A CONFUSA HISTÓRIA DO CORTE DA RUA FARANI

Desde o segundo reinado que se cogitava de se abrir um túnel ligando o bairro de Laranjeiras ao de Botafogo pela rua Guanabara – hoje Pinheiro Machado – e que desembocasse na rua Farani. Esta última havia sido aberta em 1872 pelos irmãos Domingos e César Farani, joalheiros da Casa Imperial e proprietários de muitas terras e imóveis na cidade do Rio de Janeiro.
Moradores de Botafogo, os “Farani” foram os responsáveis pela abertura e loteamento de muitas vias no bairro, dentre elas a que lhes herdou o nome, e que originalmente terminava na altura da rua Dona Ana – atual Jornalista Orlando Dantas.
Só que, o que seria o primeiro túnel da cidade, depois de uma série de peripécias, acabou virando um enorme corte na falda do morro do Mundo Novo, por dentro do duríssimo gnaisse cinzento de que é composto.
A primeira tentativa para comunicar os dois bairros fidalgos data de 28 de março de 1883, quando foi firmado contrato entre o Governo Imperial e firma Duvivier & Cia, formada por Edgard Duvivier, Otto Simon e Alexandre Wagner, este último sogro dos dois; para a construção, uso e gozo de uma linha de bondes puxados a burro, do centro da cidade às praias da Saudade – atual Iate Clube do Rio de Janeiro, na Urca – e Copacabana.
A linha partiria da rua dos Ourives – hoje Miguel Couto -, esquina da do Ouvidor e, entre as ruas de Guanabara e Farani, deveriam os concessionários abrir um túnel, no morro do Mundo Novo, com a largura mínima de 8 metros por 6 de altura. Obrigaram-se ainda os contratantes a perfurar outros três túneis, prolongar e abrir diversas ruas, alongar o cais da praia do Flamengo e construir e manter, durante todo o prazo da concessão – 30 anos -, um estabelecimento balneário em Copacabana.
A construção da linha deveria ter início dentro de três meses, a contar da data da aprovação das plantas, devendo todas as obras, inclusive o tal estabelecimento balneário, ficar concluídas dentro de 27 meses.
O preço das passagens de bonde seria de 100 réis, desde a rua dos Ourives até à dos Farani e pontos intermediários, e de 100 réis, da rua dos Farani até a praia da Saudade ou de Copacabana.
O Decreto no. 8.914 do dia seguinte – 29 de março -, aprovou o contrato.
Imediatamente protestou junto ao Governo a Companhia Jardim Botânico, que explorava as linhas de carris para a zona sul desde 1868, e cujo contrato garantia-lhe o uso privilegiado da concessão, sem concorrências. Foi logo mobilizado para defender os interesses da Companhia na justiça o emérito advogado Saldanha Marinho.
No contrato da Companhia Jardim Botânico, estava incluída uma cláusula de que a mesma teria privilégio único na extensão, abertura e exploração da linha para Copacabana, por um túnel que perfurasse a rocha a ser aberto na altura da praia da Saudade ou ao final da rua Real Grandeza.
O contrato da Duvivier & Cia. Tinha sido obtido por “debaixo dos panos”, através de negociações secretas entre um de seus membros, o tabelião Francisco José Fialho e o Conde de Lajes, mordomo do Palácio Imperial de São Cristóvão.
A maracutaia não foi, por sua vez, muito longe.
Por ocasião da apresentação dos estudos, porém, qual não foi a surpresa do Governo ao verificar que as plantas e os estudos submetidos pelos concessionários estavam em completo desacordo com as condições ajustadas. Assim, não podendo os trabalhos apresentados ser aprovados, pois, segundo o próprio Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Dr. Afonso Augusto Moreira Pena, “importariam verdadeira renovação do contrato celebrado, constituindo violação substancial das suas cláusulas”, não teve o Governo senão como declarar caduca a concessão, o que fez pelo Decreto no. 9.022, de 29 de setembro de 1883.
A Companhia Jardim Botânico, por sua vez, para garantir seus privilégios contratuais, abriu em julho de 1892 o cobiçado túnel para Copacabana, e o assunto do túnel da rua Farani esfriou por alguns anos.
Em 1910, com a ascenção à Presidência da República do Marechal Hermes da Fonseca, o assunto do túnel da rua Farani voltou à baila. Pudera, o Marechal residia efetivamente na rua Guanabara, e ainda quando presidente mudou-se com sua família para o antigo palácio da Princesa Isabel, - hoje Palácio Guanabara - na mesma rua. Por sua vez, o homem mais poderoso do Brasil à época, o senador gaúcho Pinheiro Machado, residia numa imensa mansão no morro do Graça, na esquina de rua das Laranjeiras com Guanabara.
O Prefeito Marechal Bento Ribeiro Carneiro Monteiro cuidou de providenciar a abertura do esperado túnel, iniciando os trabalhos em 1912, por duas bocas diferentes, em ambas as ruas. Qual não foi a surpresa quando se verificou, quase ao final das obras, que as duas equipes se desviaram do traçado original, havendo grande discordância não somente quanto ao eixo horizontal, quanto ao vertical – os dois túneis não se encontraram!
Optou então a Prefeitura por fazer logo um corte em todo o morro, aproveitando integralmente o trabalho já realizado pelas duas equipes. A obra foi afinal entregue em agosto de 1914, no mesmo mês e ano em que, na Europa, iniciava-se o primeiro conflito Mundial.
Só a guisa de curiosidade, vale lembrar que na rua Farani residiu até falecer aos 85 anos em 1896, o célebre engenheiro e Senador Cristiano Benedito Ottoni, que construiu as primeiras duas seções da Estrada de Ferro Central do Brasil e foi, em sua época, a maior autoridade brasileira em ... Túneis!
Cinqüenta anos depois, com a abertura do Túnel Santa Bárbara, durante a administração do Governador Carlos Lacerda, ordenou este notável administrador da Guanabara alargar a rua Pinheiro Machado, desapropriando casas, cortando o jardim fronteiro do Palácio Guanabara e demolindo a lateral do estádio do Fluminense, entregando a via duplicada em 1963.
Mais recentemente, o mercado mobiliário descobriu que o morro do Mundo Novo é uma ótima opção para prédios de apartamentos de luxo, de modo que, desde 1983, as construtoras o tem cortado à britadeiras e dinamite sem dó nem piedade, emparedando o cômoro com suas construções, principalmente no lado de Botafogo.
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