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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

No dia 8 de março vamos celebrar mais um Dia Internacional da Mulher. Ele começou na virada do século XX, durante o processo de industrialização e expansão econômica quando elas trabalhavam em fábricas de vestuário e indústria têxtil sob más condições de trabalho, tratamento indigno e salários reduzidos. Diante da situação, elas iniciaram protestos em 8 de Março de 1857, em Nova Iorque. 
Mas foi o feminismo na década de 1960 que fortaleceu a data e só em 1975 o dia recebeu oficialmente o nome de Dia Internacional da Mulher.
O tempo passou e as mulheres lutaram por igualdades que, finalmente foram conquistadas, mas ainda há muito a ser feito.

O Jornal Copacabana homenageia as mulheres através da poesia de Cora Coralina dedicada ao Ano Internacional da Mulher em 1975. 

Mulher da vida, minha irmã
Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos, apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa. Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas, Escorchadas.
Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos, pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor sombria, sementeira espinhal gerada nos viveiros da miséria, da pobreza e do abandono, enraizada em todos os quadrantes da Terra.
Um dia, numa cidade longínqua, essa mulher corria perseguida pelos homens que  a tinham maculado.
Aflita, ouvindo o tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras, ela encontrou-se com a Justiça.
A Justiça estendeu sua destra poderosa e  lançou o repto milenar:  “Aquele que estiver sem pecado  atire a primeira pedra”.
As pedras caíram e os cobradores deram s costas.
O Justo falou então a palavra de eqüidade: “Ninguém te condenou, mulher... / nem eu te condeno”.
A Justiça pesou a falta pelo peso do sacrifício e este excedeu àquela.  Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada, ela é a muralha que há milênios detém as urgências brutais do homem para que na sociedade possam coexistir a inocência, a castidade e a virtude.
Na fragilidade de sua carne maculada esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis e sem proteção legal, ela atravessa a vida ultrajada e  imprescindível,
pisoteada, explorada, nem a sociedade a dispensa nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher, que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.
No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça do Grande Juiz.
Serás remida e lavada de toda condenação.
E o juiz da Grande Justiça a vestirá de branco em novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida humilhada e sacrificada para que a Família Humana
possa subsistir sempre, estrutura sólida e indestrutível da sociedade, de todos os povos,  de todos os tempos.
Mulher da Vida, minha irmã.
Declarou-lhe Jesus:  “Em verdade vos digo / que publicanos e meretrizes / vos precedem no Reino de Deus”. / Evangelho de São Mateus 21, ver.31.