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Gringo Cardia
Por
Renata
Moreira Lima
Referência
da cenografia brasileira, Gringo Cardia deixou a assinatura
nos mais diversos trabalhos em teatro, dança, shows,
espaços culturais,e até no Museu das Telecomunicações,
organizando o acervo de forma a atrair o público. Reconhecido,
respeitado e admirado no meio em que trabalha, o gaúcho
veio para o Rio de Janeiro sem muito dinheiro e optou pelo
curso de arquitetura, deixando de lado o sonho pelas artes.
Mas o talento fez Gringo voltar às origens e se tornar
o artista preferido das estrelas. Ao longo dos anos, o cenógrafo
trabalhou com nomes como Rita Lee, Elza Soares, Agnaldo Timóteo,
Chico Buarque e, até, com a Xuxa. Ele não esconde
o amor ao bairro de Copacabana e encontrou um tempinho entre
as mil e uma tarefas que executa diariamente, para receber
o Jornal Copacabana, na casa dele, no Bairro Peixoto. Confira
a entrevista.
Jornal
Copacabana: A primeira escola de Desenho Industrial doBrasil
foi fundada em 1960. De lá para cá aumentou
a procura pela cenografia e o design. Fale dessa evolução.
Gringo Cardia: Acho que esse boom se deu
em função de uma explosão visual que
aconteceu dos anos 60 pra cá, quando as tecnologias
de mídia e comunicação ganharam força.
Com isso houve uma valorização da imagem e assim
a procura pelos trabalhos nessa área, além do
surgimento de novas profissões, apareceram os computadores
e a multiplicação deles...
J.C.: Esse foi outro ponto importante. As inovações
acontecem em tempo recorde. O que hoje é uma tecnologia
de ponta, daqui a um mês está obsoleta...
G.C.: É verdade. O computador e a tecnologia revolucionaram
a imagem. Agora ela está dentro da casa das pessoas.
Virou um acesso individual de quase todo mundo ao mundo inteiro.
Isso tudo revolucionou e deu força à imagem,
assim as pessoas começaram a se interessar mais por
ela e por trabalhar com áreas ligadas à ela.
J.C.: Com essa revolução tecnológica,
o computador faz a diferença ou o talismã continua
sendo o caderninho?
G.C.: Atrás de qualquer computador tem que ter
uma cabeça, uma idéia. O computador fez diferença
porque foi um novo instrumento, acrescentou ao caderninho.
Sou da época da tesoura, tudo era recortado, colado
e ia para o fotolito. Passei por essa revolução
e acho que, no começo, as pessoas se deslumbraram um
pouco, mas com o tempo elas perceberam que o importante é
ter conteúdo. A criação vem daquela pessoa
que está com o caderninho na mão. Vivo cercado
de papeis, na minha casa é cheia! (risos).
J.C.: Você tem cerca de 25 caderninhos. Quando vai
expô-los?
G.C.: Vou realmente fazer essa exposição
dos meus trabalhos, em setembro, no Centro Cultural dos Correios,
no centro da cidade. Estou nervoso, pois sou o curador e tenho
que escolher os trabalhos, é muito difícil escolher
quais, sou muito apegado a todos. Alguns por questões
sentimentais e outros porque eu gosto. Ou seja, vou colocar
os caderninhos lá! Não só eles, mas também
as fontes de inspiração. Essas coisas que vou
catando pela rua ou nas minhas viagens, que me inspiram. É
bom para as pessoas verem que a inspiração pode
vir das coisas mais simples.
J.C.: Você, então, não tem rituais
de inspiração.
G.C.: Gosto de observar as pessoas, de andar pelo Centro.
Me atraio pela criatividade delas... Acredito que todos somos
artistas! Quando se fala que artista é especial, eu
não concordo, acho as pessoas muito criativas... Tem
gente que representa alguma coisa do seu interior cozinhando,
arrumando um lugar... Há mil maneiras de ver a arte,
ela é mais abrangente do que é classificada.
A inspiração vem das ruas, vim morar em Copacabana
por isso.
J.C.: Veio do Sul direto para Copacabana?
G.C.: Não. Estou aqui há 10, 12 anos. Morei
em Santa Teresa, depois vim para um aparte hotel na Santa
Clara e logo depois para o Bairro Peixoto. Aqui é maravilhoso!
Uma Bat-Caverna em Copacabana! Todo mundo acha
que aqui é uma favela, mas não é verdade:
tem lugares legais e outros confusos. Mas acho melhor do que
outros que são totalmente Fakes (falsos).
J.C.: Vamos fazer uma brincadeira: se os governantes se
unissem em um projeto para lançar a Copacabana ideal
- aproveitando o que tem hoje - e convidassem você para
fazer, aceitaria o desafio?
G.C.: Eu acho difícil, Copacabana ideal não
existe, gosto muito daqui mas tem muita gente diferente! Mas
podemos imaginar. Acho que a comunicação aqui
é confusa, se você quer pedir uma comida em casa
é dificílimo, a infra-estrutura poderia mudar...
Achei bem bacana a remodelagem da praia, com os novos quiosques,
limpou o ambiente. Nesse projeto eu não deixaria ter
tantos eventos na orla, acho isso um crime, virou canteiro
de obras: termina uma, começa outra! Devia ser proibido!
Acho legal eventos culturais, mas deveria ser evitado o maltrato
da areia. Se eu mudasse Copacabana, tiraria o trânsito
da praia. Não sei nem se seria viável pelo fluxo
de carros, mas deveria haver uma reeducação,
as pessoas poderiam andar mais de bicicleta... A praia seria
um grande boulevard para passear e apreciar.
Faria, também, mais eventos para a terceira idade.
Há muitos idosos no bairro e eles não têm
muito o que fazer, podia ser mais transado isso, mais valorizado.
Copa é a Nova Iorque latina!
J.C.: Copacabana tem uma assinatura sua?
G.C.: Fiz a reforma da sala Badem Pawell, na administração
da Stela Miranda, mas já foi descuidada. Fizemos um
painel gigante do Geléia da Rocinha, mas a administração
que veio depois ignorou o projeto e tornou decadente algo
que tínhamos valorizado.
J.C.: O que gosta de fazer aqui?
G.C.: Andar na praia, ir ao cinema, restaurantes como
o Damici, no Leme, Da Bambrini. E gostava de ir ao Copa Café,
mas da última vez fui tão maltratado que não
vou mais. Aqui é difícil encontrar um lugar
que concilie boa comida e bom atendimento, é um problema.
J.C.: O que naturalmente deveria acontecer, até
porque é um bairro turístico!
G.C.: Pois é. E para o próprio turista é
complicado, não tem um atendimento direcionado, nem
facilidades. Aqui não tem casas de câmbio à
vista, nunca vi isso! Você vai à Tailândia,
por exemplo, onde tudo é feito para o turista, encontra
tudo, facilmente! Aqui é uma dificuldade. Achei legal
abrirem novos albergues, o que trouxe um público alternativo
e um resgate ao turismo do bairro, pois, infelizmente, os
turistas dos hotéis, com dinheiro, não querem
mais vir para Copacabana, estão preferindo Ipanema
e, até, a Barra.
Fora que o policiamento é horrível, inclusive
aqui no Bairro Peixoto. E quando você solicita um efetivo
para o lugar, eles dizem que não podem fazer nada,
que tem que levar para a reunião com a comunidade.
Mas o legal de Copacabana é que ela tem um ar de anos
50, arquitetura refinada só tem aqui... Melhor do que
essas coisas pasteurizadas que estão na moda.
J.C.: Copacabana não perde a majestade...
G.C.: O Rio mais cosmopolita é Copacabana! Todos
convivendo em harmonia. É um laboratório
social do que o mundo vai ser, assim como Nova Iorque, que
é uma cidade do mundo.
Gosto muito de viajar, e quando vou preencher a ficha do hotel
e escrevo Copacabana a pessoa que me atende fecha os olhos
e suspira: Copacabana... Como quem diz: você mora no
paraíso! Adoro isso! (risos). A terra prometida do
lazer e da beleza, é uma referência mundial!
J.C.: Falando em referência, você é
uma na área de design e cenografia. O que é
preciso para não perder o tempo, as tendências
e as referências na profissão e manter-se como
um dos melhores?
G.C.: Tem que se interessar por tudo o tempo todo. Estar
ligado no que está acontecendo. Ser curioso, querer
aprender, isso é estar vivo! Assim você mantém
a juventude, trocando idéias com ex-alunos, assistentes,
pessoas novas do mercado. Desde pequeno tenho o sonho de conhecer
todos os lugares do mundo! Sinto a diferença até
aqui, eu viajo e fico muito tempo fora, quando volto, as coisas
mudaram. Tem que estar atento!
J.C.: Se eu fosse uma estudante de cenografia e tivesse
a possibilidade de conversar com você e perguntasse:
o que preciso para ser como Gringo Cardia?
G.C.:
Eu diria que, pela minha experiência, é preciso
escolher uma profissão. Eu fiz arquitetura e acho que
foi fundamental para me dar uma base. É necessário
saber as regras para depois desconstruir. Eu desenhava quando
pequeno, ao chegar no Rio tive que escolher entre arte e arquitetura,
optei pela segunda por uma questão financeira. Minha
família não tinha muito dinheiro e eu teria
que ganhar, logo achei melhor não ser um artista pobre!
(risos). Mas acabei abandonando a faculdade depois de um tempo,
pois eu gostava mesmo de arte. Mas a arquitetura abriu meu
leque profissional. Fui para artes gráficas, cenário,
vídeo, design industrial, tudo.
J.C.: Falou da importância de ter uma profissão,
mas, ao mesmo tempo, você trabalha em várias
áreas.
G.C.: Peguei o início da explosão visual
que já comentamos e, antigamente as pessoas questionavam
sobre qual era a minha profissão. Chamavam de multimídia,
mas hoje essa nomenclatura caiu, pois todo mundo, praticamente,
sabe fazer várias coisas hoje em dia. Muitas vezes
por falta de dinheiro, que é uma realidade. Mas é
uma tendência. Acho chato especialista ! Antigamente
o médico te curava por inteiro e era eficiente. Depois
que segmentou, o cara olha só para o raio-x, nem vê
a sua cara. É fundamental fazer arquitetura para trabalhar
com cenário, mas sou a favor que não fique limitado
no trabalho. Pelo menos é isso que passo para os meus
alunos.
J.C.: Da escola Spectáculo...
G.C.: É. São alunos desse projeto, que é
meu e da Marisa Orth.
J.C.: Que mora, também, no Bairro Peixoto?
G.C.: É. A Marisa é uma grande amiga querida
que mora metade da semana em São Paulo e a outra metade
aqui na minha casa. Tivemos a idéia do Spectáculo
porque conseguimos realização no nosso trabalho
e acreditamos que quem tem acesso, tem sorte e quem tem sorte
tem que dividir. A mudança tem que vir de cada um.
Escolhemos a escola porque a educação é
péssima no Brasil. Abrimos uma que ensinasse o que
fazemos, para moradores das favelas e comunidades da Baixada
Fluminense. São mais de 64 comunidades. A escola fica
no cais do porto. Quando completam o curso, arrumamos estágios
para eles no mercado. Para os 860 alunos, conseguimos mais
de 1100 vagas no mercado de trabalho ao longo de sete anos.
Lá tem produção, montagem, iluminação...
O Rio é uma cidade de eventos, não falta mercado
para esses meninos! Depois, abrimos o núcleo de arte
e tecnologia, onde tem computação gráfica
e artes visuais. Foi uma revolução em projetos
sociais, porque colocamos equipamentos de primeira qualidade,
algo inédito, para que os alunos possam competir no
mercado de trabalho. O projeto funciona no Rio, em Recife
e Salvador.
J.C.: Além desse você participa de outros
projetos...
G.C.: Sou diretor de arte do Afro Reggae, estamos fazendo
um núcleo grande em Vigário Geral e Parada de
Lucas. Trabalho com a CUFA (Central Única das favelas),
em Madureira, onde faço o prêmio de hip-hop e
cultura negra, há oito anos.
J.C.: Ou seja, você joga nas 15!
G.C.: É... Tem ainda a Exposição
Estética da Periferia, que são as artes das
periferias das cidades. Fiz uma no Centro Cultural dos Correios
e agora estamos fazendo em Recife, com as periferias e favelas
de lá. Ano que vem será a vez de São
Paulo.
E a exposição Amazônia Brasil, que está
circulando pelo mundo inteiro. Essa é em parceria com
todas as Ongs da Amazônia. Em abril do ano que vem estará
em Nova Iorque. Já esteve na França, Suíça,
Alemanha. São as experiências positivas de quem
está trabalhando e fazendo acontecer na Amazônia.
Acho que hoje meu trabalho é metade no terceiro setor
e metade com os artistas.
J.C.: Onde você encontra tempo?
G.C.: Tenho muitas equipes, são cerca de 40 pessoas
trabalhando comigo. Tenho um escritório, mas as pessoas
podem trabalhar em casa hoje em dia, o que facilita muito.
J.C.: Você vai de Xuxa a Elza Soares com facilidade...
Como é isso?
G.C.: O mais importante é não ter preconceito.
Você pode nem gostar de algo, mas tudo tem o seu valor.
Não gosto de coisas que não tenham ética
ou sejam preconceituosas. Aprendi com os Sertanejos. Eu era
moderninho demais quando eles me chamaram para dirigir um
show. Aceitei o desafio e aprendi a ouvir as pessoas. Isso
trouxe um crescimento pessoal e profissional. Ética
sem preconceito. Você tem que ser contra pessoas que
fazem o mal, não contra o estereótipo: há
mauricinhos legais, quem está na favela não
é bandido. Não podemos taxar e generalizar as
pessoas. Gosto de trabalhar com o que é bem, otimista.
Temos que ter esperança, mesmo com essa descrença
no futuro com o estrago que estamos fazendo com a terra.
J.C.: Deixe seu recado para os leitores.
G.C.: Gosto muito daqui. Preservem nosso bairro que é
tão legal e precisa que a gente cuide. Valorizar é
fundamental. Tentar preservar e respeitar, principalmente
o pessoal da terceira idade, é preciso ter mais educação,
participar mais da vida comunitária e respeitar seu
vizinho. Poderia ser feito uma feira para as pessoas trocarem,
seria uma maneira de uní-las, de se conhecerem. E lembrem-se:
Copacabana está na moda, sempre!

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