisou pedir: logo as melhores bolsas da cidade se abriram para emprestar-lhe dinheiro, mesmo tendo o Visconde inicialmente recusado receber qualquer ajuda, só o aceitando depois de muita insistência. E assim viveu Antônio Theodoro por um ano e picos, tomando dinheiro emprestado de negociantes e investidores. E talvez vivesse assim muito tempo mais, se não incorresse na desconfiança do Intendente de Polícia Paulo Fernandes Viana.
O Intendente começou a desconfiar do Visconde, haja vista que, em um ano, esse nobre em nenhum momento se apresentou ao Príncipe Regente, como era de praxe, muito menos ao poderoso ministro, seu parente. Além do que, numa entrevista fortuita, Paulo Fernandes conversou com o Ministro Vila Nova Portugal, e este alegou desconhecer o tal parente herdeiro. O Intendente solicitou que o Major Miguel Nunes Vidigal escrevesse algumas cartas para o Reino, em especial para a família Vila Nova, a qual ele afirmava pertencer.
Com um pouco de trabalho, se descobriu a verdade. Antônio Theodoro era apenas um aventureiro, reles caixeiro de uma loja vulgar da Rua do Ouro, em Lisboa. Não tinha tio vigário algum, não herdara nada e muito menos pertencia à família Vila Nova e, claro, jamais tivera o título de Visconde.
Foi preso e enviado ao aljube da cidade. Verdadeiro escândalo. Um Deus-nos-acuda. Muitos comerciantes e empresários haviam-lhe emprestado altas somas e agora sabiam que não as receberiam mais. Muitas famílias o receberam em seu meio como um possível e desejável “genro”, tendo o meliante até noivado com respeitável dama. Houve moçoilas apaixonadas que tentaram o suicídio, outras ficaram dias deitadas em rede, sem comer; e uma delas manifestou desejo de entrar para um convento, tal o desgosto que teve.
Não é que houve até quem intercedesse por ele, tal a confiança que passara?
D. João o degredou em 1816 para Angola, com a proibição de voltar ao Brasil ou Portugal.
Daí para diante, casos dessa natureza foram batizados por “contos do Vigário” e tal denominação até hoje perdura.
O episódio mostra como um homem pobre, mas resoluto, com alguma lábia e sabedoria, conseguia levar boa vida graças a uma sociedade reles, como a do período joanino, que julgava os outros pela aparência ou título e não pelo talento.