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HOSPITAL VETERINÁRIO

Aprendi muito em minhas aulas na Universidade. Mas aprendi coisas fundamentais, e vivi situações que influenciaram de forma decisiva minha carreira dentro do Hospital Veterinário de Pequenos Animais (HVPA) da Universidade.


Desde cedo escolhi a área de clínica. A imensa maioria dos estudantes de medicina veterinária preferia estagiar na cirurgia, enquanto alguns outros optavam por seguir medalhões em especialidades como radiologia, oftalmologia e principalmente dermatologia, o estágio mais concorrido. Eu, por minha vez, sempre meio diferente, queria mesmo era ficar na clínica. Com dezenove, vinte anos de idade, eu gostava mesmo era da emoção dos animais que chegavam de emergência, da pressão dos proprietários em cima da gente, do sangue, das feridas abertas, da loucura dos animais epiléticos, ou da urgência dos atropelados ou envenenados. Eu adorava meter a mão na massa, tentar colocar a focinheira em um cachorrão enfurecido, ou segurar um gato mal-humorado, esticando seu corpo em cima da mesa de inox.


Me sentia realizado quando deixavam que eu limpasse uma ferida cheia de bichos, apesar do cheiro insuportável (sem luva nem pensar. Era pedir para perder a fome e ficar com aquele cheiro o resto do dia).


A primeira vez em que me deixaram aplicar uma injeção subcutânea – a mais fácil - enfiei tanto a agulha que ela saiu do outro lado da pele, e eu vi todo o medicamento pingar na mesa, enquanto eu apertava o êmbolo com cara de bobo. Pegar uma veia então era uma tarefa que exigia concentração durante minutos, e que eu me tremia todo só de pensar em tentar.


Numa das primeiras vezes em que entrei no HVPA uma estudante mais graduada pediu ajuda para tirar sangue de um cão.
- Vem cá, faz o garrote para mim – pediu.


Fiquei olhando com cara de quem estava ouvindo um pedido em grego clássico, e ela sorriu, explicando-me que garrote nada mais era do que pressionar a pata, impedindo o retorno do sangue, para que a veia subisse.
A primeira vez em que vi uma eutanásia (era uma vira-latinha velha, tomada de tumores), fiquei com um nó na garganta, e me perguntei se aquilo seria certo. Mais tarde eu veria casos de animais que sofreram até o fim de doenças incuráveis, e me tornei um adepto da eutanásia.


Animais eram abandonados na porta do hospital, ou mesmo deixados lá por pessoas que traziam, faziam a ficha, e depois desapareciam. A gente descobria logo que os dados na ficha eram falsos, e sabia que o bicho tinha sido abandonado. Alguns arrumavam donos entre os estudantes, mas muitos outros ficavam nos canis dos fundos do hospital, levando uma vida triste e solitária.


Foram três anos ininterruptos onde vi de tudo, aprendi muito, me emocionei, senti raiva, cansaço, frustração, dúvidas em relação à profissão, admiração por profissionais e proprietários, carinho por pacientes, medo de errar.
Foi ali, no HVPA, que tive os primeiros contatos com a profissão que escolhi.


Grande abraço e até a próxima.