Foi
durante o café da manhã. Ainda passava manteiga
no cuscuz quando Gislene disparou:
- O nosso casamento acabou, Eduardo Alencar. Quero que você
saia de casa hoje mesmo.
Dudu entornou o leite na camisa. E apelou:
- Não tenho para onde ir, Gigi.
Gislene estava irreconhecível:
- Já falei com a sua mãe. Você fica por lá,
até montar casa.
Alencar passou um guardanapo na camisa polo. E enxugou também
uma lágrima furtiva. Gislene estava naqueles dias:
- Não adianta chorar, meu bem. Sua mala já está
lá na porta.
- Saio assim? Você não tem mais nada a me dizer?
- Depois, Alencar, depois. O ônibus da empresa já
está esperando no ponto.
***
O bilhete sobre a mesa era curto e grosso: "Passar no RH".
Alencar bateu com as juntas dos dedos na porta de vidro do aquário
do chefe. Esperou meia hora, enquanto o chefe despachava com a
secretária, e entrou suando frio. O bilhete pesava entre
os dedos.
- O que quer dizer isto, Alvarenga?
O chefe leu, soletrando:
- Pas-sar no RH.
- Significa que...
Alvarenga completou:
- ... você vai poder comprar aquela casinha no interior
para a velhice tranqüila, Alencar. Seu FGTS deve ter uma
boa grana.
***
Do RH ligou para o melhor amigo e marcou um chope para o fim
do dia. Chorar mágoas, desabafar. Coisas que a gente só
faz com aqueles que são do peito.
Chegou no bar de sempre à hora marcada. O garçom
já o esperava com o recado:
- O Paulo ligou. Mandou dizer que não vem.
- Ah, é? Deixou algum recado?
- Passou o telefone de um psicanalista. Disse que o cara é
especialista em dor-de-corno.
- Aquele filho da puta!
- E este outro número também. Disse que é
de um banco de empregos.
- Aquele filho da puta.
- E este endereço daqui. Disse que é um site bom
pra arrumar mulher.
***
Quando tudo dá errado, resta o colinho da mamãe,
que jamais nos falta. Dona Estefânia foi compreensiva, como
só as mães:
- Gislene é uma piranha, Dudu. Aquele teu emprego era
uma porcaria. Teus amigos são todos uns vagabundos irresponsáveis.
Muda de vida, meu filho. Muda de cidade.
- Tá bem, mamãe. Depois eu penso nisto. Vou deixar
a mala no meu quarto.
- Seu quarto? Há pelo menos dez anos você não
tem quarto aqui, Eduardo Alencar. Você pode deixar suas
coisas no escritório.
***
Os passos pesados de Alencar o levaram, depois de um bar e outro,
até o vão central da Ponte Rio Niterói. Findaram-se
as esperanças, não havia mais o que fazer além
de acabar com tudo nas águas sujas e profundas da Baía
da Guanabara.
Debruçado sobre a mureta, Eduardo Alencar chorou. Ergueu
os braços para o céu e soltou o berro, último
e solitário desabafo:
- Adeus, Gislene, mulher ingrata e insensível! À
merda você, Alvarenga, com sua pose de chefão e sua
empresa de lavagem de dinheiro! Paulo, falso amigo, que o diabo
o carregue. Adeus, minha mãe, que me negou um colo e um
teto! Adeus, mundo imundo! Vou para não voltar e onde quer
que eu vá, sei que vou...
Das entranhas de concreto da imensa ponte, a voz ecoou na noite
carioca:
- Leva a mal não, Alencar! Mas esse teu papo é
muito chato! Dá o fora, Alencar! Vai procurar tua turma!
Vai tomar um engov!