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ANO XI - 2006

O “leblonzeiro” Oswaldo Montenegro

Oswaldo em foto de Renata Moreira LimaO que ele mais gosta de fazer é andar pelas ruas do Leblon, que considera um bairro na medida certa. As livrarias e cafés são refúgios para o inquieto Oswaldo Montenegro. Do bate-papo com amigos às composições confessionais, ele acumula sucessos ao longo de 26 anos de carreira. O “boom” entre os jovens da década de 80 deu lugar a um público fiel e diversificado. Quem nunca ouviu Bandolins, Agonia ou Condor. Agora a promessa de sucesso é na música Vamos Celebrar, do CD de canções inéditas que Oswaldo Montenegro acabou de lançar. A partir de agora você confere o que pretende Oswaldo Montenegro.

Jornal JÁ: Ano passado você lançou dois trabalhos. Esse ano vem com o CD A Partir de Agora. Fale sobre este novo trabalho.
Oswaldo Montenegro: O mais importante era lançar uma coisa nova! Ano passado foram dois discos de músicas antigas: a trilha de Léo e Bia, pela EMI, com convidados como Paulinho Mosca, Ney Matogrosso, Sandra de Sá, Zélia Duncan, e Oswaldo Montenegro - 25 anos, pela Warner. Ainda aconteceram quatro montagens de peças minhas. Eu estava enfastiado de trabalhos antigos, e louco para fazer um novo. Por isso nunca foi tão importante lançar um trabalho inédito quanto agora.
A característica marcante do disco é que ficamos dois anos gravando com uma banda que toca junto há anos, super entrosada. Composta por Alexandre Meu Rei, Caíque Vandera, Pedro Mamede e Madalena Salles. É um CD amaciado, bem trabalhado.
JÁ: A Partir de Agora conta, ainda, com participações de Zé Ramalho e Alceu Valença, não é?
O.M.: O Zé foi gravar a música Anjos e Demônios comigo para o disco Léo e Bia. Conversamos sobre o fato de nunca termos feito uma música juntos. Daí surgiu a vontade e a primeira parceria compondo.
A história com o Alceu foi outra. Fui gravar Cavalo de Pau, que é dele e, como sou muito fã, fiz uma música para ele que se chama Nem Todo Alceu é Valença, e ele gravou comigo.
JÁ: Você ainda não tem agenda para o Rio, não é?
O.M.:
Lançamos o CD para os amigos na livraria Argumento do Leblon, mas, por incrível que pareça, ainda estamos ensaiando o disco. Estamos roteirizando o show. Rio e São Paulo só em 2007.
JÁ: Você participou dos festivais da antiga TV Tupi e virou "febre" entre os jovens universitários. São 26 anos de carreira. Quem é o seu público hoje?
O.M.:
Continua sendo muito de universitários, mas diversificou. Tem o cara que foi influenciado pelo pai... Acho que varia de um estado para outro. Em São Paulo meu irmão tem um grupo de teatro e monta minhas peças com freqüência, então é um público muito jovem. Já em outros lugares do país é o pessoal de 30 anos...
Oswaldo e Paloma Duarte em foto de Vera DonatoJÁ: Você é um especialista em lançar sucessos. Qual acredita que será a música mais conhecida do novo CD?
O.M.:
Tem Quando a Gente Ama que foi da novela Sinhá Moça, e já ficou conhecida. Mas a mais popular para mim chama-se Vamos Celebrar.
JÁ: E o DVD? Quando fica pronto?
O.M.:
Vai sair em novembro. É um making off do CD com depoimentos, detalhes das gravações, a história de cada música... Está interessante e bem íntimo.
JÁ: O CD passado vendeu mais de cem mil cópias, foi CD de ouro... Essa é a resposta maior para o artista?
O.M.:
Não. Para mim a maior resposta está no quanto você pode atingir alguém e não em quantas pessoas vão saber a sua música. Há artistas que atingem, com eficiência, poucas pessoas, mas de grande valor... Esse disco ter vendido muito foi uma alegria, mas não me credencia a nada. Agora, se emocionou muito alguém, aí sim tive uma resposta!
JÁ: Você tem um extenso trabalho com espetáculos teatrais musicados. Tem projeto de fazer outros para o ano que vem?
O.M.:
Na verdade sou compositor, não teatrólogo. Escrevi as peças envolvidas em música, mas não flui. Acontece de muitos em muitos anos. Não é como a música, que flui naturalmente.
JÁ: Com 26 anos de estrada, como vê as influências de música eletrônica, hip-hop, funk e outros gêneros que vem sendo incorporados à musica brasileira?
O.M.:
Acho que pode-se misturar sons, isso está, realmente, cada vez mais incorporado na música brasileira. O Brasil é um país miscigenado e essa é a maior qualidade! Mas eu não penso muito quando estou compondo. O processo não é analítico. Deixo chegar no estúdio e fluir o melhor suingue. Se acabo seguindo uma linha é algo natural para mim... Esse jeitão vem sem querer.
JÁ: Você é carioca, mas morou em Brasília e Minas Gerais. Voltou ao Rio há anos. Como veio parar no Leblon?
O.M.:
Estou aqui desde 1980. Sou um "leblonzeiro". (risos) Moro no Alto Leblon, mas participo ativamente da vida do bairro. Gosto de andar, tomar café com os amigos... Desço a ladeira e percorro todo o bairro a pé. Sou um andarilho. De vez em quando eu paro. (risos)
JÁ: Gosta de andar e encontrar os amigos. Acredita que esse seja o espírito do carioca, principalmente da Zona Sul, ou ainda tem aquela história de "vamos marcar de fazer..."?
Leda Nagle, Paloma Duarte e Oswaldo Montenegro em foto de Vera DonatoO.M.:
Acho que é um pouco dos dois. O carioca continua sendo meio superficial, mas ao mesmo tempo é coloquial, simples, o menos cafona. O Leblon, especificamente não é grande como Copacabana, mas também não é pequeno demais. Tem uma oferta de livrarias, lojas de discos, cafés... Meu escritório é no Leblon, também.
JÁ: O contato com a leitura influencia na hora de compor?
O.M.:
Fico motivado quando assisto algo artístico que gostei muito. Um filme ou um quadro podem me dar vontade de compor.
JÁ: Você demonstra uma característica inquieta em suas músicas. Como se define artisticamente?
O.M.:
Muito inquieto realmente. Bandolins, por exemplo, tem um lirismo, mas está contando a história de uma louca que acha que está acompanhada, quando, na verdade, está dançando sozinha. Acho que sou marcado pela inquietude e por ser um compositor confessional. Conto sempre as coisas que aconteceram ou que eu vi.
JÁ: Como define o Oswaldo, a pessoa comum?
O.M.:
Um apaixonado por cinema. Adoro a trilogia de O Poderoso Chefão, Um sonho de Liberdade, os filmes do Al Pacino. Vejo muitos filmes. E estou com mania de ver canal e documentários de história. Mas sou, acima de tudo, um andarilho. É absurdo a quantidade de horas que eu ando por dia. (risos)

OSWALDO E AMIGOS NO LANÇAMENTO DO CD A PARTIR DE AGORA, NA LIVRARIA ARGUMENTO
FOTOS DE VERA DONATO

Oswaldo e Ana Botafofo  em foto de Vera Donato
Oswaldo e Bárbara Borges em foto de Vera Donato
Oswaldo e Roberto Bontempo em foto de Vera Donato
Oswaldo e Lúcia Alves em foto de Vera Donato

 

Bárbara e Carol: a renovação do vôlei de praia brasileiro

Bárbara Seixas e Carolina Aragão. Se você ainda não conhece essas meninas, guarde esses nomes, elas são promessas de renovação do vôlei de praia brasileiro. Fãs de Adriana Bahar e Shelda, Jaqueline e Sandra, as meninas de 19 anos já têm um currículo invejável: tricampeãs brasileiras e bicampeãs mundiais. Esse ano elas se sagraram campeãs mundiais na categoria Sub-21 e ganharam o direito de participar da etapa mexicana do Circuito Mundial Adulto. Encontram na comissão técnica o apoio para obter bons resultados. E na amizade, o segredo para o sucesso dentro da arena. A praia é a segunda casa de Bárbara e Carol, que contam um pouco mais de suas experiências e ambições aqui, nas páginas do JÁ. Confira a entrevista.

Carolina e Bárbara: de Ipanema para o mundo.Jornal JÁ: Como começaram a praticar vôlei de praia, quais as influências?
Bárbara: Comecei na praia aos 10, 11 anos. Sempre jogava vôlei com meu irmão e tínhamos um primo que fazia Escolinha Jorge Barros na praia. Em 2002 fui jogar vôlei de quadra no Flamengo. Foi quando o Fla lançou um projeto de vôlei de praia e voltei a jogar na areia.
Carolina: Comecei na quadra. Meu pai tinha um amigo que sempre dizia que eu era alta, que deveria fazer esporte, e deu a dica do vôlei no Bo-tafogo. Eu odiei a idéia, queria fazer basquete! Mas logo na primeira semana me identifiquei e adorei, não seria difícil de acontecer, amo todos os esportes! Fiquei apaixonada por vôlei! Só que acabou no Botafogo e fui para o Flamengo, que tinha um projeto para a praia e eu queria jogar na areia. O projeto não deu certo e acabou, mas continuamos jogando vôlei de praia com os técnicos José Carlos e a Alessan-dra, com quem estamos até hoje. Eles acreditaram na gente!
Jornal JÁ: Então se conheceram no Flamengo?
Bárbara: Conheci a Carol através da Bia, que era minha amiga e também fazia vôlei. Ficamos amigas muito rápido! A Bia era minha dupla na praia, mas mudou de categoria e acabei formando a dupla com a Carol.
Carolina: Joguei o Brasileiro de 2003 com a Carol Solberg (filha da Isabel), ficamos em segundo nesse campeonato que a Bárbara e a Bia ganharam. Mas a Bia é um ano mais velha e mudou de categoria, acabamos formando a nossa dupla. Em 2004 ganhamos o Campeonato Brasileiro, mas não fomos juntas para o Mundial.
Bárbara: É. Eu ia voltar a fazer dupla com a Bia, mas criaram o Sub-19. Daí ficamos juntas e ganhamos o Brasileiro e o Mundial. A Bia continua jogando.
Jornal JÁ: Quem são os ídolos do esporte?
Bárbara e Carolina: Têm muitos! O que não falta é gente boa no Brasil! Adriana Behar e Shelda, que são referência! Jackie e Sandra, que não dá para não citar! Ricardo e Emanuel, surpreendentes! Juliana e La-rissa que são exemplo pra gente porque se aproximam da nossa idade e são bicampeãs mundiais. Elas começaram junto com a gente e, hoje, são campeãs mundiais na categoria adulto. Nos espelha-mos nelas.
Jornal JÁ: Vocês vão entrar na categoria Adulto como as mais novas. Têm alguma estratégia para driblar essa dificuldade?
Bárbara e Carolina: Não encaramos como dificuldade, tentamos aproveitar a experiência. É preciso ter paciência. Fizemos o Circuito Brasileiro Adulto esse ano e éramos a dupla mais nova. Mas não somos bobas! Demos trabalho! É bom participar de campeonatos com veteranas porque ganhamos experiência para enfrentá-las quando mudarmos de categoria. As atletas do Sub-21 do mundo todo tem recursos, patrocínios e incentivos, por isso disputam a categoria adulto. Quando ganhamos o Campeonato Mundial desse ano, jogamos contra várias meninas muito fortes.
Jornal JÁ: O que é necessário para jogar e ser boa no vôlei de praia?
Bárbara e Carolina: Ter muita dedicação, disciplina, amar o esporte, ter companheirismo e paciência, que é fundamental. É difícil achar um parceiro perfeito. Nós temos uma química muito boa, não brigamos nunca, sabemos o que a outra está pensando sem precisar falar nada, nos entendemos bem.
Jornal JÁ: O segredo do sucesso da dupla Bárbara e Carol está na amizade?
Bárbara: Na amizade e na cumplicidade dentro de quadra.
Carolina: Em três anos parece que nos fundimos! (risos). Chegamos ao cúmulo de sairmos com as mesmas roupas. Vou encontrar a Bárbara em algum lugar e, quando vemos, estamos de calça jeans escura e blusa vermelha! É muita sintonia! (risos). Não odeio nada nela e vice-versa. Pelo contrário, gostamos das mesmas coisas.
Bárbara: É engraçado porque até nos vídeos é difícil saber quem é quem. Compramos os óculos no mesmo lugar, as viseiras são iguais! A única diferença é que eu sou canhota e a Carol é destra. Quando esta-mos avaliando um jogo eu falo: quem fez essa defesa? (risos).
Jornal JÁ: Qual é a rotina de treinos de vocês?
Bárbara e Carolina: treinamos duas horas por dia com bola e mais duas horas de parte física na academia ou na praia.
Jornal JÁ: A praia acaba sendo uma segunda casa de vocês?
Bárbara: É como se fosse! Eu moro aqui em Ipanema e a Carol em Botafogo. Jogamos em frente à Rua Vinícius de Moraes e nos fins de semana jogamos uma pelada em frente à Garcia D'Ávila.
Carolina: Mas quando tem muito treino na semana e ficamos muito esgotadas, fugimos totalmente da praia e vamos fazer outros programas! (risos)
Jornal JÁ: E como fica o tempo para namorar?
Carolina: É complicado. Viajo muito e tem os treinos... Teve época que via meu namorado quatro vezes por mês. Quando não estou me dedicando ao vôlei, tem a faculdade. Às vezes dá problema.
Bárbara: Estou com um jogador de vôlei, não tem muito problema.
Jornal JÁ: Que conselhos dariam às crianças que querem jogar vôlei de praia?
Carolina: Fazer qualquer esporte é sempre bom, é saudável! Se for vôlei de praia, melhor ainda!
Bárbara: Mas tem que ter disciplina. É bom porque a pessoa cresce muito, aprende a competir, lidar com outras pessoas, com as pressões, a ser mais responsável, e faz bem ao corpo.
Carolina: Mas para ser um atleta de ponta, tem que gostar do que faz!

 

Lidoka: uma frenética criatura

Texto e Fotos: Renata Moreira Lima

Abra suas asas, solte suas feras e entre nessa festa que é a vida de Lidoka. Ela teve que fingir que não gostava de dançar quando ainda era criança. Saiu de casa aos 23 anos para seguir o destino. Depois de ser uma Dzi Croquetta, Lidoka se transformou em Frenética e ajudou a escrever a história disco no Brasil. Hoje, se prepara para gravar o CD de comemoração dos 30 anos das Frenéticas, faz um espetáculo de poesia onde “voa pelos ares” e manufatura a Bandoca, bandeja de colo graciosa e de mil e uma utilidades. Lidoka recebeu o Jornal JÁ na casa dela, em Ipanema, para um bate-papo descontraído. Confira!

Jornal JÁ: Desde pequena você sabia que seria artista. Por que só se envolveu com a profissão aos 23 anos? Conte sua trajetória.
Lidoka: Eu vou contar essa história no livro A incrível História das Dzi Croquettas - As Fadas do Apocalipse, que pretendo lançar no início de 2007.
Mamãe tocava piano e eu dançava para as visitas. Eu podia dançar em casa, mas não podia fazer aula de dança. Meus pais me afastavam da arte. Eram de família tradicional italiana e diziam que artista era mulher de vida fácil! Ficava imaginando porque eu tinha que ter uma vida difícil! (risos). Era um problema pra mim. A primeira vez que fui a um espetáculo com meu pai eu era pequenina. Fomos ao Municipal e fiquei louca com aquilo, falando muito. Daí pararam de levar a mim e a minha irmã aos espetáculos. Nós éramos sócios do Clube Paulistano em São Paulo e, quando eu tinha dez anos, acho que Deus pegou meu pai pela mão e fomos assistir a um show lá no clube. Tinha o cartaz escrito: Bailarino e cantor Lenie Dale. Ele começou a cantar em português, mas com sotaque americano. Quando parou de cantar, começou um número de dança. Ali caíram todas as minhas fichas! Era lindo demais e eu vi que tinha nascido para dançar, era a minha vida! Fui pra casa quieta, porque eu não podia demonstrar que tinha me identificado tanto.
Eu tinha uma vizinha com 18 anos que tocava violão. Eu ia à casa dela para dançar, enquanto ela tocava. Ela me deu sapatilha, malha e eu levava para casa enrolado em uma toalha. Quando as pessoas saíam, eu colocava a roupa e ficava dançando. Até que, um dia, fui pega! Na minha memória eu apanhei muito da minha mãe, mas minha irmã diz que não. O trauma foi tão grande que é como se ela tivesse batido em mim. Fui proibida de dançar.
JÁ: Quando começou a dançar?
L: Aos 18 anos comecei a freqüentar boates e a me destacar pela dança. Eu ia à Tom-Tom (que fervia nos anos 70) e eles trouxeram um grupo chamado Dzi Croquettes. 13 homens vestidos de mulher, com uma filosofia andrógena e criticando o nazismo, a igreja, o poderio norte-americano, dançando muito, com umas maquiagens loucas... O grupo era coreografado pelo Lenie Dale. Eu o vi de perto, novamente, e fiquei encantada. O grupo se tornou referência e influenciou artistas contemporâneos. Era um sucesso em plena época da ditadura. Mas acabaram tendo que se exilar.
BandocaJÁ: Como você virou uma Croquetta?
L: O Wagner Ribeiro era responsável pela filosofia e músicas do grupo e convidou as tietes do Dzi Croquettes para fazerem uma versão feminina. Foi aí que eu entrei. Quando minha mãe soube, me disse: ou você alisa o cabelo, muda os seus amigos, suas roupas e vai trabalhar em banco, ou vai embora! Ela falou isso em um domingo de manhã e saiu. Quando voltou, eu não estava mais em casa. Foi um período muito difícil, mas hoje temos uma relação boa. As Dzi Croquettas foi o meu aprendizado de vida.
JÁ: O grupo durou três anos, não foi? E a transição para as Frenéticas?
L: Quando acabou o Croquettas, comecei a dar aula de dança, ensinava Ricardo Petráglia, Marta Suplicy e outros. O Lenie voltou de Paris e me convidou para fazer Madame Satã, que ele ia montar aqui no Rio. O espetáculo acabou não acontecendo, mas eu fiquei na cidade fazendo tricô e sapatilha de jazz para sobreviver. Morava com o Wagner, em Santa Tereza. Um dia, a Sandra Pêra me ligou, perguntando se eu queria ser garçonete. Perguntou se eu cantava... A Regina Chaves e a Leiloca também foram Dzi Croquettas (são três nas Frenéticas). Fomos à casa do Roberto de Carvalho (que estava começando a namorar a Rita Lee) para começarmos o primeiro ensaio.
JÁ: A idéia, então, foi montar um espetáculo com as garçonetes?
L: O Nelson Motta foi chamado para fazer algo cultural no Shopping da Gávea, em bairro residencial e precisavam chamar atenção para a novidade que era o shopping. Ele resolveu fazer a Discoteca Dancin’Days. Ele era casado com a Marilia Pêra e pediu à Sandra mulheres para servir como garçonetes e também receber os clientes. A Sandra convidou “cantrizes” (como costumo denominar a gente) para fazer um espetáculo. A idéia foi da Sandra Pêra de fazer a apresentação artística. E foi um sucesso!
Bandoca JÁ: Foi quando surgiram As Frenéticas!
L: Exatamente! Ao longo dos anos fomos rotuladas como as “Rainhas da Discoteca”, mas começamos cantando músicas como O Bom, do Eduardo Araújo, que era Jovem Guarda, Twist and Shout, Beatles e Back in Bahia, do Gil. Era algo totalmente diferente de tudo. Virou um sucesso! Foram três meses de estouro. Quando acabou a temporada no Dancin’Days, começamos a ensaiar O Trem da Alegria. Encontrei o Liminha, que nos convidou para fazer um teste na Ordem dos Músicos. Fizemos e conseguimos gravar um compacto simples. Tivemos mídia e fomos para a televisão cantando O Trem daAlegria de espartilho preto, uma revolução na época (figurino da Célia Camareiro). Nem as Chacretes usavam o maiô, ainda era short. O engraçado é que uma era alta, comprida, outra era gorda, não tinha essa visão estética de hoje em dia.
JÁ: Foi assim que veio o sucesso.
L: Nós encantamos o Brasil! Foi aí que o Nelsinho escreveu Perigosa para a Marília, e a Rita acrescentou ao refrão “louco, muito louco”, o “dentro de mim...”. Começamos esse movimento feminista no Brasil.
JÁ: Agora As Frenéticas estão completando 30 anos. Como vai ser a comemoração?
L: Fechamos com a Som Livre e vamos gravar um CD com hits, regravações e remix. De repente vamos gravar uma música minha, o que já despertou vontade de compor na Gabriela... O CD ainda não está definido, mas vai ficar bem bacana! É para 2007.
JÁ: Quais Frenéticas permanecem na formação atual?
L: Tem três da formação original: eu, a Edyr Duqui e a Dhu Moraes. Agora contamos com a renovação de Cláudia Borioni, Liane Maya e Gabriela Pinheiro. Duramos oito anos, de 76 a 82 tivemos o grupo completo, com seis integrantes. Até 84, Regina e Sandra saíram e ficamos em quatro, quando gravamos O Diabo a Quatro. Em 92, o Boni fez a música Perigosas Peruas e pediu que gravássemos para a novela, mas não estávamos ligadas ao grupo, foi uma volta relâmpago. Em 1998 comecei a perceber que a nossa memória estava se extinguindo para as novas gerações. As pessoas conheciam as músicas, mas não sabiam de quem eram. Foi quando resolvi juntar o grupo. Mas Regina, Sandra e Leiloca estavam com outros compromissos.
JÁ: Quando As Frenéticas começaram eram todas jovens na faixa dos 20 anos. O que muda agora?
L: Não muda. O que sempre diferenciou As Frenéticas e nos tornou únicas, foi o espírito da alegria, da irreverência, do deboche, do estar à vontade no palco, do brincar... E isso continua. Estamos rodando o Brasil desde 2001, sem mídia. Como diz o Camelo (de Los Hermanos): “o espaço é do buraco de uma agulha”.
JÁ: Hoje as pistas de dança deram lugar à música eletrônica. Como vocês encaram essa tendência?
L: Até o Djavan, que não tem nada a ver com esse estilo, hoje tem os seus remix. A música para tocar nas pistas tem que ter esse remix, sabemos disso. O nosso show, hoje, tem sucessos dos anos 70, músicas do Zeca Baleiro, Gabriel, O Pensador e raps. Nós acompanhamos as mudanças. Os nossos baterista e o baixista tocam com o Lenine e com o Marcelo D2. Temos uma banda da pesada! Fazemos uma sonoridade atual e continuamos com o conceito de crítica política e social.
JÁ: E os shows?
L: Desde 2001 temos feito muitas paradas gays. É um público fiel, se identifica com a gente. Falam que somos ícones do mundo gay! Afinal, “vale ser alguém como eu, como você”. Sempre tivemos um público desde a criança até a vovó. Acho que a alegria conta muito. Ela é comum a todos, traduz felicidade, realizações, amor...
JÁ: Além das Frenéticas, você faz o espetáculo Lidoka Voando pelos Ares.
L: Comecei a escrever poesias e, em 2004, o Tavinho Paes me chamou para recitar no Dama de Ferro, que foi quando comecei. Faço parte de todos os circuitos de poesia. Em um ano fui convidada para a Bienal do Livro, recitando as minhas poesias. Fez sucesso As Mulheres Voando Pelos Ares! A poesia virou um trabalho e resolvi fazer disso uma profissão. Misturei com música, performance teatral e de dança e montei o espetáculo Lidoka Voando pelos Ares. Estou montando uma home page para ele. Está parado agora, porque estou concentrada no livro.
JÁ: Mas a paixão de Lidoka é a Bandoca?
L: É a minha provedora, a minha mãe, a galinha dos ovos de ouro! A Bandoca é uma mesa de colo almofadada. Um objeto da antiga Europa. Vi na Inglaterra, mas achei muito feinha, de eucatex, sem design. Quando As Frenéticas pararam, fui à casa de uma amiga que me ajudou a montar uma. E ela quis outra para ela. Nunca pensei que fosse fazer isso profissionalmente. Então, há 16 anos, comecei essa produção. Hoje eu faço em parceria com outros artesãos.
JÁ: Ney Latorraca, Pedro Paulo Rangel, Bete Carvalho e outros artistas têm a Bandoca. Qual o segredo do sucesso?
L: Sou muito comunicativa e fiquei conhecida e querida no meio artístico. Comecei a oferecer. Deixei na casa da Suzana Vieira e ela adorou, indicou para vários amigos... E ficou famoso na classe artística. A Maitê Proença compra para dar de presente...
JÁ: Além dos famosos, quem pode comprar a Bandoca?
L: Todos! Através do site www.bandoca.com, onde tem todos os contatos, ou em lojas como no Studio Grabowisk, no Rio Design Center do Leblon. Estou querendo colocar em hotéis. É ótimo para apoiar o lap top!
JÁ: Sua vida no Rio sempre girou em torno da Zona Sul. Por que escolheu Ipanema para viver?
L: Vou responder com um poema que fiz, Ipanema Meu Poema: Vivo a vida em Ipanema,/nela teço meu poema/ minha história, as memórias/ que ela cria pra mim/ jogando com o tempo, curtindo os espaços/ ações profissionais, encontros superficiais
poucos sins,/ muitos nãos põem mais lenha na fogueira/ atiçando o tesão, da vida/ Um poema apaixonado/ rascunho o papel do pão/ quentinho da padaria/ pra não perder o refrão/ No inverno vou pra Barra/ pego um bom frescão fresquinho/ cachecol e casaquinho/ visitar Claudio Tovar/ volto pra encontrar a Katinha/ que chegou do Canadá/ praquele café com papo,/ bater perna até cansar/ Quando dá, chego na praia/ pra cruzar o meu amor/ desvendar que traço e cor/ Deus usou naquele dia/ pra brindar o nosso amor.
JÁ: Lidoka por Lidoka:
L: Uma frenética criatura!

Haroldo Costa

Paulo Antonio Magoulas

Haroldo Costa. Foto: Paulo MagoulasCarioca de Piedade, é a cara do Rio de Janeiro. É um homem que sempre esteve presente nas principais manifestações culturais da cidade, participando ou conduzindo com uma inigualável classe, tudo o que lhe é confiado. Podemos dizer que é um monumento e uma glória para todos nós. A sua simpatia, e seus conhecimentos, seu extremo bom caráter, tornaram Haroldo Costa uma pessoa muito querida e respeitada, um exemplo de vida e de honradez. Todos amam Haroldo, inclusive, sua mulher Mary, umas das famosas e talentosas Irmãs Marinho, com quem é casado há cinquenta anos. Confira a entrevista.

Jornal JÁ: Você atua em várias áreas, é um homem de sete instrumentos. Como você se define profissionalmente?
Haroldo Costa: Sou um biscateiro. Sou ator e jornalista (pago ambos os sindicatos), escritor, mestre de cerimônias e produtor de espetáculos, shows, convenções e congressos. Sou membro do Conselho Estadual de Cultura.
JÁ: Você tem uma empresa produtora de eventos?
H.C: Sim, acabamos de realizar a convenção da Volvo, na Marina da Glória, onde aconteceu a Volvo Racing, uma corrida de barcos. Entre meus clientes, encontram-se a Cemig e a Empresa de Segurança Modelo, para quem preparo palestras e conduzo shows. Trabalhamos também para os bailes de carnaval do Copacabana Palace e do Sofitel, o Bal Masque.
JÁ: Qual é a sua atividade profissional mais antiga?
H.C: Tudo começou no Colégio Pedro II, eu estava tentando ser datilógrafo, aqueles que batiam estêncil e aí o Moisés Weltman, que era meu colega, me levou para a Rádio Mayrink Veiga, onde passei a trabalhar com o Helio Thys e o Lourival Marques. Paralelamente, eu entrei para o Teatro Experimental do Negro. Então, Minhas atividades mais antigas são o rádio e a televisão.
JÁ: O Teatro Experimental do Negro Gerou a Brasiliana?
H.C: Não, no Teatro Experimental do Negro, formamos o Grupo dos Novos, um movimento dissidente e este grupo, é que criou a Brasiliana.
JÁ: Quantos anos durou a Brasiliana e onde ela atuou?
H.C: Viajamos durante cinco anos de 50 a 55, evidentemente que não seguidos, por vinte e cinco países, toda a América do Sul, parte da Europa Ocidental e da África do Norte. Começávamos por Buenos Aires, no Teatro Astral e de lá, seguíamos a partir dos convites e oportunidades, divulgando a cultura brasileira pelo exterior.
JÁ: E o Orfeu, como apareceu na sua vida?
H.C: O Vinícius, era Secretário na embaixada, em Paris e sempre nos ajudou muito. Em 54, ele me deu o primeiro ato para ler. Dois anos depois, ele veio para o Brasil, tentar fazer o filme. Não conseguiu. Em compensação, montamos a peça no Municipal e foi o maior sucesso. Depois ficamos dois meses no Teatro República.
JÁ: E o carnaval, como surgiu para você?
H.C: Sou fã do carnaval desde menino. Morava na Lapa, na Rua Joaquim Silva, minha tia me fantasiava e eu participava de um bloco de lá mesmo. Agora, profissionalmente, quando eu trabalhava na TV Continental, fui convidado para ser júri ao lado de Eneida, Lúcio Rangel, Edgar de Alencar, Aloísio Alencar Pinto, Inimá de Paula e Napoleão Muniz Freire. Foi uma experiência e tanto. O desfile era na Av. Rio Branco e nós ficávamos na escadarias da Biblioteca Nacional. Em 62, vi o Salgueiro com Xica da Silva e me apaixonei. Deixei de ser júri, para ser salgueirense. Nesta época, conheci o Fernando Pamplona e o Arlindo Rodrigues, que revolucionaram o Carnaval.
JÁ: Você é o mais antigo comentarista de carnaval da televisão e é fundador do Estandarte de Ouro?
H.C: Sim, sou o decano dos comentaristas da tv, daquela época, não existe outro, ainda em atividade. Comecei na TV Tupi. Não sou fundador do Estandarte de Ouro, participo dele desde o segundo ano, quando o seu criador, o Heitor Quartin, renovou a continuidade do premio, aqui na minha casa, com o Péricles de Barros, do Jornal O Globo.
JÁ: Como você está sentindo o renascimento do Carnaval de rua?
H.C: Estou achando formidável. Sou um paladino da defesa do carnaval de rua. Este ano, vários blocos surgiram no Rio de Janeiro inteiro. A imprensa deveria mostrar mais, dar uma cobertura maior do que aconteceu na Zona Oeste e na Zona Norte, onde, quase nada aparece. O povo participa com gosto. Neste carnaval, o Suvaco do Cristo demorou mais de três horas para desfilar. Foi impressionante, é uma manifestação cíclica. A Marilene Dabus, me enviou um e-mail, comunicando que em 2007, surgirá um novo bloco, o Unidos da Lagoa.
JÁ: Como você vê os novos sambas enredo com diversos autores?
H.C: É uma tendência atual, mas, não é regra, o samba da Vila Isabel é apenas de quatro autores, o que não é muito. Por exemplo, o Kizomba, Festa da Raça era de três, Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila. O samba de condomínio, oito, dez autores, geralmente, não me agrada, mas quem inventou esta prática foi o Laila, só que ele sabe colar os sambas, faz com competência, é um grande editor do samba. O da Beija-Flor do ano passado, As Treze Missões, é muito bom.
JÁ: Haroldo escritor, quantos livros? Cite todos.
H.C: Fala Crioulo (década de 80), Salgueiro, Academia do Samba (82), É Hoje, com desenhos do Lan, História do Carnaval Carioca, a segunda parte, Eneida fez até 60, eu atualizei até 80, Na Cadência do Samba (dez décadas de música, fartamente ilustrado), Cem Anos de Carnaval do Rio de Janeiro, Salgueiro, 50 Anos de Glória e Ernesto Nazareth, o Pianeiro do Brasil.
JÁ: Você casou, foi morar no Leme e agora mora na Gávea. Que bairro você prefere?
H.C: Eu adoro o Leme, morei em quatro endereços, dois na Rua Antônio Vieira e dois na Rua Gustavo Sampaio. Lá eu vivia no Fiorentina, fui o General da Banda, do primeiro ano da Banda do Leme enfim, participava de tudo que eu podia. Eu não conhecia a Gávea, aí surgiu a oportunidade de vir para esta casa. No princípio, estranhei, mas agora também acho ótimo. Mantenho minha conta bancária no Leme. Vivo lá e aqui, entre o sossego da minha rua e o burburinho do Baixo Gávea. Agora freqüento também alguma coisa daqui: o bar Hipódromo, o Guimas e a loja de livros e discos Tracks, na praça, que é muito boa, por sinal.
JÁ: E a segurança aqui, como é que é?
H.C: Agora está melhor, tem um serviço de apoio particular. Há tempos, roubaram meu carro na porta de casa, ao lado da Delegacia. No momento, um paradoxo, segurança particular mais delegacia. A segurança é relativa no Rio, ainda dá para viver.
JÁ: Haroldo para terminar, atuais projetos?
H.C: São inúmeros, mas vou citar dois livros, um sobre Catulo da Paixão Cearense e outro sobre A Política do Carnaval, desde a noite de São Bartolomeu, na França até hoje, aqui e a seqüência do meu trabalho no João Caetano, novamente com a programação Chorando e Cantando às quartas-feiras às 12:30h e o lançamento do Fim de Tarde, um novo Seis e Meia, de segunda à sexta na hora da ladainha.

Entrevista: Jaguar

Texto e Fotos: Renata Moreira Lima

Simpático, irreverente e "boêmio de carteirinha", o cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, se consagrou com o traço tosco, mas de mote inteligente. Esse ano um dos homens fortes do Pasquim tem a incumbência de separar o material de mais de 20 anos que esteve no jornal para uma coletânea que será lançada em março. Ele gosta de dividir o tempo entre chopes, amigos e trabalho e garante que é o melhor cartunista do Brasil! Em entrevista ao jornal JÁ, Jaguar conta um pouco mais sobre suas manias e a vida boêmia que não se cansa de levar.

 

 

 

Jornal JÁ: Você tem 51 anos de carreira. Como avalia o seu desempenho hoje?
Jaguar: Estou melhor. O que vale no desenho não é o traço, eu sempre desenhei mal. Quando levei meus desenhos para o Hélio Fernandes (Tribuna da Imprensa) ele falou que eram horríveis, para eu desistir que não tinha o menor jeito! E ele tinha razão. O Angeli, que desenha bem pra burro, e admiro muito, diz: é fácil imitar o Jaguar, basta não saber desenhar! (risos) A idéia é que vale para o humor do desenho prevalecer.
O Nani, por exemplo, é ótimo! Ele chegava no Pasquim com 10 desenhos bons por dia. Eu até brincava, dizia para ele ir à praia, namorar... (risos)


Jornal JÁ: Em artigo publicado no jornal O DIA você atentou para o fim da profissão de cartunista. A profissão está, realmente, em extinção? Qual a solução para salvá-la?
Jaguar:
Não tem solução. Por exemplo, eu sobrevivo fazendo charge. Uso a técnica de cartunista para fazer a charge. São duas coisas bem diferentes: se eu faço uma charge, hoje, sobre o Palocci, ela é baseada nos acontecimentos políticos atuais. Daqui a três anos ninguém sabe quem é Palocci. A charge acaba perdendo o sentido. Já o cartum, você faz e daqui a 20 anos pode ser entendido. Um exemplo de cartum: David Neves desenhou o Aleijadinho com um amigo, Ouro Preto ao fundo, e ele dizendo: hoje me chamam de aleijadinho, mas a posteridade me fará justiça! (risos) Até hoje quem sabe o nome dele? (risos). Isso é cartum!

Jornal JÁ: No mesmo artigo do jornal você cita Don Rossé Cavaca e o fato dele ser pouco lembrado nos dias de hoje. O Brasil é um país sem memória? Você teme que algum dia o seu trabalho caia em esquecimento?
Jaguar:
O Cavaca era absolutamente genial! Ótimo humorista! Ele vendia o livro dele de bar em bar. (risos) O Antônio Maria fazia uma espécie de horóscopo e colocava: hoje você vai estar num bar e Don Rossé Cavaca vai chegar e vender o livro. (risos) Enquanto eu estiver vivo, Cavaca não vai cair em esquecimento. Inclusive a minha próxima matéria na revista Argumento vai ser sobre ele.
Eu não temo pela perda dos meus trabalhos porque eu quero que se dane! Eu já fiz, aproximadamente 30 mil desenhos em 51 anos, sou o único cartunista que nunca parou, nunca teve férias. Dos meus desenhos, se eu tiver 200 deles é muito! Quando não tinha esse negócio de internet, eu mandava os originais. O Henfil tinha uma copiadora em casa, nunca mandava os originais. Volta e meia eu chego na casa de alguém e tem um quadrinho com o meu desenho! (risos). Então, pouco me importa, não ligo para isso enquanto estou vivo, quanto mais depois de morrer!

Jornal JÁ: Além dos trabalhos no DIA e na Revista Argumento, o que planeja para 2006?
Jaguar:
Estou preparando o melhor do Pasquim, que vai sair em março, com os 150 primeiros números. Serão quatro volumes ao todo. Fiquei espantado, tem muita coisa! São vinte e tantos anos que fiquei no jornal...
Nessa pesquisa eu vi a qualidade dos textos do Vinícius. Ele traça uns perfis de alguns amigos dele: Antônio Maria, Di Cavalcante... Absolutamente brilhante o texto dele, fantástico!

Jornal JÁ: Você conheceu o Vinícius de Moraes?
Jaguar:
Não tive grande intimidade, ele era de uma turma acima da minha, tinha uns sete anos a mais. Ele era amigo do Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Millôr. Eu era aspirante.
Nos encontrávamos no 706 que era um bar onde hoje é o Júlio Bogoricin - pra você ver como o Rio está diferente! Jorge Ben, Gato Barbiere, Menescal davam canja, todos os craques tocavam lá. Eu sempre ia à noite quando estava casado com uma "negona" de 1.80m e Vinícius estava sempre na entrada. Tanto não tínhamos intimidade, que ele não me chamava de Jaguarzinho, nem eu o chamava de Poetinha, era Vinícius e Jaguar. Mas tive uma passagem com ele. Estava com o Millôr em Salvador num festival e fomos à casa do Vinícius que estava morando em Itapuã. Ele nos ofereceu um uísque. Estávamos bebendo e conversando quando chegou a mulher dele e expulsou a gente, dizendo que só estávamos ali para sujar o verniz da mesa dela! (risos) Saímos e ficamos bebendo na praia. (risos)


Jornal JÁ: O Pasquim tem tudo a ver com a sua carreira, foram cerca de 20 anos no jornal. A política é um ponto presente nos seus desenhos, principalmente nas charges. Como você vê o momento político que o Brasil atravessa? Se arriscaria a fazer uma análise?
Jaguar:
Estou muito decepcionado. Eu sempre fui contra o governo, mas esperava que dessa vez fosse a favor, votei quatro vezes no Lula e deu nisso! Felizmente, fiz a minha parte e estou fora. Nas próximas eleições eu não voto mais, vou usar o meu direito de não votar e vou ficar tomando minha cervejinha lá em Itaipava... (risos) Acho que isso não tem mais jeito! Se o cara que a gente tinha a maior esperança de consertar esta porcaria de país, desandou... Não vejo a menor perspectiva. Agora vocês, que são jovens, estão com problemas, porque eu, qualquer dia desses, tenho um piripaco aí e pronto, fico livre desse negócio! (risos) Mas fico com pena de vocês viverem num país que não vejo como vai sair dessa encrenca. Mas isso é uma depressão política, acho a vida ótima! Eu sou capaz de curtir até Brasília, onde estou morando... (risos)

Jornal JÁ: Você morava aqui no Leblon, não é?
Jaguar:
Pois é. Minha mulher foi convidada para um cargo no Ministério da Saúde. Ela não tinha aceitado porque achou que eu não ia... Disse: você, super carioca, não vai sair do Rio nem amarrado! Respondi: saio até desamarrado mesmo! Lógico que eu fiz isso porque gosto muito dela. Cheguei lá achando que ia achar horrível e vi que não. Tem grandes bares e restaurantes, as pessoas são muito amáveis. Eu só conhecia o "centrão", antigamente eu ia e voltava no mesmo dia. Brasília é uma cidade com muita vegetação, muita água, o lago Paranoá... Tem uma cidade muito bonita perto que se chama Pirenópolis, que é uma espécie de Paraty, sem praia, claro! (risos)

Jornal JÁ: Mas, com isso, você deixou o Leblon?
Jaguar:
Não deixei, porque eu tenho um contrato com o jornal O DIA, então venho, pelo menos, uma vez por mês. Agora, por exemplo estou há 10 dias no Rio e vou ficar mais três.


Jornal JÁ: Então você está ficando aqui de temporada...
Jaguar:
É. Eu tenho três casas: esse apartamento aqui, o apart-hotel que estou em Brasília e uma casa em Itaipava. O problema é que, às vezes eu tomo um porre na véspera e não sei em que casa eu estou. De noite, por exemplo, quero ir ao banheiro e penso que estou em Itaipava quando estou no Rio ou em Brasília! Eu acho que o banheiro é por ali e bato com o nariz na parede! (risos)

Jornal JÁ: Você sente falta do Rio?
Jaguar:
Uma das vantagens de morar fora do Rio é voltar para o Leblon e ter a constatação de que é o melhor lugar do mundo para se morar, não tem nada parecido! E olha que já fui a muitos lugares: Barcelona, Porto, Roma, Paris, nada! Só tem um problema: é difícil sair daqui. Em Brasília eu vejo muito mais shows. Pego o carro e em dez minutos eu estou no local do show. Aqui eu perco grandes espetáculos naquele Claro Hall, na Barra, na Lapa que tem uns maravilhosos! Sempre estou aqui no Leblon. Há um tempo atrás eu não tinha horário, então pegava o carro às 3h da manhã e ia para a Lapa, ficava "biritando"... Agora penso: bom, posso ser assaltado na saída, no sinal, na chegada, na volta... Acabo desistindo. Hoje, por causa do risco de sair à noite, os boêmios, os caras que eram de virar noite como eu, Otávio Augusto, Antônio Pedro, Carvana, estão bebendo à tarde, quando dá 8h da noite está todo mundo de porre e acaba dormindo cedo.

Jornal JÁ: Morando em Brasília, você tem saudade de acordar com as galinhas do Leblon?
Jaguar:
Engraçado que a minha casa em Itaipava é no meio do mato e ouço muitos passarinhos, mas galinha e galo, só no Leblon! (risos) Essa história foi engraçada porque, quando eu ouvi pela primeira vez, perguntei ao jornaleiro de onde vinha o som. Ele disse que era da 14ª DP e escrevi uma crônica sobre o assunto. No dia seguinte, dois policiais armados bateram na minha porta, se identificando como sendo da 14ª. Eu elogiei a eficiência deles, como eles sabiam onde era a minha casa? Perguntei se tinha cometido algum crime. E eles: porque o senhor escreveu na sua crônica que mora em frente! (risos). Viemos esclarecer o assunto das galinhas: elas não são nossas, mas da Delegacia Anti-Sequestro que é ao lado. (risos)

Jornal JÁ: Você é um dos fundadores da banda de Ipanema e está declarando o seu amor ao Leblon. Mas você morava em Ipanema antes, não é?
Jaguar:
Quando eu fundei a banda de Ipanema com o Albino Pinheiro, Ferdy Carneiro, aquele bando de malucos, eu morava em Copacabana. Quando a minha mãe faleceu herdei o apartamento dela na Praça General Osório onde morei bastante tempo. Mas Ipanema deteriorou daquela época... Agora a Praça melhorou, com o Belmonte, o Terceto, está mais agradável do que a um tempinho atrás. Acho que o Leblon é, hoje, o que Ipanema era há alguns anos. É o melhor lugar do mundo!

Jornal JÁ: E a Banda de Ipanema?
Jaguar:
Estou completamente fora da Banda. Acho que, quando o Albino morreu, a Banda tinha que ter acabado. Foi desvirtuada, virou banda gay e de patrocínios. Houve um ano que foi bancada por um guaraná. Agora você imagina um monte de "biriteiros' com camiseta de guaraná! Antes era divertido, familiar!
Aquela área virou ponto gay de um tempo pra cá. Eu morava na General Osório e, durante anos, costumava almoçar no Bofetada. Até que eu li na coluna do Zózimo Barroso do Amaral que tinha virado ponto gay. Eu não sabia! Perguntei ao garçom. Ele disse: não doutor, é o seguinte, até às 16h está limpo! (risos)

Jornal JÁ: E quais são os melhores lugares para a boemia hoje?
Jaguar:
Como eu não gosto de pegar carro, saio aqui por perto. Desço de casa e tem logo ali o Senegal, depois eu vou até o Pala D'ouro, de lá eu vou para o bar Redentor na Paul Redfern ao lado do La Botella, onde posso comer um sanduíche caprichado! Depois eu volto para Leblon e vou para Clipper, (risos) depois para o Bracarense (risos). E aí acabou o dia! Mas não é sempre, eu tenho que fazer as minhas coisas, minhas charges e cartuns.
Outro dia, estava com Antônio Pedro no Clipper quando tivemos a idéia de ver o filme do Vinícius (de Moraes). Assistimos metade, agora tenho que ver o começo do filme. Que é excelente! (risos)


Jornal JÁ: Para que a profissão de cartunista não acabe, que dica você daria aos aspirantes a Jaguar?
Jaguar:
Eu sempre desaconselhei. Até porque fizeram isso comigo. Se o cara nasceu para isso, não vai desistir só porque o babaca do Jaguar falou que ele não deve tentar! Quando levei meus desenhos para o Hélio Fernandes ele falou para eu desistir! Eu comecei imitando um desenhista francês de terceira categoria.(risos)
O melhor cartunista que eu conheci, brasileiro, felizmente parou: chama-se Reinaldo, que resolveu parar de desenhar e se dedicar ao Casseta e Planeta. Ele é um gênio! Como ele parou, me considero o melhor! Até que provem o contrário! (risos)
Um caso impressionante foi um menino de 16 anos, que chegou no Pasquim perguntando o que eu achava do desenho dele. Eu ri e disse que um guri de 16 anos não podia fazer um desenho daquele. Ele respondeu: é meu mesmo! Amanhã eu trago outros! O cara nasceu pronto! Agora ele está no jornal Extra: Leonardo. Ele é fantástico!
Eu acho legal que os jovens cartunistas me respeitam. Talvez porque eu não seja rico ou porque eu seja porra-louca, talvez porque eu seja muito bêbado! (risos)

Jaguar desenhando a charge para o Jornal Já

 

NA MATÉRIA ABAIXO ONDE ESTÁ ESCRITO PATRICIA BALSINI LEIA-SE RENATA MOREIRA LIMA
Coluna do Jaguar  no Jornal  O Dia -  do dia 14/12/2005 - Onde se lê Patricia Balsini é a jornalista  Renata Moreira Lima

Entrevista: Hugo Carvana

Texto e Fotos: Renata Moreira Lima
renatamlima@gmail.com

Com mais de 50 anos de carreira, participando de filmes, novelas e peças de teatro, Hugo Carvana se consagrou e ganhou a simpatia do público. Quem não ficou curioso, no ano passado, para saber “Quem matou Lineu?”, na novela Celebridade, da Rede Globo? Com uma bagagem dessas, ele se prepara para lançar mais um filme. Dessa vez a caninha brasileira aparece como personagem principal do documentário A Danada da Cachaça.

Hugo CarvanaJÁ: O que motivou você a seguir a carreira de ator?
Hugo Carvana: É um mistério. Nunca planejei. Foi a vida. Nunca pensei nisso até que entrei num estúdio e nunca mais saí. Foi uma armadilha da vida! (risos)

JÁ: Trace um paralelo entre a procura pela profissão naquela época e nos dias de hoje. A que você atribui essa incessante procura que existe hoje?
H.C: Toda profissão quando tem uma ampliação como essa que a televisão vem passando ao longo dos anos, tem uma demanda maior. Na época em que comecei, não havia quase emissoras, era uma novidade. Tinha só teatro e cinema. Hoje, o jovem pensa logo em ir para a televisão e ficar rico.

JÁ: Esse é o ponto. A televisão virou sinônimo de riqueza e fama. Mas o que é preciso, realmente, para ser ator?
H.C: É preciso ter vontade, fé e esperança. Ser ator é uma missão e não uma badalação.

JÁ: Você está gravando um documentário sobre a cachaça. Como anda esse processo?
H.C: Estou terminando a filmagem do primeiro programa do documentário A Danada da Cachaça. Vai ser dividido em nove programas para a televisão. Assim que terminar de gravar vou atrás de emissora para exibir.

JÁ: Por que escolheu a cachaça? Você é um apreciador?
H.C: Eu gosto de cachaça e acho que é uma referência da cultura brasileira. Giram em torno dela, as mais diversificadas manifestações culturais. É, com certeza, uma referência.

JÁ: E os outros projetos? Quando volta a atuar na televisão, depois do sucesso em Como Uma Onda?
H.C: Estou preparando o filme Casa da Mãe Joana. Também começo a gravar a série JK da TV Globo. 2005 está acabando e o ano de 2006 está fechado pra mim. Depois eu penso em 2007.

JÁ: Vamos falar da Gávea. Por que escolheu morar lá?
Amigos: Antonio Pedro, Claudio Marzo e Hugo CarvanaH.C: Eu morava na Tijuca. Vim para a Zona Sul aos 17 anos. Aqui, passei por todos os bairros: Copacabana, Ipanema, Laranjeiras... Por último estava morando no Leblon e me mudei para a Gávea. Eu gosto de lá. É um bairro pacífico, acanhado, gostoso. Eu não escolho onde morar por uma razão especial. Agora estou na Gávea.

JÁ: Falou que é um bairro pacífico. Como você vê a chegada da Rocinha, que já ultrapassou o morro Dois Irmãos, e de São Conrado foi parar na Gávea? Você se preocupa com esse momento de conflitos que a favela enfrenta?
H.C.: Estamos preocupados. Por enquanto está tranqüilo, quando piorar eu saio de lá.

JÁ: Você se arriscaria a opinar sobre uma solução para esse problema na Rocinha?
H.C: A violência do Rio não tem solução. Mas eu procuro agir naturalmente, não quero entrar em paranóia!

JÁ: Além de vir à Cobal do Leblon, o que gosta de fazer pela Zona Sul?
H.C.: Eu tenho casa na serra e a minha vida é lá! Aqui eu trabalho e durmo! (risos). No Rio eu tenho dois amigos: o Cláudio Marzo e o Antônio Pedro. Não saio mais à noite. Hoje eu aprendi a beber na cabeceira da cama! (risos) Venho para a Cobal do Leblon com os amigos ou para o Alvaro’s.

JÁ: O Jornal Já é um veículo novo e é uma honra ter Hugo Carvana como primeiro entrevistado. Teria um recado para os leitores do Já?
H.C.: Torço para fazer sucesso porque é sempre bom um novo veículo, ainda mais retratando o perfil de três bairros simbólicos do Rio. Desejo todo o sucesso ao Jornal JÁ.

O jornal com a cara e o nome do seu bairro - tel. (021)2549-1284 - copa@jornalcopacabana.com.br