Censura ?
"By the pricking of my thumbs, something wicked this
way comes."
(Segunda Bruxa, Ato IV Cena I, Macbeth)
Fatalista sem ser shakespeariana, a comunicação
de massa - alternando sua performance entre o lacrimoso papel
de vítima ou de desarrazoada pitonisa - retoma, em
seu repertório, depois de uma longa temporada fora
dos palcos, a censura, vetusta vilã.
Falsear ou amordaçar a informação por
critérios políticos, estratégia ancestral
do Estado, ou por juízo moral, subterfúgio das
religiões, é um contínuo histórico.
Esse consagrado instrumento de controle social ou, não
raro, de intimidação, já foi esvaziado
à exaustão por intelectuais. Por que voltar
à cena, e de maneira tão avarenta e silvestre?
No Santo Ofício da Inquisição, no Index
Librorum Proibitorum, na China, na Rússia, durante
a guerra da Criméia, nas guerras mundiais, na do Vietnã,
ou na invasão do Iraque, a censura sempre desempenhou
- e continuará desempenhando - seu papel de gestora
e mantenedora de uma desejada ordem institucional. Tanto faz
se em regimes totalitários, democráticos ou
pseudos; de esquerda, de centro ou de direita; parlamentaristas,
monarquistas ou republicanos.
Já distante em um Brasil silvícola, recém-apoderado
pelos portugueses, chegavam, por via marítima, as primeiras
regras de censura impostas pelos colonizadores e que perduraram
até a segunda metade do século dezoito! Nesse
período, a censura seguia princípios religiosos,
e o que era bom para Portugal era melhor ainda para o Brasil,
não obstante os nativos lusitanos Gil Vicente e Camões
tenham sido, por várias vezes, amordaçados.
Livros já foram perigosos panfletos de hereges que
feriam e ameaçavam a verdadeira fé católica.
Nos tempos modernos, a ditadura Vargas chegou ao ridículo
de censurar Peter Pan e seu cúmplice brasileiro, Monteiro
Lobato. Getúlio tinha lá suas razões...
Todavia, indiscutivelmente, o auge da censura deu-se a partir
da metade do século XX, acompanhando, nos mesmos largos
passos, o desenvolvimento tecnológico e das comunicações.
A autoridade do Estado e o poder do capital se tornaram frágeis
e suscetíveis na mesma intensidade e rapidez da capacidade
de se disseminar informação. Tal percepção
norteou a ditadura militar, imposta em 64, que ministrou pródigas
e generosas lições, as quais, devidamente adaptadas,
são utilizadas até hoje, tanto à esquerda
quanto à direita.
Posto que no pós-iluminismo a censura diz respeito,
mais do que sempre e eminentemente, a interesses econômicos
de poder, é também fato que todo e qualquer
meio de difusão não se sustenta sem o investimento
dos anunciantes, estes sim grupos que exercem turbulenta pressão
na política e nas massas.
Igualmente patrocinador - e proprietário de alguns
veículos da mídia impressa e eletrônica
- o Estado, em suas três instâncias, também
impõe suas versões noticiosas à custa
de verbas não menos milionárias de publicidade.
Nesse contexto de subordinação econômica,
"censura" abandona todas as suas acepções
para tornar-se sinônima de "manipulação".
Vivemos a chamada "sociedade do conhecimento" -
termo cunhado pelas forças produtivas do capital -
onde a ciência e a técnica é que determinam
as extensões do poder. Se garimpar, armazenar, selecionar
e filtrar conhecimento e informação para depois
distribuir, não é depravação nem
perversidade na administração de negócios
(desde a revolução industrial) e nem na gestão
das crenças religiosas - portanto interferentes na
vida e nas relações das pessoas - porque seria
tão excêntrico e revoltante utilizar a censura
no comando de uma nação?
Desde Adão e Eva, no primeiro "cala boca"
da história dos humanos, enganar, deturpar, mentir,
esconder e omitir, nunca foram pecado. Só estratégia
de domínio.
Cinismo? Descaso pela moral vigente? Não, simplesmente
fatos.
Hipocrisia seria endossar certos lugares-comuns, tal qual
"transparência", como sendo idéia única
e essencial na condução de uma imaginada "democracia
ampla, geral e irrestrita", ou tolices decorrentes, assemelhadas
e afins que, histórica, bíblica e socialmente
nunca foram exeqüíveis.
Democracia, a datar de seu nascedouro, tem concepção
relativizada. E os conceitos, individual e social, de liberdade,
sempre esbarraram no limite do outro.
O estardalhaço que hoje se faz sobre uma possível
existência de censores de plantão ou, em outras
versões da mesma mídia, da iminente vigência
de uma censura prévia ou ainda - na variante do mesmo
tema - sobre a imposição de imaginosas ações
repressivas, nada acrescenta, nada esclarece, nada constrói,
nem mesmo destrói, pois é nada.
Falta substrato, falta inteligência, falta cultura.
Mala educación
"Eu me proponho a agitar e inquietar as gentes. Não
vendo pão, vendo fermento."
(Miguel de Unamuno, apesar de seu apoio aos militares de Franco)
Tomo emprestado um título de Almodóvar.
A única fala - em castelhano a enunciação
melhor se revela - que pode fazer entender esses tempos de
ausência de valor.
Um sentimento causado pelo coletivo vigente, "voluntariamente"
nivelado ao rés do chão, e pela afronta diária
que nos humilha, com sádico desdém, vinda dos
setores públicos.
Todavia, firmemente, abdico da vontade extremada de ficar
listando, esmiuçando ou conjecturando a respeito da
transgressão moral hodierna - que devasta e descaracteriza
as teorias e ensinamentos da ciência política
e da ética - tanto aqui, quanto aquém e além
do Tratado de Tordesilhas.
Incorporei ao meu cotidiano uma espécie de alienação
- da categoria "onde estou quem são vocês?"
- para o bem de minha salubridade intelectual, conservada
em plano diametralmente oposto ao status quo.
Pois sem remorsos supérfluos, toda a mídia já
supre e esbanja, em espaço e estardalhaço, minuciosa
visibilidade íntima dos histriões das tragicomédias
contemporâneas, inventando ou demolindo personas, a
depender da ideologia de seus patronos.
Assim é que a comunicação - como
parece estar sendo entendida na pós-modernidade - privilegia
apenas a cena, em sua fluidez de enunciados, abstraindo-se
do propósito da informação. Ao dar destaque
à cena e ao cenário, só se evidencia
o efeito - instável e mutante pela perda dos limites
morais - em remates de ações, resultados de
causas não vigiadas e reconhecidas.
Seria, portanto, admissível imaginar que a procura
sistemática das origens - quer seja pelo entendimento
determinante da interpretação aristotélica,
ou condicionante, como postula o empirismo - faria malograr
o caráter manipulador, obscuro e equívoco da
notícia, como hoje ela é difundida.
Quem sabe, até, pela relevância do método,
nesse insólito processo de arqueologia filosófica,
se pudesse resgatar o nascedouro da má educação.
Há má educação formal ou má
formação moral?
A tomar pelo comportamento das massas, acredito que ambas
as hipóteses remetem a um só lugar: a escola
- da alfabetização ao terceiro grau - no país,
cruelmente desqualificada e destruída no âmago
de sua verdadeira natureza ao longo das sucessivas e desastrosas
intervenções político-ideológicas,
a partir de 1965 com a celebração do nefasto
acordo MEC-USAID.
Política perpetrada, continuadamente, nas vãs
tentativas de correções que se sucederam e que
são canhestramente levadas a cabo até os dias
atuais.
Essa má educação, estratégica,
engendrou a incapacidade de raciocínio e suprimiu a
leitura crítica. Aliás, a leitura!
Como resultado, a bruxa-má fez brotar um Saber falso,
sustentado pela informação ligeira, fútil
e descartável. Mesmo a curiosidade natural foi desestimulada!
O discernimento, reprimido por anos de censura, gerou filhos
sinistros: o estado de espírito vazio e o de arrogância
onipotente.
A mala educación foi além: com o tempo, acabou
por camuflar perfis culturais e, para o sucesso da façanha,
transformou o ensino formal em mero dado estatístico,
desprovido de firme alicerce ou vestígio de consistência.
Sem a Escola (maiúscula), agora resta um tipo de aflição
pelas boas inteligências perdidas e, de carrego, ansiedade
pela compreensão dos processos de transformações
sociais que demandam a passagem de gerações
e mais gerações...
Talvez seja essa insatisfação intelectual -
da qual muitos, anônimos ou não, partilham -
a provocadora de uma insistente sensação de
cansaço.
Tal fadiga pode ser também um acometimento da busca
vã por referenciais perdidos, ou por um mínimo
de coerência... Quem sabe?
Então, por que não ser cínico em relação
à barbárie em vigor, ao comportamento descompromissado
de transgressores, à prosperidade do crime, e a todas
as funestas doenças sociais, abundantemente promovidas
ao estrelato nas abordagens quase sempre de superfície,
invariavelmente parciais e, muitas vezes levianas, da mídia,
a verdadeira senhora do poder?
Torna-se longo e trabalhoso julgar algo passível de
ser analisado sob diversos ângulos, necessariamente
de forma sistêmica, e este não é o objetivo
desta desopilação escrita.
O propósito do texto é o de prefaciar - dando
seqüência ao artigo anterior, O Concurso e o Discurso
- a importância daquela antiga escola que instigava,
que provocava, desafiava, e que fazia raciocinar e exigir.
Do picadeiro multicultural globalizado emergiram as 7
novas maravilhas do mundo.
Nenhuma surpresa: apenas a comprovação de que
a massa votante foi, mesmo, induzida pela mala educación
do marketing e de seu braço manipulador mais poderoso,
a comunicação, instrumentalizada pela tecnologia.
O acesso difuso a recursos tecnológicos nos países
que tiveram seus colossos eleitos, atuou tanto como agente
de persuasão como facilitador do escrutínio.
Curiosamente, os "candidatos" de nações
com baixos indicadores de conflitos econômicos e sociais
internos e graus mais elevados de educação formal,
apesar da tecnologia não se preocuparam, aparentemente,
em manifestar ufanismo naïf.
França, Inglaterra, Estados Unidos, Austrália
ou Japão.
Os monumentos "vitoriosos" são evidências
de povos em crise, do voto ingênuo, inculto e apaixonado,
e da orgânica necessidade de afirmação
individual e de nacionalidade.
Apesar dos pesares - e dos políticos que, rapidamente,
capitalizaram a oportunidade - indiscutivelmente, nenhum argumento
tira o mérito nem a beleza dos escolhidos: os já
canônicos Coliseu, Taj-Mahal e o nosso Cristo (nosso
e da Mitra Arquiepiscopal do Rio) e os merecedores Chichén
Itzá, Machu Picchu, Petra e a inimitável Muralha
da China.
E la nave va..... |