YVONNE BEZERRA DE MELLO
Por Virgilio Rocha
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Yvonne tem dedicado sua vida, desde a adolescência, a ajudar, de forma decidida, a população infantil desassistida do Brasil e de outros países.
Esta experiência tem servido para desenvolver métodos pedagógicos que realmente recuperam as crianças vítimas de todo tipo de violência, fato reconhecido por instituições nacionais e internacionais.
Em um cenário chocante de milhões de crianças expostas à violência e falta de perspectiva, a ação de Yvonne impressiona pela energia, determinação e coragem exercidas no projeto Uerê. Leia a entrevista.
Jornal Copacabana: Recentemente você ganhou o prêmio da União Européia, Paz no Mundo e Cidadania. Você tem o Projeto Uerê, que trabalha a concentração e os problemas psicológicos de cerca de 430 crianças na região da Maré. Que resultados você consegue com relação a superação desses problemas e dificuldades?
Yvonne Bezerra de Mello: Existem diversas formas de violência como a doméstica e a que ocorrem nas comunidades carentes.
As crianças destas comunidades sofrem todo tipo de violência. Porque não é brincadeira você viver em um lugar onde tem tiros, mortes, conflitos, miséria, desemprego todos os dias... tudo junto! Sofrem com o descaso, a negligência.
O que acontece com elas? A inteligência permanece intacta, mas com o excesso de problemas há uma parada no processo cognitivo, param de aprender e perdem a memória, a capacidade de concentração; perdem, muitas vezes, a fala, movem-se de maneira diferente, tem problemas de estômago, mas nada é clínico e sim decorrente do trauma.
J.C.: Você começou a trabalhar com crianças na pré adolescência, ou seja, ainda criança. A partir daí se engajou como voluntária na África.
Y.B.M.: Pois é. Comecei a trabalhar nos anos 70 na África, em alguns países, e percebi que essas crianças tinham as mesmas dificuldades de aprendizado.
Quando voltei, na década de 80 comecei a trabalhar diretamente com crianças de rua que tinham esses mesmos problemas das crianças africanas, das asiáticas, iraquianas, palestinas... Eram todas iguais.
Comecei a desenvolver uma maneira delas voltarem a aprender mais rapidamente e readquirirem aquilo que perderam. Essa é a pedagogia: retomar o que se perdeu um dia, que pode ter sido aos dois, três ou nove anos de idade.
J.C.: Essas crianças chegam diagnosticadas ao projeto?
Y.B.M.: Incrível que elas chegam com diagnósticos absurdos! Retardo mental, por exemplo. Mas quando você põe ela no chão e coloca um Lego na frente dela, ela constrói. Como pode ter retardo mental? Aí você descobre que o problema está em formar palavras. Ou seja, um problema de trauma que não foi trabalhado a tempo. Se a criança não tem atividades desde dois anos e agora está com seis, ficou parada no tempo durante quatro anos e é esse espaço que temos que preencher lá no projeto. Isso acontece com milhões de crianças brasileiras. Não é fácil, leva tempo.
J.C.: Quando um menino pede esmola na rua para uma pessoa, como esse cidadão deve se comportar?
Y.B.M.: Não deve dar dinheiro porque esses meninos que estão nas ruas não são meninos de rua, isso praticamente não existe. Eles são meninos na rua. São meninos que tem uma casa, mas vão para as ruas pegar dinheiro pressionados por algum adulto. Se você perguntar para um deles no Leblon, em Copacabana, de onde ele vem, ele vai te dizer direitinho qual a favela que ele mora. E se perguntar porque ele não volta para casa, ele diz que tem que levar dinheiro para a mãe, para o tio... enfim. Então ele vai ficar na rua até a hora que completar a “meta”, senão ele apanha.
J.C.: Falou que ele vem da favela. Então o problema está nas comunidades?
Y.B.M.: Sim. Mas essas sofrem descaso das autoridades competentes. As instituições brasileiras não funcionam, se funcionassem, as crianças não estariam nas ruas. Elas não tem direito a uma escola razoável, logo não tem interesse, nem rendimento escolar. Além de outro monte de “porquês” não respondidos.
Avalio então que o Estado brasileiro é caótico e permite que as pessoas vivam no caos.
J.C: Como você avalia as ações do governo em relação à pobreza e à fome, como o projeto Fome-Zero e o Bolsa-Família?
Y.B.M.: A pobreza aumenta. O Bolsa-Família é um paliativo a um problema maior. Quando me perguntam sobre isso, sempre digo: acho bom, mas tinha que ter data e hora para terminar. Tinha que ser dado o benefício condicionando à qualificação do adulto daquela família para que daqui a quatro anos ele não precise mais do benefício, pois, como é realizado, o cidadão se acomoda e acredita que dê para viver com aquele auxílio somente.
J.C.: Acaba por não educar também.
Y.B.M.: Pois é. Não educa, a qualidade intelectual da família não melhora. No Brasil se faz isso, se dá, mas não condiciona a uma melhoria real na qualificação intelectual e na vida dessas pessoas. Trabalho com 430 crianças, onde 99% das famílias recebem o Bolsa-Família. Mas isso não muda a vida delas. Chego a conclusão de que as políticas públicas são mal feitas. Não são feitas para melhorar e durar. È sempre político e eleitoreiro. Não só no atual, mas em todos os governos!
J.C.: Por que você acha que isto ocorra?
Y.B.M: Porque aqui se pensa curto, muito curto! No meu entender, o Brasil tem, hoje, uma população enorme, onde milhares de crianças e jovens não conseguem participar de um mercado de trabalho real porque não têm qualificação. Assim o sistema empurra quatro milhões de crianças e jovens para o mercado informal.
As empresas querem que os funcionários tenham segundo grau, mas só 35% dos brasileiros o tem. As coisas não estão corretas.
J.C.: Acredita, então, que a falta de oportunidade possa levar à criminalidade?
Y.B.M: Com certeza. No Projeto Uerê, há sete ou oito anos não temos um caso de gravidez precoce, nem paternidade irresponsável. Mas como se consegue isso? Muito simples: todos os meus alunos sabem que com 15 anos vão fazer um estágio. Eles tem o sonho garantido. Isso faz com que eles tomem mais cuidado com a própria vida. Precisamos ter isso de uma maneira mais global dentro do nosso país.
J.C.: O governo federal acaba de encerrar o projeto Primeiro Emprego porque não souberam formatá-lo de forma eficiente...
Y.B.M.: Não existe primeiro emprego! Não souberam, realmente, fazer o projeto. Falta interesse e especialistas em políticas públicas. O dia que acabarem os cabides de empregos nos serviços públicos, vai melhorar. Porque, geralmente, quem adota essa prática não são os gestores e sim os políticos, que, na maioria das vezes, não tem qualificação alguma!
Você exige que o jovem tenha o segundo grau para entrar em uma empresa que tem o ISO9000, mas isso não é exigido de um político! Por quê? Não consigo entender isso. Acho cruel.
J.C.: O Darcy Ribeiro dizia que se uma vaca ou um cavalo surgir de repente em uma rua, em cinco minutos vão providenciar a remoção do animal, porque é algo insólito. No entanto, o mesmo não ocorre com milhares de pessoas nas ruas. Isso não choca mais.
Y.B.M.: É verdade. O caos no transporte, por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, muitas vezes provoca essa situação. Se o indivíduo mora na Baixada e tem que trabalhar na Zona Sul ou no Centro do Rio, ele vai demorar tanto no trajeto de ida e volta do trabalho que ele prefere morar na rua. Por exemplo, na Maré, onde eu trabalho, se você for trabalhar no centro todos os dias, terá que gastar R$ 215,00 só de passagem. Sendo assim, quanto você teria que ganhar? R$ 380,00? Então esse sistema é caro para as massas, não funciona e empurra as pessoas para as ruas. Pode ter certeza que muita gente que poderia, em condições normais, voltar para casa, não volta. Daí vai ficando, ficando... até que fica de vez. É uma sociedade cruel.
J.C.: Qual o número estimado de crianças nas ruas?
Y.B.M: 1500. Por que deixá-las? Só no projeto que eu tenho na Baixa do Sapateiro são 1620. Não entendo porque tem essas 1500 crianças nas ruas.
J.C.: Então o que falta é vontade política?
Y.B.M.: Vontade política e pessoas capacitadas para formatar as políticas públicas adequadas. Isso não tem. Elas são feitas por políticos sem qualificação.
J.C.: Muitas pessoas julgam o seu trabalho e acham que você está protegendo vagabundos. Como você poderia explicar a sua atividade para essas pessoas?
Y.B.M.: Falam muito mas não querem colocar a mão na massa. Vivem da teoria e eu da prática. Sou formada, tenho doutorado em filologia, sou uma especialista. Estudei para entender e descobrir maneiras de formatar políticas públicas eficientes no combate aos traumas da violência. Criticar é fácil, dar aulas para crianças, todos os dias, de oito da manhã às quatro da tarde... Isso eu faço! No começo as críticas me atingiram muito. Hoje acredito que melhorei algo, contribui para uma melhoria de uma camada pequena, mas gratificante, da sociedade. Hoje tenho estagiários do Brasil todo, buscando na minha metodologia uma maneira de ajudar as populações carentes em outras regiões do país.
J.C.: Diante de tantas dificuldades, onde você arruma tanta energia para trabalhar?
Y.B.M.: No idealismo. Cada criança que fala, que aprende, é uma vitória para mim! Eu faço a minha parte. Não é missão, no meu caso foi exemplo, minha mãe já trabalhava com isso. Comecei do nada, não tinha um tostão para isso. Passei por várias etapas para chegar no resultado de um projeto que funciona. O Brasil perpetua o que não serve.
Agora estamos fazendo 12 livros didáticos no Uerê, com a metodologia eficaz. Já temos o de Português e o de Matemática. Isso é gratificante para mim.
J.C.: Você é uma ilustre vizinha, moradora do bairro do Flamengo. Passou muitos anos trabalhando com meninos de rua em Copacabana. Qual a sua relação com o bairro hoje?
Y.B.M.: Copacabana foi o bairro da minha infância e juventude. Eu morava no Leme perto da Avenida Princesa Isabel. Todos os dias, quando via a abertura da novela Paraíso Tropical, recentemente, me emocionava com a paisagem de Copacabana.
Me lembrou das tardes no cinema Ryan e dos namoricos na última fila.
O Restaurante Caravelle onde, depois do cinema, íamos comer Banana Split e era uma festa da garotada!
Me lembro das manhãs paquerando os garotos da rede de vôlei do Posto 6 e das competições do Copa-Leme e outras organizações esportivas de Copacabana.
Eu era baliza do Copa-Leme. Andava de patins na praia de Copacabana e foi ali onde comecei o meu primeiro trabalho voluntário com meninos na rua, num grupo de mendigos na rua Princesa Isabel. Um dos meninos foi adotado pela minha família ainda bebê. Nasceu no banheiro da Taberna do Leme. Enfim, Copacabana me formou e ali aprendi tantas coisas... O meu primeiro emprego com 15 anos foi na sala do turista na Praça do Lido. Quantas vezes brinquei e me balancei naquela praça... Hoje fico mais pelo Flamengo... Mas adoro Copacabana.
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