
ENTREVISTA
Gustavo Speridião
Por Virgilio Rocha
Para apreciar um objeto de arte, seja livro, filme, escultura, pintura, poesia, arquitetura ou música é preciso dedicação e tempo para observação e fruição, para que haja interação na bagagem cultural, histórica e sensorial. É o momento em que sensibilidade, emoção, sensualidade, experiência e humor se revigoram, incorporando novos dados e informações.
Este é o trabalho de artistas de vanguarda como Gustavo Speridião, entrevistado pelo Jornal JÁ, na Galeria Artur Fidalgo, no Shopping Cidade Copacabana(o famoso shopping dos Antiquários), onde estão expostos trabalhos de Speridião e outros artistas na coletiva “Alumínio Digital” que se estenderá até 1º de março de 2008.
Já no colégio ele criava desenhos, histórias e colagens nos cadernos, que rodavam de mão em mão, durante as aulas. Em 1998 entrou na Escola de Belas Artes e, logo, venceu o prêmio de novos talentos de pintura, promovido pela Heineken.
De lá para cá, participou de várias mostras e exposições individuais e coletivas.
Gustavo Speridião faz uso de técnicas variadas, que envolvem ferramentas e suportes diversos, desde os pilares da Perimetral, no cais do porto, tapumes, chapas de alumínio e até livros dos amigos, que são trabalhados por canetas, tesouras, cola, fotos e radiografias.
Duas idéias o instigam: como se tornou bípede (e os problemas políticos que isto acarreta) e a captura de nuvens pelo homem, justamente pelo fato de serem as nuvens o que há de mais fugaz, fugidio, impossível de ser feito e, às vezes, perigoso, como as nuvens de cogumelos atômicos.
Renomado escritor israelense da atualidade, Amos Oz, hoje pacifista, no seu livro Como Curar um Fanático argumenta que a melhor defesa contra o fanatismo político é o bom humor e isto Speridião tem de sobra no seu trabalho. Atendendo a um pedido de Gustavo, a entrevista está com trechos em vermelho. Confira.
Jornal JÁ: Quais os problemas de ser bípede?
Gustavo Speridião: A GRÁFICA UTÓPICA IMPRIME MELANCOLICAMENTE O PESADELO INSTAURADO COM A CAPTURA DAS NUVENS. O CIRCO DOS SONHOS E OS PALHAÇOS DE AÇO ENCENAM COM GLAMOUR O DRAMA COMO ME TORNEI BÍPEDE OU OS PROBLEMAS POLÍTICOS DE SER BÍPEDE. O DEFENSOR DAS NUVENS E OPRIMIDOS. ESCREVI ESTAS PINTURAS COM A PENA DA GALHOFA E A TINTA DA REVOLTA, E NÃO É DIFÍCIL ANTEVER O QUE PODERÁ SAIR DESSE CONÚBIO. A REVOLTA É SEMPRE ENGRAÇADA, E A GALHOFA ME FAZ RIR ÀS VEZES. ACRESCE QUE A “GENTE GRAVE” NÃO ACHARÁ NAS TELAS SEU ROMANCE USUAL, AO PASSO QUE A “GENTE FRÍVOLA” ACHARÁ NELAS UMAS APARÊNCIAS DE PURO ROMANCE; EI-LO AÍ FICA PRIVADO DA ESTIMA DOS GRAVES E DO AMOR DOS FRÍVOLOS, QUE SÃO AS DUAS COLUNAS MÁXIMAS DA OPINIÃO. MAS EU AINDA ESPERO ANGARIAR AS SIMPATIAS DA OPINIÃO, E O PRIMEIRO REMÉDIO É FUGIR DE UMA APRESENTAÇÃO EXPLÍCITA E LONGA. O MELHOR ESPETÁCULO É O QUE CONTÉM MENOS COISAS, OU O QUE AS DIZ DE UM JEITO OBSCURO E TRUNCADO. CONSEGUINTEMENTE, CONTAREI ADIANTE OS PROCESSOS EXTRAORDINÁRIOS QUE EMPREGUEI NA CAPTURA DAS NUVENS. O CERTO É QUE NUVENS DE MIL GRAUS VARRERAM ESSES ANOS, APESAR DE DORMIR BEM TODOS OS DIAS NO SILÊNCIO DO BAIRRO. O CERTO É QUE POSSO AFIRMAR QUE ME TORNEI BÍPEDE ENQUANTO OUTROS PERDIAM PERNAS. AFEGANISTÃO EM OUTUBRO (OPERAÇÃO “LIBERDADE DURADOURA”), 26 DE OUTUBRO É VOTADO O PATRIOT ACT NO CONGRESSO AMERICANO, QUE RESTRINGE AS LIBERDADES, 11 DE OUTUBRO DE 2002 O CONGRESSO AMERICANO AUTORIZA O RECURSO à força armada contra o Iraque e 20 de março de 2003 começa a operação “Liberdade Iraquiana”. Em 2007 chega a 000 o número de soldados americanos mortos no Iraque e aproximadamente 100.000 civis iraquianos (maioria mulheres e crianças).
JÁ: E as nuvens, como você as vê?
As nuvens parecem feitas de carne às vezes. Às vezes é um material mais morto. Morto ou carne, há a nuvem. De 1945 para cá, a sombra da aniquilação final paira sobre o destino da humanidade, sob a forma de uma ameaçadora nuvem em forma de cogumelo. Não ligamos mais. Antes risos do que prantos descrever. Acreditamos que Dada is Dead e que Deus é tiroteio. Não ligamos para nada e nada liga para nós. Acreditamos que Dada is Dad. De tão sem graça o mundo, tivemos que inventar algo para rir segurando a barriga enorme (dos outros). Rir como se ri da expressão Como dar arma para macaco ou Se compro um circo o anão cresce. Somos assim. Temos certeza absoluta de que o único que se libertou na Revolução Industrial foi o cavalo. Que a arte da paisagem não poderia ter nascido no deserto. Que Michelangelo esculpia em belos Mármores Escarrara (bem esverdeados). Que a dor é vida. Que é impossível comer o bolo sem o perder. Que todo sindicalista que se preza sabe que contra a direita e a elite, revolução é malevich. Que a nuvem partiu em uma nuvem fria, que não se faz mais antiguidades como antigamente. Que você pensa muito com a mente e rolamos de rir com isso. Toulouse Lautrec é Too Loser Lautrec! (Muito Perdedor Lautrec!! Com voz de Chuck D), Morandi não passa de uma conjugação do verbo morar (exemplo: Estou Morandi mal), andamos por aí saltitando e explicando que chamamos MarK Rothko de Arrothko, pois para nós se assemelha mais ao som que ocorre quando gases do estômago são expelidos através da boca para narrar os dramas da humanidade numa época de guerras e revoluções. Gazes são idéias que temos do que comemos. sós e Sorridentes, somos assim, a fila sem fim dos demônios descontentes. Explicado tão bem assim o Circo dos Sonhos que milita constantemente pela crise final dos pesadelos, penso que seria proveitoso dizer o que realizei com muito grado e litros de suco de suor de suvaco. O Bípede, disse eu, o autor, foi o primeiro a achar os quatro cantos da nuvem. Tarefa impossível, e só o impossível acontece, li em um muro.
Lançamento da exposição de Gustavo Spiridião, vencedor dop Prêmio Funarte Projéteis, no Palácio Gustavo Capanema. Confira:
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