HUGHES SABE O QUE DIZ
Controvérsias
à parte, a arte está (ou esteve) bem representada
nos centros culturais e galerias. O pintor carioca Araken, por
exemplo, renovou totalmente sua pintura, deixando de lado o abstracionismo,
linguagem mais freqüente, por uma incursão pela figura.
O resultado esteve exposto na Galeria Toulousse, na Gávea,
com inusitado sucesso. O que o artista bem merece. Suas atuais
figuras, quase sempre entrando de sola no expressionismo, mostram
que Araken, um mestre que sabe como poucos unir teoria à
prática, pois além de pintor é doutor em
filosofia e teologia, não chegou a elas por mero acaso.
Um artista se distingue dos seus semelhantes pela personalidade
que imprime à sua obra, todos sabemos disso. E é
aí que o trabalho do pintor carioca marca uma tremenda
reviravolta no seu modo de ver o mundo ao redor. Se antes ele
o encarava através de formas e cores, em planos que se
integravam na composição com belos efeitos cromáticos,
agora temos um artista que se mostra por inteiro numa figuração
que busca no inside de cada um a dramaticidade da própria
existência, espécie de radiografia do homem nos seus
momentos mais tensos. Até mesmo nas paisagens, onde predominam
a natureza, a leitura dos seus trabalhos leva o espectador a questionamentos
existenciais que muito valorizam o homem como objeto de Deus.
Para quem perdeu a exposição, o livro lançado
na ocasião, intitulado Araken, sintetiza o pensamento do
artista, não só pelas belas imagens como, igualmente,
por dois elucidativos textos nele inseridos. Graficamente, o livro
é impecável tal qual a obra do artista.
Quem não leu, bobeou. Numa das últimas edições
da revista Veja, uma entrevista com o historiador e crítico
de arte australiano Robert Hughes, respeitado mundialmente, elucida
muitas das questões da arte nos dias atuais. Mormente para
aqueles que se deslumbram com quaisquer novidades que surgem no
campo das artes plásticas, muitas vezes querendo impor
importâncias que estão longe de atingir seus objetivos.
Tudo bem. Acontece que estamos no comecinho de novo século
em que a arte sequer deu seus primeiros passos, uma vez que ainda
estamos deglutindo os últimos ísmos dos anos 20.
Dois enxertos da entrevista de Hughes: Vivemos numa era
muito pobre em matéria de artes visuais. Hoje se podem
encontrar bons escultores e pintores, mas a idéia de que
a arte atual possa se igualar às enormes realizações
do passado, entre os séculos XVI e XIX, é um disparate.
Porque ser o pai (Duchamp) dessa bobagem chamada arte conceitual
não é uma distinção de que se possa
orgulhar. Para compreender o tamanho do estrago, basta dizer que
sem ele hoje não haveria as chamadas instalações,
aquelas obras tolas em que o espectador é convidado a passar
por túneis e outros recursos infantis. Ou precisa ler uma
bula para entender o que o artista quis dizer.
ARTE DEPOIS DO CARNAVAL
Deu
no que deu. Complicaram tanto na Sapucaí que o povo tomou
outra vez as ruas e deixou para os otários o carnaval luxo
das cada vez mais desprestigiadas escolas de samba, agora produto
exclusivo para turista. Bem feito. Não existe essa de colocar
nossa cultura em prol de influências tão bem definidas
por Sérgio Porto como samba do crioulo doido.
Pois foi o que fizeram com os incompreensíveis enredos
dos últimos anos, aliás, só entendidos pelos
comentaristas da televisão, onde pouco se viam os crioulos,
os verdadeiros donos da festa, fazendo escada para incríveis
vedetinhas de novelas que, sem talento, tentam rebolar seguindo
ordens dos indefectíveis carnavalescos. Onde foi parar
nosso folclore e sua beleza? Acho que ficou no Recife, onde Maracatus,
Caboclinhos e Frevo fazem a alegria do povo. Esse mesmo povo que
em 2007 encheu as ruas da Zona Sul carioca e divertiu-se como
nunca para esquecer as agruras da violência que as autoridades,
nos seus camarotes privilegiados, sorriem e deixam a banda passar.
Carnaval é isso: espontaneidade criativa. Arte, enfim.
Mas passado os festejos de Momo, eis que novamente o Rio torna
a se voltar para as artes. Com a mesma pujança de antes.
Para começar, uma passada no Centro Cultural Banco do Brasil,
no centro, é obrigatória. A mostra O Banco do Brasil
e as Artes Gráficas reúnem obras de Fayga Ostrower,
Anna Letycia. Darel, Edith Behring, Iberê Camargo, dentre
outros expoentes das nossas artes gráficas, sob curadoria
de Geraldo Dolino, ele próprio um dos nossos mais talentosos
pintores. Em se tratando de gravura, respeitem o Brasil porque
nessa linguagem sempre deu banho e conquistou algumas das maiores
premiações internacionais.
No mesmo local, outra exposição complementa a primeira.
Trata-se de Impressões Originais: A Gravura Desde o Século
XV. São 250 obras de nomes como Dürer, Rembrandt,
Picasso, Miro, Matisse. Uma história sintética,
mas valiosa abrangendo seis séculos de artes gráficas
a partir do século XV com a invenção da xilogravura.
Grande pedida.
E já que falamos do Centro, não custa nada uma visita
ao Museu Nacional de Belas Artes para constatar a importância
do pintor Modesto Blocos, um espanhol naturalizado brasileiro
que viu nosso país como ele era realmente, o que os acadêmicos
da época taparam os olhos em prol de assuntos bíblicos
e históricos. Aliás, a atualidade não é
assim tão diferente, não acham?
CAMINHOS DA ARTE
Um mês movimentado. Principalmente pela junção
de nomes consagrados e outros em progresso, numa revitalização
dos espaços expositivos cariocas que, dessa maneira, oferece
ao público arte de boa qualidade e artista idem. Lucílio
de Albuquerque, Fayga Ostrower e César Romero estão
ai mesmo para constatar nossa afirmativa.
Quem
ainda não conhece o novo centro da cidade, o Caixa Cultural,
tem bons motivos para entrar em contato com o local que engloba
salões de exposições, teatros e cinema. Depois
de inauguração com retrospectiva de Di Cavalcanti,
a oportunidade de se conhecer dois excelentes artistas de gerações
opostas. A primeira das mostras dedica ao pintor Lucílio
de Albuquerque (1877-1939) uma merecida homenagem ao artista que,
além de pintor de amplos recursos técnicos dentro
da linguagem acadêmica, foi professor de inúmeros
pintores modernistas, entre os quais Cândido Portinari.
Lucílio, nascido no Piauí, foi casado com Georgina
de Albuquerque, uma de nossas primeiras pintoras impressionistas,
paralelamente ao estilo que o consagrou, já se exercitava
pelo impressionismo e indo até mais além com paisagens
mineiras, muitas das quais lembrando Guinard na maneira de sugerir
mais do que mostrar, através de pinceladas curtas e espontâneas.
A
segunda atração da Caixa Cultural percorre os caminhos
de Fayga Ostrower, uma de nossas artistas mais completas e que
unia sólidos conhecimentos teóricos à execução
primorosa dos seus meios de expressão: a gravura e a aquarela.
Tudo que Fayga nos deixou como artista é lição
de alta criatividade, embasada por sensibilidade nata e rigor
formal. Não há como separar da artista a gravura,
xilos principalmente, de suas aquarelas que transitam por evocativas
sensações de poesia plástica. Tanto Lucílio
de Albuquerque quanto Fayga Ostrower, caminhos díspares
mas ligados pela qualidade são oportunidades raras no calendário
expositivo carioca.
O terceiro caminho é aquele que o pintor César
Romero nos oferece comemorando 40 anos de carreira. Além
de mostra de impacto no Centro Cultural Correios, no Centro (aberta
até o dia 15 de outubro) inaugura outra exposição,
desta vez em Copacabana, na Galeria Patrícia Costa, no
Shopping Cassino Atlântico (até o dia 14 de outubro).
César Romero, baiano até dizer basta, é desbravador
de trilhas de conteúdo popular. Na nova série, BR-Amante
uma declaração explicita de amor à sua terra
e sua gente, transferindo para o plano erudito impressões
de vivências entre festejos e manifestações
do povo, que transfere para as telas de intenso rigor formal e
desmesurado fervor ao colorido.
Tudo dentro da brasilidade que caracteriza sua pintura.
Desperte o artista que existe
em vc!
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