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Morador de Rua
"Gostaria de pedir encarecidamente as autoridades do bairro de Copacabana que fosse até a Rua Belfort Roxo, esquina com Av Atlântica, onde uma senhora (moradora de rua) fixou residência. Esta senhora possui uma criação de gatos, cada vez maior, colocando em risco de doenças as pessoas que freqüentam a praça do Lido, principalmente as crianças. Lembro que esta senhora chegou ali há alguns anos naquela calçada com um guarda-sol e hoje ela tomou conta da calçada quase toda impedindo até pedestres de transitar, sem contar com o mau cheiro insuportável de gatos e suas fezes. Por favor, vejam que isso esta acontecendo quase na esquina de uma das avenidas mais lindas do mundo, Onde estão as autoridades de Copacabana? Porque não transferem aquela senhora para um abrigo onde ela possa ter mais condições de vida e os moradores, voltem a freqüentar a Praça do Lido, porque ela tem que viver com uma porção de gatos na esquina da Av Atlântica."
Ana - por email.
 
Fala Vizinho -Gringo Cardia 2007

Gringo Cardia

Por Renata Moreira Lima

Ilustre de Copacabana  2007 - Gringo CardiaReferência da cenografia brasileira, Gringo Cardia deixou a assinatura nos mais diversos trabalhos em teatro, dança, shows, espaços culturais,e até no Museu das Telecomunicações, organizando o acervo de forma a atrair o público. Reconhecido, respeitado e admirado no meio em que trabalha, o gaúcho veio para o Rio de Janeiro sem muito dinheiro e optou pelo curso de arquitetura, deixando de lado o sonho pelas artes. Mas o talento fez Gringo voltar às origens e se tornar o artista preferido das estrelas. Ao longo dos anos, o cenógrafo trabalhou com nomes como Rita Lee, Elza Soares, Agnaldo Timóteo, Chico Buarque e, até, com a Xuxa. Ele não esconde o amor ao bairro de Copacabana e encontrou um tempinho entre as mil e uma tarefas que executa diariamente, para receber o Jornal Copacabana, na casa dele, no Bairro Peixoto. Confira a entrevista.

Jornal Copacabana: A primeira escola de Desenho Industrial doBrasil foi fundada em 1960. De lá para cá aumentou a procura pela cenografia e o design. Fale dessa evolução.
Gringo Cardia: Acho que esse “boom” se deu em função de uma explosão visual que aconteceu dos anos 60 pra cá, quando as tecnologias de mídia e comunicação ganharam força. Com isso houve uma valorização da imagem e assim a procura pelos trabalhos nessa área, além do surgimento de novas profissões, apareceram os computadores e a multiplicação deles...
J.C.: Esse foi outro ponto importante. As inovações acontecem em tempo recorde. O que hoje é uma tecnologia de ponta, daqui a um mês está obsoleta...
G.C.:
É verdade. O computador e a tecnologia revolucionaram a imagem. Agora ela está dentro da casa das pessoas. Virou um acesso individual de quase todo mundo ao mundo inteiro. Isso tudo revolucionou e deu força à imagem, assim as pessoas começaram a se interessar mais por ela e por trabalhar com áreas ligadas à ela.
J.C.: Com essa revolução tecnológica, o computador faz a diferença ou o talismã continua sendo o caderninho?
G.C.:
Atrás de qualquer computador tem que ter uma cabeça, uma idéia. O computador fez diferença porque foi um novo instrumento, acrescentou ao caderninho. Sou da época da tesoura, tudo era recortado, colado e ia para o fotolito. Passei por essa revolução e acho que, no começo, as pessoas se deslumbraram um pouco, mas com o tempo elas perceberam que o importante é ter conteúdo. A criação vem daquela pessoa que está com o caderninho na mão. Vivo cercado de papeis, na minha casa é cheia! (risos).
J.C.: Você tem cerca de 25 caderninhos. Quando vai expô-los?
G.C.:
Vou realmente fazer essa exposição dos meus trabalhos, em setembro, no Centro Cultural dos Correios, no centro da cidade. Estou nervoso, pois sou o curador e tenho que escolher os trabalhos, é muito difícil escolher quais, sou muito apegado a todos. Alguns por questões sentimentais e outros porque eu gosto. Ou seja, vou colocar os caderninhos lá! Não só eles, mas também as fontes de inspiração. Essas coisas que vou catando pela rua ou nas minhas viagens, que me inspiram. É bom para as pessoas verem que a inspiração pode vir das coisas mais simples.
J.C.: Você, então, não tem rituais de inspiração.
G.C.:
Gosto de observar as pessoas, de andar pelo Centro. Me atraio pela criatividade delas... Acredito que todos somos artistas! Quando se fala que artista é especial, eu não concordo, acho as pessoas muito criativas... Tem gente que representa alguma coisa do seu interior cozinhando, arrumando um lugar... Há mil maneiras de ver a arte, ela é mais abrangente do que é classificada. A inspiração vem das ruas, vim morar em Copacabana por isso.
J.C.: Veio do Sul direto para Copacabana?
G.C.:
Não. Estou aqui há 10, 12 anos. Morei em Santa Teresa, depois vim para um aparte hotel na Santa Clara e logo depois para o Bairro Peixoto. Aqui é maravilhoso! Uma “Bat-Caverna” em Copacabana! Todo mundo acha que aqui é uma favela, mas não é verdade: tem lugares legais e outros confusos. Mas acho melhor do que outros que são totalmente “Fakes” (falsos).
J.C.: Vamos fazer uma brincadeira: se os governantes se unissem em um projeto para lançar a Copacabana ideal - aproveitando o que tem hoje - e convidassem você para fazer, aceitaria o desafio?
G.C.:
Eu acho difícil, Copacabana ideal não existe, gosto muito daqui mas tem muita gente diferente! Mas podemos imaginar. Acho que a comunicação aqui é confusa, se você quer pedir uma comida em casa é dificílimo, a infra-estrutura poderia mudar... Achei bem bacana a remodelagem da praia, com os novos quiosques, limpou o ambiente. Nesse projeto eu não deixaria ter tantos eventos na orla, acho isso um crime, virou canteiro de obras: termina uma, começa outra! Devia ser proibido! Acho legal eventos culturais, mas deveria ser evitado o maltrato da areia. Se eu mudasse Copacabana, tiraria o trânsito da praia. Não sei nem se seria viável pelo fluxo de carros, mas deveria haver uma reeducação, as pessoas poderiam andar mais de bicicleta... A praia seria um grande boulevard para passear e apreciar.
Faria, também, mais eventos para a terceira idade. Há muitos idosos no bairro e eles não têm muito o que fazer, podia ser mais transado isso, mais valorizado. Copa é a Nova Iorque latina!
J.C.: Copacabana tem uma assinatura sua?
G.C.:
Fiz a reforma da sala Badem Pawell, na administração da Stela Miranda, mas já foi descuidada. Fizemos um painel gigante do Geléia da Rocinha, mas a administração que veio depois ignorou o projeto e tornou decadente algo que tínhamos valorizado.
J.C.: O que gosta de fazer aqui?
G.C.:
Andar na praia, ir ao cinema, restaurantes como o Damici, no Leme, Da Bambrini. E gostava de ir ao Copa Café, mas da última vez fui tão maltratado que não vou mais. Aqui é difícil encontrar um lugar que concilie boa comida e bom atendimento, é um problema.
J.C.: O que naturalmente deveria acontecer, até porque é um bairro turístico!
G.C.:
Pois é. E para o próprio turista é complicado, não tem um atendimento direcionado, nem facilidades. Aqui não tem casas de câmbio à vista, nunca vi isso! Você vai à Tailândia, por exemplo, onde tudo é feito para o turista, encontra tudo, facilmente! Aqui é uma dificuldade. Achei legal abrirem novos albergues, o que trouxe um público alternativo e um resgate ao turismo do bairro, pois, infelizmente, os turistas dos hotéis, com dinheiro, não querem mais vir para Copacabana, estão preferindo Ipanema e, até, a Barra.
Fora que o policiamento é horrível, inclusive aqui no Bairro Peixoto. E quando você solicita um efetivo para o lugar, eles dizem que não podem fazer nada, que tem que levar para a reunião com a comunidade. Mas o legal de Copacabana é que ela tem um ar de anos 50, arquitetura refinada só tem aqui... Melhor do que essas coisas pasteurizadas que estão na moda.
J.C.: Copacabana não perde a majestade...
G.C.:
O Rio mais cosmopolita é Copacabana! Todos convivendo em “harmonia”. É um laboratório social do que o mundo vai ser, assim como Nova Iorque, que é uma cidade do mundo.
Gosto muito de viajar, e quando vou preencher a ficha do hotel e escrevo Copacabana a pessoa que me atende fecha os olhos e suspira: Copacabana... Como quem diz: você mora no paraíso! Adoro isso! (risos). A terra prometida do lazer e da beleza, é uma referência mundial!
J.C.: Falando em referência, você é uma na área de design e cenografia. O que é preciso para não perder o tempo, as tendências e as referências na profissão e manter-se como um dos melhores?
G.C.:
Tem que se interessar por tudo o tempo todo. Estar ligado no que está acontecendo. Ser curioso, querer aprender, isso é estar vivo! Assim você mantém a juventude, trocando idéias com ex-alunos, assistentes, pessoas novas do mercado. Desde pequeno tenho o sonho de conhecer todos os lugares do mundo! Sinto a diferença até aqui, eu viajo e fico muito tempo fora, quando volto, as coisas mudaram. Tem que estar atento!
J.C.: Se eu fosse uma estudante de cenografia e tivesse a possibilidade de conversar com você e perguntasse: o que preciso para ser como Gringo Cardia?
G.C.:
Eu diria que, pela minha experiência, é preciso escolher uma profissão. Eu fiz arquitetura e acho que foi fundamental para me dar uma base. É necessário saber as regras para depois desconstruir. Eu desenhava quando pequeno, ao chegar no Rio tive que escolher entre arte e arquitetura, optei pela segunda por uma questão financeira. Minha família não tinha muito dinheiro e eu teria que ganhar, logo achei melhor não ser um artista pobre! (risos). Mas acabei abandonando a faculdade depois de um tempo, pois eu gostava mesmo de arte. Mas a arquitetura abriu meu leque profissional. Fui para artes gráficas, cenário, vídeo, design industrial, tudo.
J.C.: Falou da importância de ter uma profissão, mas, ao mesmo tempo, você trabalha em várias áreas.
G.C.:
Peguei o início da explosão visual que já comentamos e, antigamente as pessoas questionavam sobre qual era a minha profissão. Chamavam de multimídia, mas hoje essa nomenclatura caiu, pois todo mundo, praticamente, sabe fazer várias coisas hoje em dia. Muitas vezes por falta de dinheiro, que é uma realidade. Mas é uma tendência. Acho chato especialista ! Antigamente o médico te curava por inteiro e era eficiente. Depois que segmentou, o cara olha só para o raio-x, nem vê a sua cara. É fundamental fazer arquitetura para trabalhar com cenário, mas sou a favor que não fique limitado no trabalho. Pelo menos é isso que passo para os meus alunos.
J.C.: Da escola Spectáculo...
G.C.:
É. São alunos desse projeto, que é meu e da Marisa Orth.
J.C.: Que mora, também, no Bairro Peixoto?
G.C.:
É. A Marisa é uma grande amiga querida que mora metade da semana em São Paulo e a outra metade aqui na minha casa. Tivemos a idéia do Spectáculo porque conseguimos realização no nosso trabalho e acreditamos que quem tem acesso, tem sorte e quem tem sorte tem que dividir. A mudança tem que vir de cada um. Escolhemos a escola porque a educação é péssima no Brasil. Abrimos uma que ensinasse o que fazemos, para moradores das favelas e comunidades da Baixada Fluminense. São mais de 64 comunidades. A escola fica no cais do porto. Quando completam o curso, arrumamos estágios para eles no mercado. Para os 860 alunos, conseguimos mais de 1100 vagas no mercado de trabalho ao longo de sete anos. Lá tem produção, montagem, iluminação... O Rio é uma cidade de eventos, não falta mercado para esses meninos! Depois, abrimos o núcleo de arte e tecnologia, onde tem computação gráfica e artes visuais. Foi uma revolução em projetos sociais, porque colocamos equipamentos de primeira qualidade, algo inédito, para que os alunos possam competir no mercado de trabalho. O projeto funciona no Rio, em Recife e Salvador.
J.C.: Além desse você participa de outros projetos...
G.C.:
Sou diretor de arte do Afro Reggae, estamos fazendo um núcleo grande em Vigário Geral e Parada de Lucas. Trabalho com a CUFA (Central Única das favelas), em Madureira, onde faço o prêmio de hip-hop e cultura negra, há oito anos.
J.C.: Ou seja, você “joga nas 15”!
G.C.:
É... Tem ainda a Exposição Estética da Periferia, que são as artes das periferias das cidades. Fiz uma no Centro Cultural dos Correios e agora estamos fazendo em Recife, com as periferias e favelas de lá. Ano que vem será a vez de São Paulo.
E a exposição Amazônia Brasil, que está circulando pelo mundo inteiro. Essa é em parceria com todas as Ongs da Amazônia. Em abril do ano que vem estará em Nova Iorque. Já esteve na França, Suíça, Alemanha. São as experiências positivas de quem está trabalhando e fazendo acontecer na Amazônia. Acho que hoje meu trabalho é metade no terceiro setor e metade com os artistas.
J.C.: Onde você encontra tempo?
G.C.:
Tenho muitas equipes, são cerca de 40 pessoas trabalhando comigo. Tenho um escritório, mas as pessoas podem trabalhar em casa hoje em dia, o que facilita muito.
J.C.: Você vai de Xuxa a Elza Soares com facilidade... Como é isso?
G.C.:
O mais importante é não ter preconceito. Você pode nem gostar de algo, mas tudo tem o seu valor. Não gosto de coisas que não tenham ética ou sejam preconceituosas. Aprendi com os Sertanejos. Eu era moderninho demais quando eles me chamaram para dirigir um show. Aceitei o desafio e aprendi a ouvir as pessoas. Isso trouxe um crescimento pessoal e profissional. Ética sem preconceito. Você tem que ser contra pessoas que fazem o mal, não contra o estereótipo: há mauricinhos legais, quem está na favela não é bandido. Não podemos taxar e generalizar as pessoas. Gosto de trabalhar com o que é bem, otimista. Temos que ter esperança, mesmo com essa descrença no futuro com o estrago que estamos fazendo com a terra.
J.C.: Deixe seu recado para os leitores.
G.C.:
Gosto muito daqui. Preservem nosso bairro que é tão legal e precisa que a gente cuide. Valorizar é fundamental. Tentar preservar e respeitar, principalmente o pessoal da terceira idade, é preciso ter mais educação, participar mais da vida comunitária e respeitar seu vizinho. Poderia ser feito uma feira para as pessoas trocarem, seria uma maneira de uní-las, de se conhecerem. E lembrem-se: Copacabana está na moda, sempre!