Desde
1914, Santos Dumont já demonstrava sintoma de uma doença
nervosa, que só fez se agravar com passar dos anos. Aos
problemas neurológicos se juntaram uma série de
fobias, uma delas causada pelas mortes ocorridas em acidentes
de aviação, das quais, sabe-se lá porque,
considerava-se responsável. O inventor do avião
esteve várias vezes no Brasil, onde sempre foi recebido
com muito carinho, mas, quando sentia seu mal piorar, viajava
para a Europa onde, frequentemente, se internava num sanatório
da Suíça. Em 1922/3, quando veio para os festejos
da comemoração do Centenário da Independência
do Brasil, muitos de seus amigos e parentes insistiram para que
ficasse definitivamente no Brasil, mas, não dando ouvidos
aos bons conselhos, retornou à Europa para repousar e se
tratar num sanatório.
Cinco anos depois, atendendo aos pedidos e, sentindo-se melhor,
regressou ao Brasil, onde adentrou na baía de Guanabara
no dia 3 de dezembro de 1928.
Muitos idosos se lembram do pavoroso desastre ocorrido nesta
data. Ao encontro do transatlântico Cap Arcona, em que ele
viajava, saíram diversos barcos embandeirados e alguns
aeroplanos, entre os quais um de nome Santos Dumont, da antiga
companhia Kondor Syndicat (depois Cruzeiro do Sul, e finalmente
incorporado à Varig).
Nesse hidroavião embarcaram os professores da Escola Politécnica
Drs. Tobias Moscoso (diretor), M. Amoroso Costa e Ferdinando Laboriau;
o engenheiro Paulo de Castro Maia; o presidente do Diretório
Acadêmico daquela escola, Frederico de Oliveira Coutinho;
o representante da Academia de Medicina, Dr. Amauri de Medeiros;
o jornalista Abel de Araújo, que se fazia acompanhar de
sua esposa; além dos pilotos, mecânicos e um funcionário
da Kondor.
Depois de fazer evoluções sobre o navio, derramando-lhe
flores no convés, desequilibrou-se o hidroavião,
ao desviar-se de outro aparelho, e, perdendo altura, precipitou-se
como um bólido sobre o mar, defronte ao navio, explodindo
e afundando em poucos segundos.
Lanchas, botes, canoas, que se achavam perto, acorreram a toda
velocidade para o local do sinistro. Mas foi tudo em vão.
Santos
Dumont, prostrado de comoção, desembarcou abatidíssimo.
"Quantas vidas sacrificadas por minha humilde pessoa"
- disse ele, olhando tristemente para o mar.
Fugindo dos festejos e discursos, pegou um automóvel com
destino à Copacabana, onde se internou no Copacabana Pálace,
de lá saindo apenas para participar do rescaldo dos mortos
e acompanhar os enterros, um a um, num total de doze féretros.
No hotel, não falava com ninguém e temia-se que
o gênio doente atentaria contra sua vida. Ficou na memória
de muitos o olhar perdido de Santos Dumont da janela do hotel,
defronte à praia, sem um ponto fixo no horizonte.
Meses depois, em 1929, sua família o levou de Copacabana
para São Paulo, onde afinal se matou, numa casa na praia
de Guarujá, a 23 de julho de 1932, três dias após
completar 59 anos.
Nem depois de morto encontrou a paz. No cemitério de São
João Batista, em Botafogo, onde foi inumado, seu túmulo
fica defronte ao memorial dos que morreram em acidentes de aviação.