Jornal Copacabana
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ANO XII - 2008

Milton Teixeira

Milton Teixeira
Histórias de Copacabana

 

http://www.milton.teixeira.nom.br/

UM PEQUENO SALTO PARA UM BRASILEIRO
UM GRANDE VÔO PARA A HUMANIDADE.

Alberto Santos Dumont, nasceu em 20 de julho de 1873, na Fazenda Cabangu, em Palmira, Minas Gerais, onde morava sua família. O pai, Henrique Dumont, era engenheiro ferroviário e logo se mudou para Rio das Flores, no Rio de Janeiro, onde batizou em 1877 o pequeno Dumont. Desde cedo, Alberto manifestou muito interesse pelos estudos de mecânica e física. Leu a coleção de obras de Júlio Verne, que lhe avivou as idéias de aeronavegação, desejo que nutriu desde a infância.

Formou-se em engenharia civil e rumou para a França, onde se dedicou inicialmente ao automobilismo, sendo o primeiro brasileiro a dirigir um automóvel e a participar e vencer competições automobilísticas. Ao fazer uma visita ao “Salon du Cycle” do Palais de L`Homme, em Paris, decidiu-se a aprofundar seus estudos sobre a dirigibilidade dos balões. Em 1898 construiu seu primeiro balão, o único que teve nome “Brasil”. Seguiram-se vários outros, geralmente em formato de charuto, com barquinha abaixo e grandes hélices, movidas por motores cada vez menores e mais potentes.

Sofreu muitos acidentes, mas sempre escapou ileso e pronto para corrigir e aperfeiçoar suas invenções. Num deles, seu motor pegou fogo e ele o apagou com seu chapéu, amassando-o todo, assim criando moda em Paris.

Tanto nos balões como nos primeiros aparelhos de aviação, procedeu empiricamente, mas aproveitou-se sempre dos fracassos e das vitórias para aperfeiçoar todos os inventos posteriores. Fez notáveis experiências, das quais a mais importante e decisiva foi a de 12 de julho de 1901, quando com seu balão motorizado nº 6, conseguiu contornar a Torre Eiffel em trinta minutos, provando a dirigibilidade aérea. Ganhou com isso o Prêmio Deutsch, que distribuiu pelos colaboradores e necessitados da capital francesa. Em 26 de outubro de 1906, finalmente, conseguiu decolar de um parque de Paris com um aparelho mais pesado que o ar, o aeroplano 14 bis, fato registrado por fotos, filmes e documentos, tornando inconteste sua primazia neste invento. No mês seguinte repetiu o feito, ganhando o prêmio do Aeroclube de França. Em 1908 inventou o “ultraleve”, um pequeno avião de passeio que apelidou de “Demoiselle”. Inventou também o relógio de pulso, para o joalheiro Cartier, e a asa delta, mas, sendo um idealista, nada patenteou. Por isso muitos países não admitem sua primazia, que é inconteste pela farta documentação existente.

Ficou muito desgostoso com a aplicação militar do avião durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914. Considerava-se culpado pelos mortos por ataques aéreos, bem como pelos acidentes aeronáuticos, fator que agravou sua saúde física e mental. Radicado no Brasil desde 1929, faleceu em Guarujá, a 23 de julho de 1932, suicidando-se com o desgosto de ver aviões do Governo bombardeando São Paulo durante a Revolução Constitucionalista.

Em vida, recebeu muitas homenagens. O Governo Federal comprou a sede da Fazenda Cabangu e a entregou a Santos Dumont. Após sua morte, foi convertida em museu.

Retrato oficial de Santos Dumont Balão no. 6 circunda a Torre Eiffel Chapéu Panamá de Santos Dumont
Vôo do 14 Bis - 26 de outubro de 1906. Decolagem do 14 Bis - 26 de outubro de 1906

 

ARQUITETURA DE COPACABANA

Colaboraram nesta reportagem Marcia Araujo (texto e fotos), Alexandre Macieira e Américo Medeiros (fotos)

Um país se faz com história. Aos 114 anos, Copacabana ajuda a contar a história do Brasil através das
heranças, ainda aparentes em meio a tantos prédios altos, no corredor em que se transformou o bairro. Até 1920, Copacabana era formada basicamente por casas. Apesar do crescimento demasiado, a arquitetura centenária sobreviveu e, ainda hoje, nos deparamos com
obras de arte como a magistral fachada do edifício Itahy ou a vigorosa arquitetura do edifício Guahy . É baseado na importância de cultivarmos a nossa história que o Jornal Copacabana selecionou alguns edifícios e casas para contar ao leitor um pouco mais da história do bairro.

Copacabana Palace fotomontagem  Hortensia Pecegueiro do AmaralCopacabana Palace reflete fielmente a influência cultural européia de sua época com um estilo requintado de hospedagem. Inaugurado em 1923, o hotel acabou se tornando um símbolo do Rio, sendo o preferido de artistas, políticos, executivos e personalidades internacionais e grandes recepções. Tombado pelo Patrimônio Histórico o Copacabana Palace possui em seu currículo fatos da maior relevância, como por exemplo, ter servido de cenário para o filme “ Flying Down To Rio”, onde pela primeira vez Fred Astaire e Ginger Rogers dançaram juntos.
Edifício multifamiliar - Rua Ministro Viveiros de Castro, 123-Observar desenhos art-déco na fachada e portas com grades onde sobressai o desenho de losangos superpostos. Foi construído na década de 1930.

 

 

Edifício GuahyEdifício Guahy - Rua Ronald Carvalho, 181 – Esquina da Rua Ministro Viveiros de Castro -Edifício em forte estilo art-déco, com interessante trabalho de relevo que acompanha o arco da porta, e movimentada fachada, graças ao zig-zag criado pela saliência das sacadas. O Edifício Guahy é tombado pela Municipalidade desde 1990.

 

 

 

Edificio SescO edifício do SESC na Domingos Ferreira é projeto de Oscar Niemeyer, e foi inaugurado em 1996. É um dos marcos mais significativos da arquitetura moderna no bairro. As sacadas em ângulo produzem um efeito escultural que quebra a rigidez da lâmina vertical do prédio. No subsolo há garagens e nos andares acima funcionam refeitório, salas de aulas, teatro, auditórios, biblioteca e cinco andares de quartos, que correspondem ao hotel-escola.

 

 

Edifício América – Rua Ministro Viveiros de Castro, 110 – Muito simples, em estilo art-déco, com hall de ingresso em mármore rosa com listras em rosa escuro. Erguido na década de 1930. No fundo do prédio sobrevivem cinco grandes árvores: um oitizeiro, duas amendoeiras e dois algodoeiros do Pará. As cinco árvores existentes nos fundos são tombadas pela Municipalidade desde 1991.

Edifício América
Edifício América

Edifício Caxias – Rua Ministro Viveiros de Castro,116 – A fachada fortemente marcada pelas verticais que criam um jogo muito interessante, pleno de força e criatividade. Em estilo art-déco. Erguido na década de 1930.

Edificio Caxias
Edificio Caxias
Edificio Caxias

Edifício ItaócaEdifício Itaóca – Rua Duvivier, 43 – Esquina de Av. N. S. de Copacabana -Na esquina do Itahy, o estupendo Itaóca projetado em 1938 por Robert R. Prentice e Anton Floderer, autores de sucesso de numerosas residências e edifícios de apartamentos. O Itaóca se levanta imponente com seus claros volumes cúbicos e parece guardar todos os prédios art-déco das redondezas. Notar o desenho em bandas horizontais do primeiro e último andar, os desenhos verdes triangulares (foto 2)que, como reminiscências quase aztecas, enfeitam cada andar na fachada principal, as grades com desenho geométrico de módulo triangular, e, sobretudo, a entrada do vestíbulo revestida com majólicas verdes no gênero das que empregara o arquiteto Buddeus no seu bonito prédio da Rua da Alfândega, no. 48 (hoje muito descaracterizado).

Edifício Itaóca

 

 

 

 

 

Edifício Justus Wallerstein Edifício Justus Wallerstein – (à esquerda) Av. Atlântica, 3.958 – Projeto moderno de Sérgio Bernardes, datado de 1960. Houve especial cuidado do arquiteto com desenho dos elementos pré-fabricados.

Palacete VeigaPalacete Veiga,(à direita)também uma das grandes arquiteturas de Copacabana

Edifício Oxford, na Ronald de Carvalho, uma das obras admiráveis de Copacabana.

 

 

 

 

 

 

Edifício Ophir – (Fotos 1, 2, 3)Rua Ronald Carvalho, 154 – Esquina da Rua Ministro Viveiros de Castro -Sem dúvida o prédio mais coerente deste grupo. Nele toda a decoração em estilo art-déco repete o mesmo desenho de ângulos retos ascendente até o centro, seja nas grades, como no corte dos mármores do corredor de ingresso, seja nos arcos. Tudo chegando à sua realização mais rica na porta de cristal bizotado, onde as linhas que descem dos ângulos terminam em delicadas espirais.

Edifício Tuyuti – (Foto 4)Rua Ministro Viveiros de Castro, 100 –Muito simples, com porta interessante onde são notáveis os agradáveis conjuntos de flores tipicamente art-déco no seu geometrismo.

Detalhe grade Edifício Ophir
Detalhe  Edifício Ophir
frente Edifício Ophir
Edifício Tuyuti

Palacete PiratiningaPalacete Piratininga – (à esquerda)Av.Rainha Elisabeth, 152 - Posto VI-Prédio em estilo art-déco, erguido na década de 1930, muito simples, onde devemos notar as janelas dos saguões de cada andar com interessante desenho de vidro e ferro, o movimentado desenho das grades e no pátio a esbelta escada.Edifício multifamiliar – Av.Rainha Elisabeth, 729 – Posto VI – Grande edifício multifamiliar em estilo art-déco, projetado em 1937 pelo arquiteto austríaco Arnaldo Gladosh, inspirado em construções similares feitas à época em seu país de origem.

Edificio ImperadorEdifício Imperador – (à direita) Av. Atlântica – Esquina de Joaquim Nabuco – Posto VI–Grande edifício multifamiliar com acentuada volumetria e ângulos abaulados ou em curva, construído em 1938 por Cápua & Cápua engenheiros e arquitetos. Um dos ícones do estilo art-déco no bairro.

 

 

 

O prédio que virou fundo (à esquerda)foi projetado na década de 1930, em estilo art-déco e que obedecia aos recuos estipulados pelo urbanista francês Donnat Alfred Agache, contratado em 1928 pelo Prefeito Prado Júnior, e que especificava em seu “Plano de Remodelação e Embelezamento do Rio de Janeiro”, de 1930, os jardins frontais nos prédios, mesmos os de orla marítima. Pois bem, na década de 1960 construíram no recuo, coisa absurda, que só no Rio de Janeiro pode acontecer.

Clube Israelita BrasileiroCongregação Religiosa Israelita Sinagoga Beth - (à direita)Rua Barata Ribeiro, 489-No ano de 1921, um grupo de judeus sefarditas fundou uma sinagoga numa casa de sobrado comum, na Avenida Mem de Sá, 181. Crescendo a comunidade, esta se transferiu alguns anos depois para a Rua Conselheiro Josino, 14. Com o pomposo nome de Centro Israelita Brasileiro Bené-Herzl, a sinagoga estava instalada um belo sobrado eclético, com dois andares e um terraço. Se tivesse sido preservado seria um importante bem cultural da cidade, mas o êxodo dos membros para a Copacabana, em fins da década de 50, levou a transferência das instalações da congregação para o novo bairro praiano. A velha sinagoga acabou depois demolida.
Beth-El - Adquirida uma bela casa na Rua Barata Ribeiro, 489, lá existia um salão para práticas religiosas, além de área de lazer e desportos.
Havendo necessidade de um espaço maior para as práticas religiosas, entre 1966/7 foi construída a nova sinagoga Beth-El num terreno anexo ao casarão, um projeto muito sóbrio e discreto. Projetada pelo arquiteto Mauro Kleimann, a sinagoga é em arquitetura moderna, desprovida de qualquer luxo, exceto pelos revestimentos externo e interno em mármore branco imaculado. Internamente, os únicos elementos decorativos se resumem a uma tapeçaria moderna com o tema das Tábuas da Lei e um moderno Menorah em bronze.

Detalhes da entrada do Edifício Itahy - NS Copacabana, 252

Detalhe da entrada do Edifício Itahy
Detalhe da entrada do Edifício Itahy

1.Fundada em 1948, a Galeria Menescal conserva seus belíssimos afrescos na cúpula da Galeria.

Edifício Santa Helena , na Rua Ronald Carvalho, 132, da década de 30 e possui bela portaria.

Afresco Galeria Menescal Edifício Santa Helena  

Residência Unifamiliar– Av. Atlântica, 3.804 –Erguida em 1927 sob projeto em estilo art-déco do arquiteto Júlio de Abreu Júnior, foi uma obra pioneira dentro da arquitetura moderna no Rio de Janeiro. É uma das últimas residências da orla de Copacabana.

 

BAIRRO DO PEIXOTO ( BAIRRO PEIXOTO)

O Comendador Paulo Felisberto Peixoto da Fonseca nasceu a 14 de dezembro de 1864, em Portugal, vindo para o Rio de Janeiro com 11 anos. Dedicou-se ao comércio de secos e molhados, onde prosperou muito. Após alguns anos adquiriram uma mercearia.

Depois de 1898 passou também a administrar bens imobiliários de lusitanos no Brasil, quando então adquiriu imensa chácara no areal de Copacabana, entre as ruas Figueiredo Magalhães e Santa Clara. Viúvo em 1929 de Dona Orminda Cunha, brasileira, e sem filhos, passou a se dedicar a obras de caridade.

Ainda em vida doou todos os seus principais bens para instituições beneficentes lusitanas, sendo que os terrenos de Copacabana foram repartidos entre várias entidades de assistência social e hospitalar de Portugal e do Brasil, principalmente à Caixa de Socorros D. Pedro V. Esta última, solicitou à Prefeitura em 1939 o loteamento das terras de Copacabana, tendo o engenheiro José de Oliveira Reis projetado as ruas Henrique Oswald, Maestro Francisco Braga, Décio Vilares e Praça Edmundo Bittencourt, surgindo então o que se chamou Bairro do Peixoto.

Ao contrário do restante de Copacabana, somente foram autorizadas construções de poucos pavimentos ou unifamiliares, evitando assim a verticalização do bairro. A única exceção, o edifício São Luiz Rei, desabou fragorosamente em 1951, poucos dias antes de sua inauguração.
O Comendador Peixoto faleceu no Brasil a três de novembro de 1947. Hoje, seu bairro é denominado de Oásis de Copacabana, pela tranqüilidade que apresenta em relação às barulhentas ruas vizinhas.

A atriz Beth Mendes, o jornalista Arthur Xexéo, a produtora Denise del Cueto e o saudoso Contijo Teodoro escolheram o Bairro Peixoto como moradia.

 

FORTE DUQUE DE CAXIAS - LEME

Forte do LemeEm princípios do século XVIII, o morro e praia do Leme eram um lugar ermo, com palhoças de pescadores e caiçaras. O nome Leme era devido ao formato do morro, que, com seus 124m de altura, lembrava o “leme” das embarcações de então. Logo após a invasão francesa de 1711, foi instalado em seu topo um posto de vigia, com bandeiras e fogos de artifício, para anunciar a aproximação de navios. Em 1776, o Marquês de Lavradio, Vice-Rei do Brasil, ordenou a construção de um forte no lugar do posto semafórico, o que foi feito antes de 1779. Em 1791, o Vice-Rei Conde de Resende mandou retirar dali toda a guarnição, por motivos de economia. Reza um documento antigo que o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, serviu em 1785-89 como oficial de ligação entre este forte e os de São João, na Urca e Copacabana, na ponta da Igrejinha.
Após a Independência, o forte foi artilhado com cinco canhões de ferro em 1823 (dos quais três ainda existem na entrada), para oito anos depois ser novamente abandonado por ordem da Regência Trina, sendo que, desta vez, o abandono perdurou noventa anos. Em 1913, estando o Brasil em severa crise diplomática com a República Argentina, resolveu o Presidente Hermes da Fonseca erguer no local um moderno forte para defesa da entrada da barra. Fez o projeto o Coronel engenheiro Augusto Tasso Fragoso, coordenando os trabalhos o Major Arnaldo Paes de Andrade. O projeto foi levado à Alemanha, para ser detalhado pela casa Krupp, de Essen, que o reprojetou em blocos pré-moldados de concreto armado. Como armamento, foram projetados quatro obuseiros gigantes Krupp de 120mm, fabricados especialmente para esta fortificação, sendo a parte elétrica executada pela firma AEG, de Berlin. Dificuldades no transporte de materiais para o topo do morro atrasaram a obra, concluída em maio de 1917. Três meses depois, declaramos guerra ao Império Alemão em conseqüência do torpedeamento de navios brasileiros durante a 1a. Guerra Mundial, tendo sido expulsos do Brasil todos os técnicos daquela nacionalidade que trabalhavam na fortificação, sem, no entanto, nos ensinar como usar aqueles armamentos, o que fez o Forte do Leme ter uma atuação passiva durante aquele conflito.
Durante a construção, em 07 de setembro de 1915, foram instalados holofotes no morro do Leme, tendo se simulado um ataque noturno da esquadra brasileira, fazendo-se passar pela marinha Argentina, ao Rio de Janeiro. Na hora da exibição, com a presença do Presidente da República, ministros e autoridades, falhou a instalação elétrica e os holofotes ficaram às escuras. O assunto repercutiu muito na imprensa Argentina e houve militar portenho que viu nisso uma oportunidade perdida de se atacar o Brasil.
Em 1935, o forte foi rebatizado para Duque de Caxias, em homenagem ao Patrono do Exército Brasileiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, manteve o Forte Duque de Caxias posição de atalaia vigilante, tendo ocorrido episódio pitoresco na ocasião. Em fevereiro de 1943, um vigia da fortificação deu o alarme de que vários submarinos alemães estavam próximos da entrada da barra. O Capitão Sadock de Sá, ordenou fogo e começou intenso tiroteio, que contou com o concurso do Forte de Copacabana e das Fortalezas de Santa Cruz e São João. Depois de algum tempo, verificou-se que os tais submarinos eram baleias, felizmente não atingidas pela chuva de petardos. O comandante foi submetido a Conselho de Guerra, sendo absolvido, haja vista que não se possuía no Brasil radares, sonares ou outros detetores que pudessem diferenciar uma baleia de um submarino.
Em novembro de 1955, o Forte Duque de Caxias deu seu último disparo efetivo contra o Cruzador Tamandaré, que fugiu barra afora levando o presidente deposto, Dr. Carlos Luz, ministros e aliados. O navio foi alvejado por vinte minutos sem ser atingido, apesar de só estar com metade das máquinas em funcionamento. Nove anos depois, o Forte Duque de Caxias foi desativado, para ser convertido em 1965 no Centro de Estudos de Pessoal do Exército, importante instituição de ensino superior comportando diversos cursos de pós-graduação em áreas técnico-administrativas, abertos à classe civil, mas voltados principalmente ao aprimoramento da oficialidade das Forças Armadas, tanto do Brasil quanto do estrangeiro.
Permanece, hoje, no alto do morro do Leme, o velho forte, desativado, preservado como relíquia histórica militar, inserido em importante contexto paisagístico e ecológico, rigorosamente intactos e mantidos com muito zelo pelo Exército Brasileiro.

MUSEU HISTÓRICO DO EXÉRCITO E FORTE DE COPACABANA

O Vice-Rei Marquês de Lavradio mandou erguer em 1776 um pequeno forte em alvenaria onde era a antiga ponta da Igrejinha, na praia de Sacopenapan. Sua função era prevenir ataques dos espanhóis, que no ano seguinte, realmente, invadiram o território nacional e atingiram a Capitania de Santa Catarina. O forte nunca foi terminado e somente foi artilhado em 1823, quando se temia um ataque português às nossas costas. Em 1831, foi mandado desarmar pela Regência provisória. Quando da Revolta da Armada, em 1893, voltou a ser artilhado, mas sua ancianidade já estava patente: nada pôde fazer para impedir a saída dos navios revoltosos da Baía de Guanabara. Anos depois, uma ameaça de guerra contra a República Argentina fez com que o Estado Maior do Exército encomendasse em 1898 o projeto de uma nova fortificação ao major engenheiro Augusto Tasso Fragoso, que elaborou um anteprojeto da Fortaleza de Copacabana, com seis canhões de longo alcance. A solução de uma grave questão de fronteira com aquela República foi resolvida diplomaticamente pelo Barão do Rio Branco, fazendo com que o projeto da citada fortificação fosse engavetado.

Tendo as relações entre a Argentina e o Brasil novamente piorado na primeira década do século XX, decidiu-se pela construção da fortificação, tendo sido enviado o projeto de Tasso Fragoso a Casa Krupp, de Essen, na Alemanha, para ser atualizado e orçado. Foi a obra toda recalculada para ser executada em peças de concreto pré-moldadas na Alemanha, sendo os canhões adaptados aos novos calibres surgidos. Fez as alterações o major engenheiro Otto Kuhn. Em 1908, sendo Presidente da República Afonso Augusto Moreira Penna e Ministro da Guerra o Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, foi dado início à obra da fortificação, que veio quase toda desmontada da Alemanha em 5.000 caixotes, desembarcados num cais construído especialmente para isso ao lado da ponta de Copacabana. Coordenou a obra o Major Arnaldo Paes de Andrade. Foi, finalmente inaugurado o Forte de Copacabana a 28 de setembro de 1914, sendo classificada na ocasião de fortificação de 1a. Classe. Era dotada de seis canhões Krupp de longo alcance: dois de 240mm; dois de 180mm e dois de 75mm. O alcance máximo atingia 28km. O útil, 21Km. Os quatro primeiros podiam girar 360o. Os dois últimos somente 180o. Na época não existia nada que a superasse na América Latina. Em 1918 a área do forte foi ampliada, tendo o Exército adquirido a rua de acesso e comprado à Mitra a igrejinha de Nossa Senhora de Copacabana, erguida ai por volta de 1715, e demolida em 1918-19 por ficar na linha de fogo dos quatro maiores canhões. Na mesma ocasião foi construído o quartel de paz e ampliadas as instalações elétricas, fornecidas pela firma AEG, de Berlin, tão poderosas que podiam fornecer energia elétrica a todo o bairro de Copacabana. O artístico portal da Praça Coronel Eugênio Franco, bem como a magnífica entrada da Praça d`Armas, foi projeto do major engenheiro Volmér da Silveira.

Em princípio de julho de 1922, depois de longos atritos entre o Governo Epitácio Pessoa e o Exército, foi ordenada a prisão do Marechal Hermes da Fonseca, por insubordinação. Comandava o Forte de Copacabana, na ocasião, o Capitão Euclides Hermes da Fonseca, que intentou um plano para derrubar o Governo pela força das armas. A rebelião foi marcada para cinco de julho, mas o Governo se antecipou e trocou os principais comandos das guarnições das fortificações da cidade, tendo em conseqüência disso que apenas os Fortes de Copacabana e Leme, este último desarmado; e a Escola Militar, aderiram ao movimento, sendo que os dois últimos foram logo debelados. O Forte de Copacabana fez vários disparos contra o Quartel General do Exército, no Campo de Santana; o Ministério da Marinha, na Praça Barão de Ladário; a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói; e o Forte de São João, na Urca; atingindo somente o primeiro, no segundo tiro. O Capitão Euclides Hermes saiu da fortificação para negociar e foi preso em Laranjeiras. Assumiu, então, a chefia do movimento, o Tenente Antônio de Siqueira Campos, que verificou a total impossibilidade de resistência, bem como o sacrifício que tal atitude estava custando à população da cidade, com as balas atingindo alvos civis. Também observou que os canhões haviam sido sabotados, e agora o Forte era bombardeado pelo Encouraçado São Paulo e por aviões militares. Resolveu então abrir o Forte, permitindo que os desejosos de rendição assim o procedessem. Trezentos se renderam, ficando fiéis ao movimento apenas 28 homens. Resolveu-se então marchar até o Catete, num ato de protesto suicida. Às 13:00h do dia 06 de julho, iniciaram a marcha, juntando-se a eles o engenheiro civil Otávio Correia, amigo de Siqueira Campos. Um número até hoje não especificado de integrantes se rendeu ou desertou, ficando ao final apenas 11 ou 13 do grupo original. Na altura da rua Barroso, atual Siqueira campos, foram obstaculizados por uma força legalista, iniciando-se um tiroteio que durou uns trinta minutos. Ao final, foram capturados, muito feridos, o Tenente Siqueira Campos, com um tiro no abdômem; o Capitão Eduardo Gomes, com um tiro na virilha; e dois soldados. Os outros morreram na ocasião ou no hospital, em conseqüência dos ferimentos recebidos.

A atitude de protesto contra o Governo da República Velha fôra debelada, mas o exemplo frutificou, originando o dito "Movimento Tenentista" e a legenda dos "Dezoito do Forte" (termo cunhado pela imprensa, que desconhecia o número real de participantes), os quais representavam uma atitude de protesto da classe média à oligarquia que nos governava. Dois anos depois, na mesma data, estourava movimento similar em São Paulo, e de 1925 a 27 o país foi palmilhado pela Coluna Prestes, com idêntico objetivo. A vitória dos tenentes deu-se na Revolução de 1930, com a queda do Governo e a ascensão de Vargas. A 24 de outubro de 1930, o Forte de Copacabana serviu de presídio ao presidente deposto, Dr. Washington Luís Pereira de Sousa, bem como ao Prefeito do Distrito Federal, Antônio Prado Júnior. Partiram ambos em exílio, direto dali para a Europa.

O Forte de Copacabana teve atuação discreta durante a Segunda Guerra Mundial, tendo dado seus últimos disparos efetivos em novembro de 1955, contra o Cruzador Tamandaré, que se rebelara e fugira para São Paulo, levando a bordo o presidente deposto, o Sr. Carlos Luz, bem como parte de seu ministério e aliados. Foram feitos doze disparos durante vinte minutos, sem, no entanto, atingir a embarcação, que estava desarmada e só com uma hélice funcionando. Em 1964, o Forte não aderiu ao movimento militar de 1o. de abril, tendo sido tomado pela força de terra enviada pelo Coronel Cézar Montagna, ocorrendo então o famoso "episódio da bofetada", quando o dito Coronel derrubou a sentinela da entrada com um golpe de mão, invadindo e tomando a fortificação, sem o uso de armas. Durante o regime militar, serviu o Forte de Copacabana de presídio político.

Desativado totalmente em 1986, foi reaberto no ano seguinte como Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, muito ampliado em meados da década de noventa por ordem do Ministro do Exército Zenildo de Lucena, sendo suas instalações equipadas com os mais modernos processos museológicos, tornando-se importante bem cultural da cidade e repositório de elevadas tradições militares. A área de entorno, cujos terrenos chegam ao Arpoador, igualmente tornou-se notável área de lazer para a população carioca, sendo palco de eventos marcantes, particularmente no Reveillon, onde há artística queima de fogos e disputada recepção.

O PALÁCIO DO MAR - HOTEL COPACABANA PALACE

Em 1920 o Presidente da República, Epitácio Pessoa, convocou o empresário do setor de hotelaria Octávio Guinle e fez-lhe a proposta para construção de um grande hotel de turismo no Rio de Janeiro. A iniciativa visava atender ao grande fluxo de visitantes previstos para a Exposição Internacional comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, que se realizaria em 1922, no Castelo. Seriam concedidos benefícios fiscais, bem como a licença para nele funcionar um cassino, este último uma exigência dos Guinle. A proposta foi aceita e essa é a origem do Hotel Copacabana Palace.

Octávio Guinle adquiriu então um alqueire de terras na Praia de Copacabana, que naquela época ainda era ocupada escassamente por algumas casas. O terreno dava frente para a Avenida Atlântica, alargada em 1919 por Paulo de Frontin. Contratou-se o afamado arquiteto francês Joseph Gire, o qual projetou um estabelecimento bastante calcado nos modelos dos hotéis Negresco e Carlton, de Nice, na Côte D`Azur. Foi entregue a construção ao engenheiro brasileiro César Mello e Cunha. Dificuldades de importação de materiais de construção, quase todos vindos da França, bem como o transporte dos mesmos para o Brasil e para Copacabana, assim como também os profundos alicerces de 14m exigidos e para a confecção dos quais ainda não tínhamos tecnologia, atrasaram de muito a obra, somente possível de ser inaugurada em 13 de agosto de 1923, quase um ano após o encerramento da dita Exposição Internacional. Na noite de estréia, deveria ocorrer um show com a artista francesa Mistinguett, mas seu contrato com o Teatro Lírico a proibiu.

O Presidente Arthur Bernardes, sucessor de Epitácio Pessoa, tentou em 1924 cassar a licença para nele funcionar um cassino, haja vista que a construção do mesmo ultrapassara o prazo estipulado pelo Governo. Depois de longa pendência judicial, a família Guinle obteve ganho de causa em 1934. A visão de Octávio Guinle mostrou-se correta e logo se tornou o Copacabana Palace lugar de encontro da sociedade brasileira e de celebridades internacionais, ultrapassando de muito a tímida visão espalhada pela crítica da época de que ninguém se hospedaria em hotel tão distante do centro. Nesses primeiros dez anos de vida, o Copacabana Palace foi palco de eventos históricos e dramáticos.

Ainda em construção, sofreu violenta ressaca em 1922, que lhe destruiu toda a Avenida Atlântica e causou-lhe danos nos pavimentos inferiores. Em 1925 hospedou a primeira personalidade mundial, na figura do cientista Albert Einstein. Em 1928, num de seus salões, foi alvejado por uma bala o Presidente Washington Luís, num tiro dado por sua amante francesa durante um arrufo. O Presidente foi socorrido pelo médico Francisco de Castro e o episódio abafado. No mesmo ano, em dezembro, hospedou-se no Copacabana, em profunda crise de depressão, o inventor Alberto Santos Dumont, já com a mente bastante debilitada e muito triste ao presenciar, na sua chegada ao Brasil, um horrível acidente aéreo, quando o avião que jogaria pétalas de flores em seu barco bateu na água, na Baía de Guanabara e explodiu, matando seus doze ocupantes.

Em 1933 o Copacabana Palace seria conhecido internacionalmente por um filme realizado em Hollywood, "Flying down to Rio", com Dolores Del Rio, Fred Astaire e Ginger Roger, ambientado no hotel, mas todo realizado em estúdios nos Estados Unidos, com cenários pintados do Rio de Janeiro e a praia de Malibu "dublando" Copacabana. O filme foi um sucesso e tornou o hotel famoso mundialmente da noite para o dia. Em 1934, foi construída a piscina do hotel, em projeto de César Mello e Cunha, depois ampliada em 1949. Em 1938 inaugurou-se o "Golden Room", com show de Maurice Chevalier.

O Príncipe Edward de Gales, futuro Rei Edward VIII da Inglaterra, bem como seu irmão Jorge, igualmente futuro monarca britânico, se hospedaram no Copa em 1931, tendo Edward protagonizado um rumoroso episódio constrangedor para a Família Real Britânica ao se apaixonar por uma senhora brasileira, Negra Bernardez, desquitada e mãe de dois filhos, a qual ele queria levar de todo o jeito para a Inglaterra e com ela se casar. Em seus arroubos, chegou a intentar um vôo num avião experimental trazido desmontado em seu navio para impressionar sua amada, jogando-lhe flores do alto sobre sua casa, no que foi dissuadido do ato por seus assessores. Não se refez do episódio, tomando "homérico" porre e jogando-se todo fardado na piscina do Country Club de Ipanema. Anos depois, Edward, já Rei da Inglaterra, renunciaria ao trono para casar com a desquitada americana Lady Simpson, com quem viveu o amor de sua vida. Quanto à Negra Bernardez, a mulher que recusou ser rainha da Inglaterra, era mãe do afamado colunista social Manuel Bernardez Müller (Maneco Müller).

A Segunda Guerra Mundial tornou o Copacabana Palace o único hotel de turismo de porte capaz de hospedar a elite internacional sem sofrer do perigo de um bombardeio. Foram os anos áureos do hotel. A política de boa vizinhança para com os Estados Unidos, estabelecida em 1942, fez com que grandes personalidades daquele país nos visitassem e se hospedassem no Copa. Praticamente todos os grandes atores de Hollywood nele tiveram pouso: Clark Gable, Edward G. Robinson, Fred Astaire, Dolores Del Rio (finalmente no Copa!), Katerine Hepburn, Lana Turner, Marlene Dietrich (que realizou show memorável em 1959), Orson Welles (que "morou" seis meses no hotel em 1942, e que num acesso de fúria jogou os móveis de seu quarto na piscina...), Walt Disney (que nele esboçou o personagem "Zé Carioca"), Josephine Baker (que manteve encontro furtivo com Le Corbusier), e muitos outros.

Após a guerra, com a proibição do jogo em abril de 1946, passou o Copacabana Palace por ampla reforma, que lhe aumentou a capacidade, acrescentando dois andares ao prédio principal, mais a pérgula lateral, que se tornou ponto de encontro da sociedade brasileira e estrangeira, e ergueu-se o anexo nos fundos, inaugurado em 1949. No antigo cassino foi instalado o teatro Copacabana, responsável pelo lançamento de muitos talentos da dramaturgia nacional. Fez a reforma do Copa o arquiteto Wladimir Alves de Sousa, que soube preservar a ambiência antiga do hotel. O anexo tornou-se logo lugar não só para residência de hóspedes ilustres, como também para encontros furtivos importantes, pois existia uma elaborada passagem subterrânea, por detrás do salão de cabeleireiro, que conduzia quem não quisesse ser visto daquele lugar até o anexo. Devem ter sido encontros extremamente apaixonados, pois pelo menos dois amantes morreram do coração, um deles importante senador da República por São Paulo e outro um respeitável banqueiro carioca...

Quem quase morreu no Copa, mas de coração partido, foi a grande cantora nacional Carmem Miranda, frustrada pelo fracasso de seu casamento. Carmem trancou-se em seu quarto em dezembro de 1954 e pensou seriamente em se matar, desistindo após olhar a bela paisagem da orla de Copacabana da janela de sua suíte. Carmem, aliás, seria muito mais lembrada pela alegria que exarava em seus shows no Golden Room que por este episódio, que com o tempo lhe levaria à morte em agosto de 1955.

Os anos cinqüenta foram o canto-do-cisne da fase áurea do Copacabana Palace, que entra em lenta decadência após a transferência da capital para Brasília em 1960. Continuou como um importante hotel da cidade, servindo de pouso a visitantes ilustres do Rio de Janeiro (como os astronautas da Apolo 11), palco da vida social da cidade, onde famosos cronistas sociais iam buscar matérias para suas colunas, até ser superado por hotéis mais modernos na década de setenta. Em 1985, quando intentaram sua demolição, foi tombado pelas três esferas: IPHAN (Federal), INEPAC (Estadual) e DGPC (Municipal). Em fins da década de oitenta a família Guinle, na figura de seu herdeiro e presidente José Eduardo Guinle, vendeu-o em 1989 ao grupo "Orient Express", que o reabilitou, modernizando velhas instalações sem descaracterizá-las.

Presentemente é o Hotel Copacabana Palace um dos mais importantes estabelecimentos hoteleiros da cidade, com modernas 236 acomodações palacianas e dos mais queridos bens culturais do Rio de Janeiro, local de confluência de vários episódios importantes do século XX, sendo preciosa lembrança de uma época de fastígio e esplendor, único bem deste gênero sobrevivente na cidade.

 

A PRIMEIRA LIGAÇÃO ENTRE O BRASIL E A EUROPA ATRAVÉS DE UM CABO SUBMARINO.

Tendo em vista o 114º aniversário do bairro de Copacabana passar agora a 6 de julho, relembro aqui uma outra data importante para o Brasil onde nosso futuroso bairro serviu de palco. A da ligação do cabo submarino com a Europa, ocorrida há 153 anos atrás e que representou para nossa terra um evento tão ou mais importante que a implantação da moderna Internet há pouco mais de dez anos.
Em 1853, dentre as propostas recebidas para a instalação de um cabo submarino no Brasil, estava uma que faria a ligação do Rio de Janeiro, Recife e Belém com a Europa. Naquela época, apenas quatro anos após a instalação do primeiro fio telegráfico instalado através do mar no mundo, o Governo Imperial já se preocupava com a comunicação telegráfica entre o nosso país e o continente europeu.
Depois de muitas concessões que não deram em nada, a 16 de agosto de 1872, o Decreto 5.058 concedeu ao Barão de Mauá o privilégio, por 20 anos, para lançar cabos submarinos e explorar a telegrafia elétrica entre o Brasil e a Europa. Finalmente, a 22 de junho de 1874, o Brasil era ligado à Europa pelo cabo submarino. Nesse dia, por seus serviços prestados, o Barão de Mauá foi elevado a Visconde.
Desde 23 de dezembro do ano anterior, o Rio de Janeiro já estava ligado, por esse meio, à Bahia, Pernambuco e Pará. Nesse dia, efetuou-se na Praia de Copacabana, nas proximidades da Igrejinha (onde hoje é o Forte de Copacabana), o desembarque do cabo que pôs a Côrte em comunicação com o norte do Império. Pela manhã, a bordo do navio Hooper, da Telegraph Construction and Maintenance Company, fora cortado o cabo e ligado a outro que já estava em um saveiro puxado por um rebocador. Às 11:30h chegou à praia o Imperador D Pedro II acompanhado de autoridades e semanários do Paço. Começou, então, o saveiro a aproximar-se da costa, lançando o cabo, cuja extremidade, já perto da praia, foi unida a outro de maior diâmetro. D. Pedro foi o primeiro a puxá-lo, logo que saiu do mar. Eram 2 horas da tarde. Trazido, depois, até a um casebre onde é hoje o prédio no. 4.228 da Avenida Atlântica, no qual se achavam as pilhas elétricas e demais instrumentos, Sua Majestade, precisamente às 14:20h, deu os sinais convencionais chamando o telegrafista da Bahia, que foram imediatamente respondidos, e dirigiu o seguinte telegrama ao presidente daquela Província em primeiro lugar e, depois, aos das Províncias de Pernambuco e Pará: "Já se acha o cabo submarino no território da capital do Brasil. A eletricidade começa a ligar as cidades mais importantes deste Império, como o patriotismo reúne todos os brasileiros no mesmo empenho pela prosperidade de nossa majestosa pátria. O Imperador saúda, pois, a Bahia, Pernambuco e Pará por tão fausto acontecimento, na qualidade de seu primeiro compatriota e sincero amigo. Até aos bons anos de 1874".
Seis meses mais tarde, a notícia da comunicação com a Europa, via Recife, foi transmitida à Côrte pelo presidente da Brazilian Submarine Telegraph Company (depois The Western Telegraph Co., Ltd.). O Imperador se achava em visita à Biblioteca Nacional, então situada na rua do Passeio no. 46. Dali mesmo mandou passar telegramas para o Presidente da Companhia, Sir Daniel Gooch, e aos monarcas britânico, português, austríaco e italiano, bem como a outros. Algum tempo depois, a Imperatriz Teresa Cristina Maria igualmente enviou telegramas a seus irmãos e demais parentes no exterior.
O assunto oi comunicado com júbilo à Câmara dos Deputados e por muitos dias os jornais reproduziram os telegramas transmitidos em tempo real entre várias autoridades européias e o Brasil. Nas ruas, houve comemorações de júbilo e até um pequeno "carnaval" fora de época. Um grupo de brasileiros exaltados pretendeu até erguer um monumento dedicado a tão importante evento, mas tudo não passou de fogo de palha...
Quatro anos depois, premido por dívidas contraídas com o Governo e credores diversos, pedia falência o idealizador da ousada obra, o Visconde de Mauá.

A Igrejinha de Copacabana

Pesquisa iconográfica realizada por Milton de Mendonça Teixeira - maio de 2.003.

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A FONTE DA POLÊMICA

Entre as duas bocas do túnel do Leme, no lado de Botafogo, fica localizado um grande monumento em mármore que poucos notam. Está abandonado, pichado, sujo e vandalizado. Entretanto, quando foi inaugurado há exatos cem anos, a festa contou com a presença do presidente da República, prefeito, dois representantes de ministros de Estado, além de muitas autoridades. Denominada oficialmente de fonte Adriano Ramos Pinto, representa um grupo de beldades tentando escalar um cume em direção ao amor, representado por Cupido.

É uma das obras de arte mais interessantes e menos conhecidas das que existem nos jardins do Rio. Aqui, em poucas linhas, conto um pouco de sua história.

Durante o ano de 1905, a cidade passava por extensa remodelação urbanística realizada no quadriênio do presidente Rodrigues Alves. O prefeito Francisco Pereira passos estava por trás das grandes obras, mas algumas delas, como a remodelação do pôrto e a abertura da avenida Central, corriam por conta do Governo Federal.

Dentre as muitas intervenções viárias desenvolvidas pela Prefeitura, estava a abertura da avenida Beira Mar, executada por partes, e que começava no Centro do Rio, próximo á rua Santa Luzia, indo até o morro do Pasmado, em Botafogo. Foi a obra mais complicada executada pela Municipalidade, pois representou um avanço de 33 metros sobre a linha do cais original de toda a orla da zona sul da baía, tendo, em sua extensão, sido demolidos pardieiros, desapropriadas velhas casas e aterradas praias; em contrapartida, foi ordenada a construção de novas muralhas, monumentos e jardins, os quais, converteram a orla dos bairros da Glória a Botafogo na nova atração comercial do incipiente mercado imobiliário da Capital Federal.

Na Glória, o prefeito exigiu em 1904 a demolição de um velho mercado abandonado, substituindo-o por um jardim de traçado romântico ornado de estátuas, no gênero do que fôra feito na orla de Botafogo.

Foi nesse momento que dois industriais vinícolas portugueses, os irmãos Adriano Ramos Pinto, do Pôrto, decidiram erguer um marco perene em memória do importante momento que atravessávamos com a doação de um monumento a ser inaugurado no novo jardim próximo à igreja da Glória. Primeiro consultaram o famoso escultor português A. Teixeira Lopes, que poucos anos antes executara as belas portas em bronze da igreja da Candelária, premiadas na Exposição Nacional de 1900, em Paris. Não estando disponível o escultor patrício, voltaram os irmãos à cidade luz, onde, na exposição do Salão de 1905, encontraram a maquete da escultura intitulada "Jouvence" (Mocidade), do artista bretão Eugène Thivier, com quem logo trataram da ampliação e execução.

Adquiriram um bloco de mármore de Carrara alvíssimo, com 37 toneladas e sete metros de altura, onde foi esculpida a ampliação da "Mocidade". Entretanto, na hora de transportá-lo, ficou muito incômodo seu embarque, o que obrigou o artista a serrá-lo em sete partes, vindo para o Brasil perfeitamente acondicionado e acompanhado por pessoa idônea que também cuidou da montagem e assentamento.

Colocada nos jardins da Glória, mais ou menos onde hoje está a saída da estação do Metrô, foi inaugurada a 24 de janeiro de 1906. O Jornal do Commércio do dia seguinte noticiou a festa:

"Com a presença do Presidente da República, é inaugurada, no jardim da praça da Glória, a "fonte artística" oferecida à cidade pelo comerciante de vinhos Adriano Pinto.

Foi ontem inaugurada, no jardim da praça da Glória, a fonte artística.

Nenhum Ministro de Estado compareceu e apenas se fizeram representar o da Guerra e o da Viação.

O local estava enfeitado com folhagens e galhardetes, sobressaindo as cores nacionais, francesas e portuguesas.

O Sr. Presidente da República a convite do Sr. Prefeito descerrou a cortina que envolvia o monumento, ato esse que foi recebido pela assistência com uma salva de palmas. S.Ex. deteve-se algum tempo examinando a fonte. Em seguida, o Dr. Aureliano Portugal, Secretário do Sr. Prefeito, leu um discurso em que traçava a série de melhoramentos ultimamente feitos pela União e pela Municipalidade, nesta capital, e agradecia a oferta daquela peça ornamental feita pela firma comercial acima referida.

Finda essa alocução o Sr. Dr. Pereira Passos convidou o Sr. Presidente da República e demais convidados a servirem-se de uma mesa de doces que lhe estava reservada no English Hotel.

Ao champagne o Sr. Olavo Bilac, em nome do Sr. Prefeito, saudou o comércio luso-brasileiro e agradeceu a firma Adriano Ramos Pinto & Irmãos a oferta da fonte...".

Mas a opinião pública não foi unânime. Dias antes da inauguração um morador do Rio se mostrava indignado na coluna "A Pedido" do mesmo Jornal do Commércio: "E depois, isto de um fabricante de vinhos oferecer uma fonte para água... é o diabo!". O povo comentava nas ruas que a fonte não passava de um grande "reclame" (propaganda) da firma lusitana de vinhos.

Contam antigos cariocas que nem o prefeito gostou muito da escultura, considerando algumas "performances" femininas de mármore um tanto licenciosas. Pereira Passos teria contratado Rodolfo Bernardelli, o maior escultor nacional, para entalhar alguns saiotes nos "traseiros" mais proeminentes...

Mas as qualidades artísticas da obra falaram mais alto e a fonte ali permaneceu por quase trinta anos, até que, em 1935, o prefeito Pedro Ernesto mandou removê-la para a entrada do túnel do Leme. Até 1983 funcionou como fonte, quando então foi suspenso o abastecimento dágua e a estátua foi cercada por horrendas grades, pois havia se convertido em banheiro de mendigos.

Vinte e três anos depois, essa obra de arte tão delicada ainda fica exposta às agressões de vândalos e da natureza; aqueles rostos finos, aqueles polidos contornos, sofrerão com o tempo desgastes que bem melhor seria evitar.

Milton de Mendonça Teixeira.

Avenida Nossa Senhora de Copacabana - 1892/1965

Pesquisa iconográfica realizada por Milton de Mendonça Teixeira - maio de 2.003.

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Cine Atlântico - Entre Ruas Siqueira Campos e Figueiredo Magalhães - 1.923.

J. Gutierrez - Estação de Bondes - Esq. de Siqueira Campos - 1892

J. Gutierrez - Estação de Bondes - 1894

An. - Estação de Bondes - 1903

An. - Igr. N. Sra. de Copacabana - 1903

Malta - Av. N. Sra. de Copacabana - 1906

Malta - Quiosque na Av. N. Sra. de Copacabana - 1906

A. Zöller - Av. N. Sra. de Copacabana - 1908

An. - Obras de alargamento - 1910

An. - Pça. Serzedelo Correia - 1911

Malta - Posto de Salvamento - Lido - 1912

Malta - Posto de Salvamento - 1912

M. Ferrez - Final da Avenida - 1913

M. Ferrez - Trecho da Avenida - 1913

Malta - Final da Avenida - 1915

Malta - Trecho da Avenida - 1915

An. - Trecho da Avenida - 1918

Malta - Vista geral - 1919

Malta - Estação de Bondes - 1921

Malta - Estação - 1921

Marcos de Mendonça - Vista - 1921

Malta - Vista do Morro do Inhangá - 1922

An. - Vista colorizada - 1923

Malta - Fundos do Copacabana Pálace - 1923

E. Visconti - Uma Lição na Pça. Serzedelo Correia - 1925

Malta - Av. N. S. de Copacabana - 1928

An. - Av. N. S. de Copacabana - 1928

An. - Café Pernambuco - Esq. de Siqueira Campos - 1933

Rembrandt - Cassino Copacabana - 1936

Malta - Av. N. S. Copacabana - 1938

An. - I. Matriz de Copacabana - 1948

An. - I. Matriz de Copacabana - 1948

An. - I. Matriz de Copacabana - 1950

Alice Brill - Pça. Serzedelo Correia - 1950

An. - Pça. Serzedelo Correia - 1954

José Franceschi - Vista geral - 1962

PLANO DA BARRA DA TIJUCA

A auto-estrada Lagoa-Barra, projetada em meados da década de sessenta, foi a certidão de nascimento do novo bairro da Barra da Tijuca, projetado pelo urbanista Lúcio Costa neste mesmo ano de 1968, e implementado em 1969. Pensou-se, assim como em Brasília, fazer a dupla de arquitetos Lúcio Costa-Oscar Niemeyer todo o projeto da Barra. Lúcio ficaria com o planejamento urbano, Oscar construiria os edifícios. O padrão da arquitetura da Barra seria o que fora utilizado pelo mesmo Oscar Niemeyer na torre do “Hotel Nacional”, executado em 1971 no bairro de São Conrado. Mas a especulação imobiliária falou mais alto e ninguém quis saber das torres envidraçadas de Niemeyer.

HISTÓRIA DA BARRA DA TIJUCA

Os primeiros habitantes da Barra da Tijuca foram os índios tamoios, que mantinham uma grande taba próxima onde hoje está a lagoa do Camorim. Seu nome era Guará-Guassú-Mirim (literalmente “filhote de lobo grande”). Em 1565, Estácio de Sá doou essas terras ao sesmeiro Antônio Preto, que nada fez com elas. Em 1570, Salvador de Sá, terceiro governador do Rio de Janeiro, mandou para a região diversos trabalhadores braçais índios, chefiados pelo cacique Mandu, para revolver a terra e plantar cana-de-açúcar. Ao que parece, a aldeia de Guará-Guassú-Mirim já havia sido extinta, ou os índios já teriam se mudado, receando contatos com seus novos donos da terra. Em 1594, Salvador transferiu as posses territoriais de toda a zona oeste da cidade a seus dois filhos: Martinho e Gonçalo.

A Martinho, menos empreendedor que o irmão, mas, por sua vez, mais afeito a aventuras, ficou com a várzea de Jacarepaguá (cuja tradução é “lagoa chata dos jacarés”). A Gonçalo, caberia toda a restinga de Jacarepaguá, áreas planas e praianas correspondentes às atuais praias do Vidigal, Gávea e Barra da Tijuca. Em setembro de 1594, Gonçalo fundou o Engenho Camorim, próximo à lagoa do mesmo nome (dentre as possíveis traduções de Camorim, está a de “robalo”, um dos peixes abundantes no local). Por muitos anos, a restinga da Barra da Tijuca foi tomada por extenso canavial. Em 1624, o Prelado Mateus da Costa Aborim, autorizou o funcionamento da capela de São Gonçalo do Amarante, minúscula capela que ainda existe tal e qual, em Vargem Pequena.

Em março de 1634, com diferença de dias, faleceram os dois irmãos Martinho e Gonçalo. Herdou as terras de Martinho o poderoso general e futuro Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de Sá e Benevides, de cuja memória os cariocas sempre guardaram a fama de ter sido homem atrabiliário e cruel. Por sua vez, a herdeira da Barra da Tijuca foi Da. Vitória de Sá, que não quis saber de administrar engenhos, pois se casou com o Governador de Assunção, D. Luís de Céspedes Xeria, mudando-se para as terras do marido, na América espanhola. Era a época da União das Coroas Ibéricas (1580-1640), onde as duas Américas foram apenas uma só propriedade, mesmo que só por um espaço de sessenta anos.

Depois de 1640, Da. Vitória de Sá, já viúva, retornou ao Brasil, só para saber que seu primo, na sua ausência, havia invadido suas posses e, literalmente, tomado a propriedade, que julgava aban